domingo, 22 de janeiro de 2017

Entre braços

O coração fala nos momentos de silêncio.


Abraço

Entrelaço um braço pelo seu ombro e outro pela cintura
Apoio as mãos em suas costas
Os braços pressionam como que para garantir a posição perfeita
Então encosto rosto, corpo, cheiro, alma
E ali, naquele breve instante, meu coração bate junto ao seu
Só eles dois falam durante o silêncio da voz
E dizem um para o outro tudo aquilo que não havia sido dito
Selam entre eles o amor e carinho até então negado  
Conversam tão alto que tenho medo das pessoas ouvirem ao longe
Tudo em um abraço

Em um momento de silêncio que durou a eternidade de apenas um instante.



"A felicidade vai desabar sobre os homens."

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Incompreensível

 Entre tantos mundos particulares, seria muito pedir por compreensão.

A mesma frase lida por duas pessoas não tem o mesmo significado. Lida em dois dias diferentes também não. Lidas pela mesma pessoa, no mesmo dia, em locais diferentes, muda mais ainda. Cada instante é um mundo de singularidades.


Aquele cartão era para você, para aliviar a angústia de não ser compreendido. Era para fazer da ilusão uma realidade.

Sem palavras ou gestos explícitos eu entendi que você estava lá por mim, para quebrar o laço que nem havia se formado. Por instantes percebi a voracidade e amorosidade do seu coração. No tempo de um abraço de quem diz foi bom te conhecer. Que pena que a vida é breve e os momentos bons mais breves ainda.  

Queria te contar o quão nu seu espírito é. O quão fácil é para olhos treinados como os meus perceber no sorriso silencioso, entre uma gota de chuva e de lágrima, seu desejo contido.


Todo o amor do mundo é incompreensível.



Mas Fica bem. Se cuida. E vai com Deus.  
Um dia, quem sabe, nos veremos mais uma vez.



sexta-feira, 9 de setembro de 2016

E agora?

Olha moço, só posso te dizer que as certezas de ontem já não cabem mais no dia de hoje. E os sonhos de outrora perderam o brilho. Perdi as rédeas moço, agora sou só eu e esse cavalo selvagem. 

Quem me viu há um mês atrás poderia descrever em poucas palavras os meus sonhos e ambições para o futuro. Venho trilhando um caminho incerto e árduo por pelo menos oito meses, quase um parto, e dentre respostas positivas e dificuldades tenho tentado me equilibrar nessa tênue linha que liga minhas ambições à realidade.
Acontece que na última semana algo mudou. As rédeas que me prendiam ao cavalo partiram e eu caí. E agora moço, lá estava eu, frente a frente com aquele cavalo que nunca me obedeceu, que sempre correu na hora do trote, que dava pinotes quando eu precisava passar em silêncio. Lá estávamos nós, tete a tete e sem amarras.
Pois bem, decidi que aceitaria o que viesse. Moça, ninguém dá tiro no escuro. Que escuro, moço? Que tiro? Eu nem falei de violência e você já me vêm com essa conversa. Deixa pra depois, moça. Não é hora. Já não dá pra você. Olha moça, é difícil. Isso aí que você conseguiu foi a parte fácil. E essa idade, sei não, você já tá ficando velha pra isso.
E lá estávamos nós moço, eu e o cavalo, e eu olhava dentro dos olhos dele sem medo de nada. Mas moço, veja bem, o cavalo é selvagem e ele também não tinha medo de mim.
Foi quando os sonhos perderam o brilho moço. Foi alí naquela horinha mesma, quando eu descobri que independente do que escolhesse o resultado ia levar a uma coisa só. Que não adiantava eu laçar o cavalo ou agarrar ele pelo pêlo. Tudo leva a um final, que é o trabalho, moço. No final só nos resta trabalhar, independente do meio o final é um só. Talvez esse trabalho seja em locais diferentes, com coisas diferentes, com pessoas diferentes, mas só Deus sabe moço a satisfação que você vai sentir quando esse dia chegar. É que a gente não sabe de nada, viu.
Eu tava lá parada e ele olhando pra mim. Deu duas passadas pra trás. Olhei de lado como quem diz, tá indo pra onde? Mas nada aconteceu. Ficamos naquela posição como que duas estátuas. Eu guerreira sem as botas, de pé, braços jogados ao lado do corpo, entre as mãos as rédeas partidas. Do outro lado o cavalo de pêlo escuro, olhos úmidos e vivos, grande, bicho de porte, dava para ver que era forte o animal pelas ancas massudas.
Nesse momento eu reparei moço, que o bicho era tão danado de grande que podia me destruir em dois tapas. Mas não tive medo, só que também não quis brigar. Veja só moço, eu tenho medo só de uma coisa, que é de perder minhas convicções, meus sonhos, a vontade de viver sabe. Enquanto eu olhava pro cavalo eu percebi que meus sonhos não eram colocar as rédeas ou adestrar aquele bicho bravo, meus sonhos eram me tornar um ser humano, humano mesmo, daqueles que sentem e vivem, do tipo que ama e sente compaixão, sabe moço? O sonho era servir ao próximo e ajudar as pessoas a se sentirem bem e felizes. Moço, pois veja só! Não é que eu havia mesmo perdido as rédeas? Foi aí que eu descobri que todo o resto era o ego, era a vontade de ser mais. Ora, que hipocrisia a minha vestir o lobo de cordeiro.
Quando eu entendi tudo isso resolvi largar as rédeas. Que o cavalo seja livre. E os meus olhos secos se tornaram úmidos. E lá fomos nós, eu e o cavalo, como que dois amigos que depois de muito tempo distantes e brigados se encontram e se entendem. Veja só moço, sem rédeas, só eu e o cavalo selvagem.


O amor Deus proverá. 










segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Aquilo que não é meu

Inúmeras vezes somos dominados por uma emoção que não é nossa. Aquela sensação que sobe de repente pela nossa cabeça e nos apodera como raiva, tristeza, vontade de gritar, chutar, ser arrogante, destruir, quebrar. De repente. De repentemente essa emoção chega. Não sabemos o motivo dela iniciar, ela simplesmente se apodera de nós.

Choro e quando me perguntam o motivo eu não sei explicar. Quero bater portas e janelas, quebrar os vidros, mas não sei a razão. Lembro de quando era criança e passava por essas situações sem explicação. Praticamente todas as vezes eu inventava um motivo para as emoções inexplicáveis, visto que ninguém aceita choro sem motivo nem raiva sem razão.

Foi então que descobri que essa emoção não era minha. Nunca foi. Nunca será. Ela chega de outros que estão ao meu redor, ela vêm no tom de voz, na narração do dia estressante, cheio de gritos e raiva.

Essa emoção não é minha. 

Junto com a raiva e a tristeza vêm um aperto no coração, enjoo, uma pressão na cabeça ou na nuca. Essa emoção não é minha, repito mais uma vez para poder afirmar ao meu coração que se acalme, não se identifique e que isso vai passar. Assim como veio, irá embora.

Muitas vezes por estarmos perdidos em nossos pensamentos não nos damos conta do que ocorre ao nosso redor, muito menos da origem das nossas emoções. Várias vezes estamos tranquilos, mas ao nos aproximarmos de uma pessoa ansiosa ou nervosa acabamos sentindo as mesmas coisas e partilhamos inconscientemente suas emoções, as levamos para casa e reproduzimos em amigos e familiares.
Contudo, quando começamos a observar a nós mesmos, nossos pensamentos, emoções, ações, palavras... Fica ligeiramente mais fácil detectar quando uma emoção externa começa a nos apoderar. Ela chega como uma pedra jogada em águas tranquilas. Quando estamos observando podemos detectar a pedra chegando, o movimento que provoca na água e como que por instinto nos afastamos do atirador de pedras. Mas se estivermos imersos em nossos pensamentos e devaneios, a pedra atirada, por menor que seja vira um monstro. Reagimos durante horas a esse evento que como por encanto iniciou.

Sabe Deus de nossas limitações e sabemos nós o que mora em nosso interior.

Essa emoção não é minha. Nem nunca será.





quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Véu dos meus olhos




É fácil ser bom entre os bons.

É fácil ser gentil entre os gentis.

Honra o seu caráter quando for bom entre os lazarentos de coração.

Se alegra do seu progresso quando for gentil com os arrogantes.

Porque qualquer um pode ser bom entre os bons, mas só os verdadeiros conseguem passar pela prova.


Lembra: É fácil ser bom entre os bons.


Like the wind

Naquele dia eu cheguei super cedo, acho que com uma hora de antecedência, pensei em estacionar o carro e caminhar próximo à praia, mas aquele sol de meio dia me fez mudar de ideia. Andei até a praça ali perto e sentei em um dos bancos. Do outro lado, no meio da praça estavam uma senhora, uma jovem, um senhor e um menino  nuelinho de aparentemente dois anos de idade.
Qualquer um veria que eram moradores de rua e que estavam ali almoçando. O menino era filho da moça de short jeans e blusa de alça. Danado que era não parava em um canto, moreno, com as perninhas definidas como todo criança tem, tinha no lado direito do rosto um arranhão vermelho vivo que devia ter sido de alguma queda recente.
Flavinhooo! Flavinho, desce daí. Sua mãe chamava enquanto ele ria e corria ao redor da praça brincando sozinho. Corria atrás do pombo, caia, levantava, subia nos bancos e chamava atenção de todos que passavam pela beleza da sua nudez de criança, nudez de corpo e de alma.
Não lembro quem sorriu primeiro, só sei que ele veio brincar perto do banco em que eu estava sentada. Subia no banco, pulava no chão, sentava do meu lado e olhava atento pra o papel que eu segurava como se também quisesse saber que negócio interessante (ou não) era aquele que me prendia a atenção. De repente Flavinho pegou uma folha do chão e falou "Óo!" e eu respondi "Hmm, a folha é da árvore" com aquele tom de quem acabou de falar algo super importante. Mas ele continuava "Ó, ó!", parou embaixo da árvore, olhou para cima e suspendeu a mão que segurava a folha como se quisesse de alguma forma prender novamente aquela folha amarelada na árvore.
Nesse instante eu sabia que havia algo ali para eu aprender, e que aquela criança me mostrava alguma coisa que até então eu não tinha entendido. Flavinho veio até mim e me deu a folha, na verdade ele jogou a folha na minha direção. Eu peguei do chão e segurei para entregá-lo, mas ele olhou para mim, apontou para o topo da árvore e fez "Ó". Eu já tinha entendido que ele queria prender a folha na árvore novamente. Tentei falar alguma coisa sobre não ser possível, mas que não me recordo bem agora. Depois disso ele brincou, caiu, jogou folha e pedra para cima e eu tive que ir embora devido ao horário.

Mas o que aquele menino nuelo queria me mostrar?

Dentre as várias interpretações daquele dia eu entendi que tudo passa, tudo tem seu tempo e que por mais que façamos um esforço para retornar ao que já se viveu não há como fazer isso acontecer. Assim como a folha que cai da árvore não pode ser presa novamente ao galho, nós não podemos nos prender a locais, pessoas ou momentos que passaram pela nossa vida.
A árvore era uma amendoeira daquelas que tem a folha grande e vistosa. O topo da árvore estava cheio de folhas de cores variadas, várias verdes, muitas alaranjadas, outras quase vermelhas. Apesar de ser final de inverno aquela árvore parecia ainda estar no outono. Cada folha em um momento diferente de desenvolvimento compartilhando da vida em comum presas aos galhos da árvore. Mas aquela na mão de Flavinho já havia caído, seu tempo no galho tinha terminado e ela agora voava errante com o vento.
De certa forma nossa vida também é assim. Podemos ser como uma folha na vida de alguém. Brotamos, participamos da vida daquela pessoa e depois com o tempo viramos a folha caída que não encontra mais espaço entre os galhos. Ou mesmo quem sabe a árvore ali mostrasse a energia que nos move e cada folha nosso momento de desenvolvimento e crescimento na vida.

Mas não se devolve ao galho uma folha caída... ou devolve?
Não sei... Só sei que tudo passa... tudo passará.
Cabe a nós viver o hoje.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Tarô (copiei e colei aqui para me lembrar depois)

 
Orientação

Olhando bem para a ilustração, você já fica com uma primeira idéia do que esta lâmina quer transmitir: um anjo multicolorido voa pelo espaço ilimitado levando consigo a figura de uma mulher: não encontro expressão mais linda para definir o nosso mestre interior do que esta representação.

Mas, se notar bem vai ver que a figura feminina está com o rosto virado para esta figura angelical. O que isso quer dizer? Quer significar que muitas vezes damos às costas ao nosso bem mais precioso: nossa proteção, nosso guia interno, nosso mestre, nossa intuição: aquela voz que vem do coração e que fala primeiro que nosso cérebro.

E por que fazemos isso? Porque fomos viciados em acreditar apenas naquilo que vemos com nossos olhos, ou apalpamos com nossas mãos ou pés. Os estímulos do mundo externo são, para nós, muito mais reais do que a nossa sabedoria interna. Por isso nos tornamos discípulos de alguém, fanáticos de uma religião ou caminho, apegados a pessoas que nos rodeiam, achando que são eles os nossos guias. Vã esperança! O nosso guia não está fora de nós. Está dentro de cada ser.

Literalmente é isso que a carta diz. Acompanhe: “A verdade do seu próprio ser mais profundo está tentando mostrar-lhe o caminho a seguir neste exato momento e, quando esta carta aparece, significa que você pode confiar na orientação interior que lhe está sendo dada. Esta orientação vem por meio de sussurros, e algumas vezes podemos hesitar, sem saber se compreendemos corretamente. As indicações, porém, são claras: seguindo seu guia interior você se sentirá mais pleno, mais integrado, como se estivesse se movimentando a partir do centro do seu próprio ser. Se você a acompanhar, essa célula de luz o conduzirá exatamente onde você precisa ir”.

No entanto, nem sempre é fácil ouvir esta voz interior. Para isso é preciso calma, sossego, paz. Se você sente que um exercício com imagens mentais poderá ajudá-lo a encontrar seu guia interno, tente este. Faça por 7 dias sempre ao acordar e, se sentir que resultou, repita por mais 14 dias, completando um ciclo de 21 dias. Ou continue fazendo sempre que sentir necessário. Se estiver fazendo outro exercício não misture. Espere que o outro acabe para começar este.

Exercício para encontrar seu mestre interior. 

Sentado, olhos fechados, pés firmes no chão, mãos apoiadas nas pernas com as palmas viradas para dentro, respire calmamente três vezes e leve sua atenção para a sua intenção (que está no título do exercício) e veja, sinta, ouça, perceba ou imagine que entra dentro do seu coração pelo orifício do seu corpo que achar melhor. Examine bem o ambiente do seu coração. Se estiver apertado alargue o espaço. Se estiver escuro ilumine com luz cor de rosa. Se as paredes forem opacas substitua por cristais translúcidos. Caminhe então para o centro do seu coração chamando pelo seu mestre. Conte lentamente e mentalmente até 6 e veja ou imagine que vê uma porta que se abre e por ela entra o seu mestre . Vá ao encontro dele. Abrace-o e seja abraçado por ele. Ouça o conselho que ele tem para lhe dar. Então marque um encontro com ele para revê-lo todos os dias. E sentindo que encontrou seu mestre, despeça-se dele, saia do seu coração pelo mesmo caminho que usou para entrar dentro dele e sentindo-se pleno, leve, alegre e firmemente sentado na cadeira, respire e abra os olhos.

Qual foi o conselho que ele lhe deu? Escreva o conselho num caderno que reservou só para isso.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Fatos reais de uma vida de ilusões

A primeira vez que te vi nem reparei que você existia. Me ofereceu uma cadeira para sentar, pouca diferença me fez, lembro apenas de ter visto do seu pescoço para baixo, alto, largo, de jaleco e com andar meio desajeitado. Da segunda vez que eu te vi você estava sentado debruçado em sua mesa trabalhando, foi quando soube que trabalharia com você. Dessa vez eu vi seu rosto, nada me atraiu, seu sotaque puxado menos ainda. Lembro que você me deu algo ridículo e despretensioso para fazer, mesmo assim eu fiz como se fosse a coisa mais importante que eu já havia feito. Da mesma forma eu procurei o que fazer porque você aparentava não ter ideia das atividades que poderia passar para mim.
Um dia você me mostrou a área dos animais e se comportou como tal, tal como uma raposa que sutilmente se aproxima da preza. Me perguntou como era ter um relacionamento no meu país, te expliquei qualquer coisa sobre as contradições que ocorrem e o meu ponto de vista. Você queria saber se eu achava certo ou errado e eu tentei te dizer que não acredito em dicotomia. Naquele dia quando saímos dali minha intuição falou que aquela pergunta era você sondando a minha vida com segundas intenções, mas não quis acreditar nessa verdade e simulei para mim mesma que era apenas uma curiosidade.
Por duas semanas eu trabalhava com você apenas durante os finais de semana, mas quando a rotina se normalizou eu te via de domingo a domingo, das nove da manhã às cinco da tarde, e muitas vezes comecei a te ver depois das cinco. Nunca te contei, mas eu te achava parecido com uma máquina fazendo coisas automaticamente, sem demonstrar o que se passava dentro de você. Durante esse meio tempo eu tive problemas, inúmeros problemas que eu não tinha como solucionar, fugiam do meu alcance em proporção e distância, pois ocorriam em outro país. Eu não sei se eu era transparente para você, mas toda vez que eu estava triste você sabia, se com dor você identificava, se cansada você também me dizia. Sei que uma de suas qualidades é ser um bom observador, mas você me lia por inteiro e sabia como me acalmar. Passou a ir caminhar comigo, me disse que não conhecia a cidade e eu como descobridora de mares me ofereci para te mostrar.
Em poucos dias fomos fazer uma trilha, que para mim era apenas uma longa caminhada. Você levou sua câmera, se deitava pelo chão tirando fotos, não é de se estranhar já que com seus quase dois metros de altura se abaixar não seria suficiente. Tentou me ensinar a usar sua câmera, aperta assim, segura assim, quando eu vi estava por trás de mim e eu entre seus braços querendo achar que aquilo não era mais que a sua amizade. Tirei sua foto umas trinta vezes até uma ficar boa. Nunca entendi como eu saia bem nas fotos que você tirava, mas você sempre desaparecia nas que eu fotografava. Fazer o quê né, a câmera era sua há anos, eu não ia aprender em segundos o que você levou anos praticando.
Nesse mesmo dia quando caminhávamos para casa paramos em um restaurante para lanchar. Lembro como se tivesse sido ontem a minha cara de medo e susto quando se declarou para mim. Não quero te enganar saindo como se fosse seu amigo, eu quero ter um relacionamento com você, gosto de você. Suspirei, não conseguia mais comer. Tudo que suspeitei era verdade menos a sua intenção de sermos apenas amigos. Te disse que não sabia o que fazer com essa situação, trabalhávamos juntos, convivíamos juntos, não poderia passar disso. Comemos. Conversamos e eu sem saber como sair dessa resolvi apelar pelo tempo. O caminho inteiro para casa você continuou a se declarar para mim afirmando que sabia que daríamos certo juntos.
O cemitério na minha vida possui um local especial. Meu primeiro beijo tinha vista pro cemitério. Quando você explicou o motivo da sua declaração estávamos parados em frente ao cemitério que fica no meio da cidade. Me falou do seu trágico primeiro amor, amor que nasceu do silêncio e morreu antes mesmo de brotar na terra. E como eu era parecida com seu primeiro amor, e como isso era pra você a chance que havia recebido de fazer o que você não fez da primeira vez. Se declarar, tirar o amor das sombras e fazê-lo brotar. Fazia frio, mas por ser verão eu não havia levado meu casaco, você me deu o seu e eu com muita relutância aceitei, aceitei também a sua declaração.
Quando cheguei em casa me arrependi de tudo, achei que havia errado desde o princípio e te mandei uma mensagem de que não poderia ficar assim, que eu não deveria ter aceitado e que voltava atrás. A partir daí não tinha mais um dia de paz, sua segunda qualidade que impressionou foi a persistência e dedicação, mesmo ouvindo não diversas vezes ao dia, diversos dias na semana, você não desistia. Fizemos um acordo de que eu aceitaria sair com você como amigos e se um dia despertasse algum sentimento por você conversaríamos novamente. Você me fez aceitar que eu te encontraria todos os dias após o expediente e que caminharíamos juntos como uma forma de nos aproximarmos. Te devolvi o casaco, mas aceitei caminhar com você.
Muito tempo depois você me disse que tomou coragem para se declarar por mim porque eu era legal e gentil com você. Nunca pensei que isso seria motivo para alguém se declarar, eu sou legal com todo mundo, imagina se o critério fosse apenas esse. Mas para você foi a chama que acendeu sua persistência.
Tinha dias que eu não aguentava mais, eu ia ligar para polícia e te denunciar, quis chamar sua chefe e dizer tudo, mas não fiz. Você se mostrava responsável com seu trabalho, falava com sua família todos os dias, trabalha para eles, vivia para eles, sustentava seus sonhos e os de sua família sozinho. Se orgulhava em ver sua família vivendo bem mesmo quando você tinha que se privar de ambições e anseios para isso. Eu não queria destruir tudo. Não era justo, eu não achava justo.
Você me dizia que nunca teve uma namorada e a única namorada que teve foi imaginária, era uma amiga a quem nunca se declarou, com quem sonhou casar e ter filhos, mas que se foi antes de terem tempo mesmo que para dizer eu te amo. Vi você chorar por um amor que nunca se materializou, vi você usar um boné mesmo na chuva por ter sido da sua sobrinha que você não via há meses, vi você me amparar quando eu precisei. E não precisei ver mais do que isso para entender que mesmo não me sentindo atraída eu gostava de você.
Lembro do nojo que senti da primeira vez que pediu para segurar a minha mão. Você não acariciou, não fez nada mais que segurar a minha mão. Eu sentia os calos na sua palma, a pele grossa e áspera me fazia não querer segurar sua mão por mais tempo. Pedi que soltasse, que parasse de usar as caminhadas para se declarar de novo e de novo, mas que fosse um momento para falar mais de cada um, dos gostos, da vida. Você disse que eu iria me arrepender, que sabia que eu gostava de dormir com a cabeça apoiada em seu ombro, falou mais umas duas coisas que eu gostava e que não lembro agora, então me disse que para você nós já tínhamos vivido juntos em outra vida, outro momento.
Passamos a ir no mercado juntos, você carregava meus milhões de sacos mais os seus até em casa, eu não queria deixar, mas você insistia e levava quase tudo sozinho em uma caminhada de mais de meia hora. Brincava comigo se fazendo de besta e me fazia rir mesmo a contragosto, olhava para mim e se deixava bater contra a parede, passava o cartão do ônibus para abrir a porta e falava besteiras em uma língua inventada por você que me davam raiva, mas que ao mesmo tempo eu achava graça. Quando passávamos por algum casal de mãos dadas você fazia o favor de me mostrar e dizer que devíamos andar do mesmo jeito. Cheguei a chorar na sua frente de aflição pela persistência descomunal em um relacionamento que eu não via como iria começar ou terminar sendo você de um mundo e eu de outro.
Até que um dia você me convenceu. Fomos caminhar em um dos locais que eu mais gosto, ao lado de um rio descendo a colina que vez ou outra faz cascata de cachoeira. Tem uma escadinha que dá em frente a ponte que liga as duas margens do rio, fica em cima da parte que parece cachoeira, do lado direito um banco de praça em baixo de uma árvore. Sentamos no banco para olhar o rio. Já havíamos sentado ali inúmeras vezes, almoçado ali, lanchado ali, mas dessa vez apenas sentamos. Você virou para mim e disse que tínhamos feito até então tudo que um casal faz ou mais que isso, pois nos víamos todos os dias por mais de doze horas em um dia de vinte e quatro horas, saíamos todos os dias, nos dávamos bem juntos, trabalhávamos bem juntos, só não nos beijávamos. E foi aí que você me desarmou e nos beijamos para depois nos acabarmos na risada, pois você apesar de ter insistido tanto não sabia o que fazer. Seu primeiro beijo era meu.  
Dali em diante você parou de ser persistente pois sabia que já havia me ganhado. A rotina era a mesma, mas em sua loucura você não sabia o perigo que era se descobrissem que estávamos juntos. Decidimos então que o relacionamento seria só nosso, sem divulgação nem conhecimento de ninguém. Nos separamos por duas semanas e como se fosse brincadeira do destino você me ligava quando eu pensava em você, e eu te mandava mensagem na exata hora em que você abria o celular.
 Você sempre sério me fez acreditar que por mim faria do meu mundo o seu mundo. Que ficaríamos juntos e que os seus filhos seriam os meus filhos. Descobri que eu gostava de segurar sua mão, de deixar a minha cabeça repousar sobre o seu ombro e de conviver com você apesar de sua displicência e de nada ser perfeito, pois nada é perfeito, mas fazíamos boa convivência em todos os sentidos.
Descobri que era verdade quando você me dizia que daríamos certo, que eu iria me arrepender por não termos ficado juntos logo. Não me arrependi de fato, mas desejei ter tido mais tempo com você. Viramos um casal que convivia vinte e quatro horas juntos sem aparentemente ninguém saber. Apesar de me dizer que nunca havia abraçado uma mulher em um relacionamento você sempre soube o que fazer, nunca me machucou nem mesmo me deixou sem sentir desejada. Pelo contrário, você sabia a pressão certa de me segurar, eu cabia exatamente em seus braços e você em minha calça, seus pés em meu sapato. Mesmo sendo uma pessoa gigante suas mãos eram do tamanho das minhas e suas roupas também cabiam em mim. Nunca entendi que proporção era essa, mas tudo bem.
Discutíamos a fome, a pobreza, a soberba, e a marca do papel higiênico que iriamos comprar. Você veio para minha casa porque sabia que eu nunca iria aceitar casar com alguém que eu meramente conhecia. Você veio e abriu espaço em meu coração para entender que eu tenho sim capacidade de viver com alguém, e viver bem. Quebrou meus traumas e me fez ver que no fundo talvez não seja tão ruim assim ser um casal.
Eu brigava com você, mas você nunca brigou comigo, nem nunca me deixou chorar. Era tão chato com isso que nem quando eu queria eu chorava só por causa da sua chatice. Fiquei triste e você passou a ser mais organizado com suas coisas, bebia menos, fumava menos. Você era todo errado, mas mesmo assim eu gostava, e gostava mais ainda por você admitir que não era perfeito. Você nunca foi bom pra fazer escolhas, gosta do belo, do que desperta o seu coração. Também nunca me explicou ao certo porque decidiu loucamente que precisava ficar comigo mesmo sabendo do risco que corria se eu denunciasse todas as mensagens que tinham sido enviadas por você.
Eu vivi com você um misto entre amor e admiração. Não vou contar mais porque levaria muitos dias para explicar tudo o que nos levou a chegar até aqui.

O amor é mais forte que a distância, era isso que você dizia e são essas as palavras que eu me forço lembrar quando você some entre seus problemas e faz como se esquecesse de mim.
Todos os dias eu acordo pensando em desistir de você, no presente você não passa de uma lembrança boa e saudosa do dia em que eu pensei ter encontrado o meu amor personificado. Você, a quem eu tanto refutei, a quem eu mostrei minha fragilidade e fortaleza, você... essa pessoa que eu tenho que decidir todos os dias se ainda está comigo ou não. Você que fez tanto e que hoje não faz mais que desaparecer. Você por quem eu já chorei e roguei a Deus para que me fizesse esquecer.

Você...



A minha intuição diz para eu ter paciência, mas só Deus sabe até onde isso vai chegar.




“Se está escrito antes dos tempos...”