quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O luxo de ter o básico

Quando eu acordei minha mente estava limpa, sem aquele excesso de pensamentos e preocupações, o maxilar relaxado, e debaixo da coberta or ar quentinho me envolvia. 

Levantei ainda com o corpo cansado, mas a mente afiada. Depois de muito tempo, não consigo nem contabilizar quanto, consegui ler um texto concentrada - claro que pequenos desvios aqui e ali - mas alerta às palavras, compreendendo com o mínimo de esforço. Aos poucos fui percebendo uma mudança sutil ocorrendo, como se aos poucos o meu cérebro estivesse relaxando, tranquilo, sem se ocupar em pensar como será a próxima hora.

Onde você mora? Qual a qualidade de onde você mora? Quão confortável é esse lugar?

Não estou aqui a falar de mansões, mas seu lugar te proporciona conforto térmico e físico? Você se sente segura/o?

Quanto você gasta por mês com contas essenciais? Sobra um pouco para o lazer ou uma emergência? 

Você precisa escolher entre um pão de qualidade ou a passagem do transporte?

De novo, não é sobre estar no 1% mais rico, mas sobre dignidade. 

A água que você bebe é filtrada?


Me lembro de quando comprei um filtro de água, faz alguns meses, a sensação interna de dignidade foi tão intensa que eu nunca imaginei que sentiria isso com uma vasilha com um filtro de carvão dentro. Mas são esses detalhes do dia a dia que moldam nosso nível de estresse, o excesso de preocupações e a qualidade da nossa vida. 

Poder chegar em casa, acender as luzes para espantar a escuridão e sentir o aquecimento ligado sem ter que enfrentar a angústia da invasão do frio pela janela e paredes, que ultrapassa as camadas da cama e invade o corpo. Só em saber que tudo será provido e nada lhe faltará faz muita diferença. 

O luxo de ter o básico! 

Seria um luxo ter dignidade? Não deveria, mas infelizmente, na sociedade que vivemos parece que ainda é para muitos de nós. 

O luxo de morar em segurança,

ter o necessário para viver,

pagar as contas sem entrar no vermelho,

ter um hobbie,

poder escolher,

ter tempo,

sentir a mente relaxar tranquila

ao saber que está tudo bem. 

O pão em cima da pia lembrando a fartura onde a comida nunca falta.  


De repente eu entendi o quão maléfico pode ser para a mente não ter o básico ou estar sempre na corda bamba entre ter e não ter. O quanto de estresse nosso corpo acumula ao sempre se preparar para o pior. E como faz bem ter dignidade! O mínimo, o essencial, o necessário, o básico garantido, e o mundo fica até mais colorido.


Que tenhamos todos o luxo da dignidade! 











quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Não tenho tempo para mim, e você?

 Abri o notebook, a ideia era escrever algumas linhas sobre não termos tempos para nós mesmos. Mas assim que tirei a roupa da rua e o corpo encostou no sofá que também é cama, adormeci instantaneamente. Quando acordei no meio da noite reafirmei para mim mesma, realmente, não temos tempo para nós. 

Um mundo de consumismo que nos consome cada dia mais. Suga nossa força ao ponto de não sabermos qual direção tomar. 

Escrevo aqui para nos lembrar que a vitalidade, a saúde, os dias ociosos são a riqueza e a preciosidade da vida. 


As pausas são valiosas como diamante. 

O silêncio externo e interno vale mais que ouro. 

E uma mente tranquila, não tem nada que pague. 


Na janela espalhei sementes e comida para os pássaros. Uma semana passou e nenhum veio visitar e comer os lanches, talvez estejam esperando a primavera. Que tenhamos a paciência de aguardar pelas primaveras da vida.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pequenos passos, pequenas reflexões

Uma inspiração profunda, uma expiração barulhenta. Respiro depois de muito tempo de forma consciente, sinto meus dentes rangerem e o único som que escuto além do ruído do ar que sai com força pelas narinas é o motor do freegobar e os ponteiros do relógio. 

Tic Tac 

Tic Tac

Já repararam que nunca é Tac Tic?

O tempo parece que não volta mesmo. Ele também não para, no máximo se arrasta vez ou outra, mas no dia a dia ele passa sem pena. 

Minha mente cheia de pensamentos entrecortados, como reels que começam do nada e terminam em poucos segundos. Não vejo a hora de me livrar desse hábito horroroso que consume meu tempo, entre uma rolagem e outra da tela, se vão minutos preciosos, minha capacidade cognitiva, e a chance de fazer algo por mim. Num engano entre micro vídeos com micro emoções, em que invisto os meus segundos de descanso, termino cada vez mais cansada. 

Tic

Tac 

Alguém aperta o pause, por favor?

Meu trabalho se acumulando, os livros com poeira, as linhas de tricô sentadas me olhando. 

Não dá tempo nem de adoecer direito, tem que ser correndo, recuperar às pressas porque as pendências não param de somar. Não dá tempo de mudanças com calma, de sentar entre um esforço e outro. Há uma urgência que toma por dentro e exige velocidade. 

Tic Tac 

Tic

Hoje eu vou jogar tudo pra cima

Tac

E no fim do dia lembro do que não foi feito com pesar.

Tic

Mas é isso, senhoras e senhores, a vida é feita de escolhas. Um dia de descanso para renovar-se por dentro e por fora, vale mais que um dia fingindo fazer algo. 

Tac

Sofremos em situações que nós mesmos nos colocamos, e em que somos os próprios responsáveis por nos tirarmos de lá. 

Tic

Respiro fundo

Tac

Se a gente não cuida da gente, quem vai cuidar?

Tic

Sigo tentando pisar no freio da vida, reduzir o ritmo, apreciar o tempo que assim que passar não volta mais. 

Tac

O Tempo, ah, o Tempo! Me visite com calma, amigo Tempo. Sem pressa de ir embora, chegue cedo, sente comigo e vamos admirar os galhos das árvores balançando pela janela. Tempo, tome um chá comigo, escuta minhas ideias, desejos e histórias. Me conte pra onde você vai, seus segredos e mais íntimos mistérios. Ai meu amigo, tem paciência, um passo por vez, me espera!

Tic Tac

O tempo não é amigo nem inimigo de ninguém. Ele só é. 




quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Quantas vidas cabem em um ano?

 Começo a escrever com o sentimento de que em 2025 eu já vivi 3 ou 4 anos condensados em meses. Transições, mudanças abruptas, montanha-russa em emoções e tremores no chão onde pisam meus pés. 

Que ano, amados e amadas, que ano! 

Ao mesmo tempo que chegou com grandes conquistas também trouxe altas doses de ansiedade, estresse, urgência por concentração, e reflexões sobre a minha estadia no mundo. 

Às vezes percebo que mesmo se a gente se acabar de trabalhar não vai acessar alguns espaços que exigem rios de dinheiro, nem ter a casa de vários quartos e sofá duplo na sala, mas ao mesmo tempo me pergunto, será que é isso mesmo que eu quero?

Comecei a ler um pequeno livro sobre agradecer e mesmo sendo algo simples  tem feito a diferença. Tenho me esforçado para mentalmente agradecer pelo que já tenho, pelo que sou, pelas situações que acontecem em momentos que os pensamentos divagam. Às vezes me surpreendo com o que ocorre na vida dos outros e sinto um cadinho de inveja, mas me lembro novamente por tudo que sou grata. Não é mágica, mas aquece o coração. 

Recentemente enquanto andava na rua cheguei a conclusão do que quero pra mim. Quero viver uma vida em que eu me faça feliz pelas escolhas tomadas, abraçada por dias de paz e sossego. Uma vida simples, livre de excessos e complicações desnecessárias. Uma vida preenchida pela possibilidade de desenvolver meus potenciais criativos através da arte, do meu trabalho, das relações humanas criadas. Uma vida onde o sangue pulsa correndo pelas veias e a gente sente a alegria em estar vivo. 

Com a paciência de um artesão que dedica sua atenção a pequenos detalhes de uma peça, que faz e refaz com dedicação e esmero, quero me dedicar aos pequenos momentos dessa vida, aqueles que passam despercebidos, mas que são feitos por eles o alicerce do nosso existir. 

A mais linda obra não é um prédio ou um local de luxo, é ser você mesmo em sua essência e potencialidades.


antigos sonhos

respiração lenta

movimentos dançantes 

risos sem motivo

poesia

tempo de paz

Agradecer por existir.

 

terça-feira, 25 de março de 2025

E eu sei lá

 Chegou meu certificado de adulta esses dias, mas não veio por correio nem por e-mail, chegou de surpresa em uma impressão de ausência de ânimo e sentido. Veio no corpo marcado por seriedade, estilo profissional, só que meio sem vida. 

De início estranhei, não consegui entender o que era aquilo. Aos poucos fui lendo os sinais e entendendo que havia cruzado a linha da vida adulta. Sem brincadeiras, sem canções, sorrisos curtos e sem graça, olhares vazios. Só podia ser isso.

Tomei mais um copo de água, comprei uma marmita, olhei o notebook com meus compromissos aguardando eu reagir. A dor nas costas não nega.


Sentei, mas não aguentei o peso, tive que deitar. Janela aberta, me cubro com a velha coberta, começo a suar, mas não me movo. Alguns lampejos me mostram que os sinais já estavam aqui, só faltava o golpe final do desânimo até com o que se ama.  


Senti falta da correnteza arrastando meu corpo na água, do pincel desbravando pinturas abstratas, dos sorrisos sem sentido e das gargalhadas até chorar. Andar sem rumo na rua com uma paçoca no bolso. Conversar por horas sem fim e não cansar. Ligações que duravam horas e horas. Amizades que faziam qualquer dia cinza um arco-íris. Senti falta de levar a vida numa boa.


Emoldurei meu certificado de adulta com retalhos do que me faz feliz. Busquei do fundo da minha alma tudo aquilo que me faz leve e expremi em uma tinta, joguei por cima do desânimo e da falta de sentido. 

A vida não precisa fazer sentido mesmo. 

Que seja leve enquanto dure. 

Leve como uma pena voando solta pelo ar, que existe e só pela sua beleza em ser já nos faz feliz.








terça-feira, 4 de março de 2025

O que você vê pela janela?

Diminuo o som da música, está tocando Didn't I do Darondo, já no finalzinho. Coloquei aquela playlist que me faz lembrar você para tocar. Hoje são 04 de março, mas parece que desde sempre eu escuto essas canções, tocam em meu coração e fazem playback em minha mente quando estou só e enquanto devaneio mesmo no meio das pessoas. 

Hoje eu decidi que ia esquecer de você, mas não durou mais que uma hora e quarenta e poucos minutos, exatamente o tempo do filme que coloquei pra passar. Para falar a verdade, nem funcionou de verdade. Assisti o segundo filme e parece que o efeito foi um pouco melhor. Por alguns minutos eu esqueci de tudo.

E se eu desligar o celular? Talvez ajude em alguma coisa, talvez. 

Na última vez eu deitei na cama, desliguei tudo, tranquei a porta decidida a deitar e não pensar em você.

No escuro, mas não tão escuro por causa das luzes dos postes lá fora, no quase escuro, deitada, olhei pela janela por horas a fio. Passando junto com as nuvens no céu desfilavam minhas memórias, nossas memórias, tão mal guardadas como uma roupa tirada do guarda-roupa sem passar. Memórias de dias que existiram e outras que foram criadas pela minha própria cabeça.

My song de Labi Siffre está tocando agora. Acho que você nem sabe que eu gosto dessas canções, nem imagina que elas me lembram você. Não sei mais quando, mas eu era criança quando comecei a ouvir blues e jazz. Por um acaso tinha o cd do BB King lá em casa. Hoje quando escuto essas canções por alguma razão me lembram você, e você nem gosta dessas músicas assim. Quem entende?

Mas são canções que me acolhem, como uma coberta macia e quentinha ou como uma almofada tão grande e tão fofa que se eu sentar me abraça por inteiro. Me trazem paz assim como a sua presença também me traz paz. 

Pulei para próxima música. Está tocando Pass me by, com Sharon Jones e The Dap-Kings. Até com as letras mais insanas e tristes eu sinto paz.

Vou de uma canção a outra assistindo a janela do meu quarto. Meus dedos passam pelo cabelo desmanchando os cachos, meus olhos perdidos, a mente solta e completamente fora do corpo buscando o momento que só se vive uma vez.

A janela escancarada me assusta. Tenho medo de flutuar e sair por ela com o vento e meus pensamentos. Mas no fim nada acontece. Meu corpo continua pesado em cima da cama, as nuvens devagar vão passando e se desfazendo, e eu continuo pensando em você. Sem forças pra lutar me rendo a te amar 

Imperfeitamente

Em linhas tortas

Do avesso

Em cacos de flores quebrados

Atrás do porta retrato 

Em palavras mal escritas.


Me rendo assistindo o tempo passar através da janela.














quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ligação de Natal

 Alô, Maria, sou eu de novo. Te ligando pra dizer que hoje é Natal mais uma vez e por aqui o brilho ficou só no pisca pisca, que modéstia a parte esse ano eu fiz questão de ligar várias vezes. 

Maria, tá me ouvindo?

Meu corpo dolorido, minha cabeça ainda zonza, acho que peguei um resfriado. Não, não se preocupa, vou ficar bem. Sei fazer um chá e na dúvida eu durmo de novo até acordar boa. 

Preciso te dizer que quero chorar e não consigo. Então, não é que eu esteja triste, não sei explicar, só queria conseguir chorar e lavar a minha alma, esfregar com água e sal meu coração até ele ficar alvinho e leve novamente. Isso, como das outras vezes! Só que estou sem lágrimas. Quando aparecem só uma ou duas, só umidecem as pálpebras. 

Você ainda está aí? A ligação hoje tá falhando. Estou tão sozinha na multidão. As vozes sopradas nas minhas costas me agoniam e me fazem querer correr, mas é aquela loucura de Natal, todo mundo aglomerado tentando achar um presente, uma roupa, um enfeite novo. Eu vou como se faltando um pedaço, algo que esqueci por aí e não consigo repor. 

Sei, sim, sei que vim inteira pra essa vida. Entendo, mas ainda sinto falta. 

Maria, quando você vem me ver? Queria ir aí te ver, mas você sabe, o futuro é imprevisível e se eu for não sei bem o caminho pra voltar. Ano que vem? Tenho muitos planos, espero conseguir realizar alguns deles. O meu maior plano é não ter pressa e viver devagarzinho, sentindo os dias escorrendo pelas mãos. 

Quero pregar na parede da minha casa os quadros que vou pintar, e colocar as frutas da semana no cesto que vou fazer, deitar na rede e me estirar no meio da sala olhando o nada e as plantas penduradas ao acaso. Quando você for na cozinha vai ter ervas plantadas na janela, as panelas pelas paredes e meus vasos fermentando na estante. Tá rindo, Maria? Ah, parece casa de bruxa, mas eu bem que sou! Graças a Deus não queimam mais nas fogueiras. No quarto vai ter pouca coisa, mas não pode faltar o altar pro Bom Deus. Vai ser simples, você sabe como eu sou. Se eu der sorte Maria, até as canecas que você beber água sou eu quem vou fazer. 

Parece sonho, né? Ai Maria, você me conhece, vai dar certo eu só não sei quando. 

Maria, o que você faz quando te falta esperança? Isso, o que você faz quando acaba a animação?

Eu não sei, se eu soubesse não estaria perguntando. Rezar?

Talvez eu devesse fazer uma oração hoje então, aproveitar que é Natal, quem sabe o efeito é dobrado?

Você ri, né, mas vai que cola! Dizem que Natal é um dia diferente, as pessoas se esforçam pra ser melhores, eu só sinto melancolia, mas vai que pra Deus também é especial. 

Maria, obrigada por me ouvir. Vou desligar, tá ficando tarde. Quero rezar antes da meia noite que é pra ainda ter o efeito do dia de Natal. 

Se cuida, viu! Eu tô me cuidando. Também te amo. 



 







quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Vulnerável

Se eu deitar não sinto o apoio da cama, de pé não sinto o chão, ando como se em nuvens que se desfazem a cada passo. 

Vazio por dentro enquanto o coração bate acelerado. 

Na cabeça gira um só pensamento que tira a minha paz e presença.

O corpo todo sente a falta, como se em abstinência de uma droga potente ou adoecido na ausência de algo vital. 

Respiro fundo e sinto toda a minha vulnerabilidade, a vontade de chorar, mas nenhuma lágrima cai dos meus olhos secos.

O sorriso apagado pela saudade. 

A falta de sono de quem quer acordar desse sentir-se frágil e impotente. 

Vestida me sinto nua.

Nua me sinto sua. 

Vulnerável, meu espírito busca se encontrar mais uma vez.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Desapego

 Soltar as amarras, liberar a fivela, desatar os cadarços, abrir os botões 


Entre o nascer e pôr do sol tem o tempo de se iludir,

Entre o se pôr e o nascer há o tempo pra sonhar.

Em ambos a mente divaga perdida tentando se encontrar no presente. 

Buscando aquele instante único que acontece vez ou outra, quase raramente, 

em que estamos por completo no aqui e agora.

O momento em que desapegamos das ilusões, 

soltamos o passado e o futuro 

e nos vemos no aqui.

Aquele instante que mais se parece com o exato momento de alívio em soltar um botão apertado,

os três segundos que precedem e após esse instante, onde só sentimos a liberdade e nada mais.

Desapego do que foi vivido e do que virá, talvez seja esse o segredo que me custa aprender, porque quando solto o passado e libero o futuro, só me resta a mim mesma. Eu, pequena no universo e nada mais.







quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Quando o mel vira fel?

Várias vezes me pego pensando em você, em todos os momentos que tivemos juntas e fico triste em ver como tudo se desenrolou. Sem uma conversa apropriada, de forma distorcida e amarga. De um jeito que me assusta e entristece. 

Todas as memórias que tenho da gente são bonitas, então, quando foi que o amor se perdeu?

Nunca pensei que o que dizem sobre casar fosse assim tão difícil. O cansaço, o estresse do dia a dia, a rotina a curto prazo são como uma corrida com pesos nas mãos, no início a gente leva, mas a medida que o tempo passa vão deixando os braços cansados, e exaustos, estes não abraçam, só querem descanso.  

Pessoas exaustas não tem paciência, não namoram, conversam pouco, querem seu próprio tempo e espaço. E acho que cheguei nesse estágio de exaustão durante a nossa relação. Uma mistura de excesso de trabalho, cuidados invisíveis e racionamento de recursos financeiros faziam o contexto aumentar ainda mais a carga de estresse. Passamos tanta coisa juntas, dias de muitos sorrisos e também dias difíceis.

A pandemia nos uniu, mas ela também me quebrou em pedaços. Um contexto completamente atípico em que passamos a dividir a mesma casa. Ali foi um marco da nossa união física, mas também de quando o sentimento começou a se transformar. Somos tão parecidas e ao mesmo tempo completamente diferentes. Durante esse início tive os maiores picos de estresse que consigo me recordar na vida, foi quando em alguns momentos não me reconheci em mim, e quando os beijos se tornaram mornos, e isso ficou preso como um espinho no pé.    

Não vejo eu ou você como responsáveis ou culpadas por nada do que ocorreu e eu não soube lidar, era algo novo para as duas e os ajustes de rota aconteceram para ambas. Aquilo que se vive e faz pela primeira vez exige seu tempo de maturação e aprendizado. Não sabia como conversar algo que eu ainda não entendia o porque. Pra ser sincera até hoje ainda tento entender e achar a melhor forma de expressar. 

Por todo esse tempo sempre me recordava dos primeiros meses em que nos conhecemos, era a minha forma de renovar o sentimento e seguir em frente. Mas lá no fundo eu sabia que em algum momento esse espinho não iria me deixar continuar caminhando ao seu lado. Um misto entre querer continuar e insistir ao mesmo tempo que sentia um cansaço de tirar o fôlego. E por favor, não entenda isso ao avesso, o amor sempre existiu e foi isso que me manteve ao seu lado por todo esse tempo, mas a exaustão foi minando os dias bonitos.   

Esse ano diante de tudo o que aconteceu cheguei a conclusão de que tem horas que é melhor soltar ao invés de segurar, me machucar e machucar ainda mais você. Até porque chegamos num ponto que todo mel foi se revirando em fel, e tudo o que conversavamos se tornava amargo. 

Com certeza estou atrasada para te enviar essas palavras, atrasada em por isso a mesa, mas você foi e é uma das pessoas mais importantes na minha vida.   


terça-feira, 5 de novembro de 2024

Estou com sintomas de saudades

Depois de um intervalo enorme sem escrever no blog, voltei. Não sei se voltei pra ficar, mas com certeza aqui, aqui é o meu lugar.

Por um acaso do destino, daqueles que não são mera coincidência, me lembrei que eu gosto de escrever, mas que nos últimos anos tenho visitado cada vez menos meus momentos de escrita livre e desabafos. 2024 com todo seu charme me virou de cabeça para baixo e nesse sacolejar apareceram inúmeras coisas que eu gosto de fazer e que foram deixadas para trás. Ouvir música, dançar e cantar sem medo de fazer barulho, olhar para o céu sem compromisso, ler simplesmente por ler, e me encantar pela diversidade e caos do mundo são algumas delas.  


Mudamos ao longo do tempo e as vezes nem percebemos que aquilo que deixamos de lado era o motivo de sorrisos, o que nos mantinha seguindo com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Os dias vão passando e quando vemos o que antes fazia todo sentido para nós fica esquecido dentro da gaveta. A poeira do tempo vai tomando conta, e hábitos, rotinas, vão sendo esquecidos como que envoltos em neblina. 

Quanto tempo leva para lembrar o que nos faz bem e ficou para trás?

Um dia, como que por acaso tropeçamos em acontecimentos que nos lembram aquilo que faziamos com tanta disposição. Como se o universo desse em um empurrãozinho em nos recordar o que nos aproxima da nossa essência, o que nos faz perder a hora de dormir sem tomar café. Ele lembra o que te move com prazer, sem esforço, como que em um grande fluxo.

O que te move com prazer?


Respiro entre uma palavra e outra como quem volta a andar de bicicleta depois de aprender na infância. A delícia do vento passando pelo rosto e a sensação de que não se esquece aquilo que se ama. Da mesma forma, os dedos no teclado se deliciam em ver as palavras surgindo na folha em branco, como que saudosos abraçam até os tropeços de uma pessoa enferrujada.


Estou com sintomas de saudade

Saudades de mim. Saudades do que esqueci.



Obs.: Para o/a leitor/a de plantão, recomendo os textos com a memória fresca de músicas brasileiras. Algumas frases vão soar melhor assim.



É preciso saber viver

Na contracapa da vida, em letras miúdas e quase no rodapé está escrito,

"Enquanto respirar, lembre-se, é sobre-viver

sobre

viver"

Pensei então com meu botões, sobre viver, não é apenas sobreviver. É sobre estar no tempo imensurável e espaço in-finito incompreensível a mente humana de uma forma que vai além da sobrevivência, algo a mais do que a busca pela água, comida e abrigo. 

É sobre-a-vivência. 

Me arrisco a dizer que é mais o Como, do que o por que, quando e para quê.

Mas como viver onde exigem que só sobrevivemos?





quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Temos nosso próprio tempo

Se comparar com os outros não leva a lugar algum. Abaixa nossa auto estima, cria uma sensação de que estamos fazendo algo errado ou perdendo tempo ao descansar em momentos de lazer. Nessas horas nunca lembramos como o outro pode estar por trás das máscaras, o quanto paga em moedas de tempo de vida e falta de energia no fim de tudo. 

Temos nosso próprio tempo e nem sempre respeitamos isso. Nem sempre as demandas e prazos respeitam isso.

Temos nosso próprio tempo. Entender isso e seguir em frente é sobre-viver.

Tragédia cômica

 Carta para o meu bem.

 

Saber agradecer é um aprendizado.

Saber responder as responsabilidades e não sobrecarregar o outro também.

Errar e não culpar ou descarregar nos outros, mesmo que por brincadeira, é um passo desafiador, mas essencial.

Viver sozinho é fácil. A solitude é confortável no fim das contas. Acordar na paz de estar só. 

Viver a dois não é assim. É um trabalho diário, físico, psicológico, emocional. Viver a dois é estar de acordo a viver no desconforto, e se esforçar para colocar em prática o agradecer e o agir com responsabilidade.   

Viver a dois é uma escolha difícil de ser mantida, porque ela envolve o incomodo, o barulho, e a ingratidão. É uma tragédia cômica que escolhemos. Algo como partilhar os únicos bens que temos de valor, o tempo e energia de vida. Além disso, de alguma forma esperar reconhecimento. Reconhecimento de quê? Por lavar os pratos, fazer a cama, limpar o chão? Quem reconhece o trabalho invisível? Ninguém. Quem quer fazer o trabalho invisível? Ninguém.

Agradecer é a base de tudo. Agradecer torna o incomodo suportável. Agradecer faz a responsabilidade menos pior. Agradecer faz o errar ser só mais um acontecimento do dia, e não a tragédia da vida. 

Agradecer mais para viver melhor.


Texto de 18/12/2021.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Exaustão

 Entrego os pontos. 48h dormindo praticamente sem parar. 7 dias se arrastando a espera da energia que corre pelo corpo ser recarregada. 

Xeque-mate do sistema na minh'alma. 

Abro os janelas, espero o Sol tocar na pele. Quem sabe dá certo dessa vez.

Urgências regem o imediatismo. Tudo urge, tudo é para ontem, menos o sentir, dormir e o descansar. Cabe a nós saber a hora de parar, antes que o corpo pare por si só. 

Sozinha em casa transito entre cama e sofá. Refletindo como chegamos a esse ponto.

Tanta vida lá fora, e eu rezando pedindo paz. Impossível descansar pensando no que deve ser feito ou no atraso de prazos. 

Ânsia de voltar a sentir o pulsar sem dormir.

Ouço o meu corpo e tento honrar suas necessidades. A maior delas é dizer não e impor limites ao mundo das cobranças. Tudo tem um preço, mas nada vale o ânimo que move a vida.



quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Café com pão

 Sentada na sala com o computador no colo escuto os barulhos da noite. Água da fonte, avião passando e o bip da máquina avisando que o pão está pronto. 

Café com pão. Café com pão. 

O cheiro da massa fresca invade a casa, entra pelas narinas, percorre o corpo como incenso. 

Café com pão. Café com pão. 

Sentada eu espero o tempo do pão crescer, assar e dourar. 

Olhando para o vazio perdida no cheiro que brota da massa de farinha com água. 

"Café com pão. Café com pão. 

Se vem de fora ela devora, ela devora."




Anestesia

 Por alguns instantes, na mesa cirúrgica da vida, o efeito da anestesia acaba. 

Há então um surto de realidade por poucos segundos.

Lembro que há 1 ano e 7 meses e 4 dias nos despediamos de vocês. Por poucos segundos lembro que não nos veremos mais. 

Lembro que não prestei atenção suficiente nas histórias para gravar e poder contar depois. 

Lembro que eu dormia cansada de ouvir as mesmas coisas. 

A saudade bateu arrebatadora sem a anestesia. 

A anestesia passou, mas foram rápidos em aplicar uma nova dose. 

Uma boa dose de novos afazeres para o humano-máquina que não pode parar. 


Na mesa cirúrgica da vida eu levo minhas saudades para operar.  

sábado, 18 de setembro de 2021

Palavras na mesa

 Verto no papel um vaso cheio de palavras. 

Elas escorrem pela boca do vaso como líquido, e gotejam uma a uma no copo A4 vazio. 

Quanto mais o papel encharca, mais o vaso enche. 

De repente, vários copos estão cheios, coloco na bandeja e sirvo as visitas imaginárias - como uma brincadeira de criança.

Sirvo palavras no copo e nos pratinhos de post-it imprimo ideias, motivação e sonhos. 

Ninguém mais se serve, então eu mesma bebo e como no meu festim. Guardo o que sobra na parede e aos poucos, um por um, sirvo a mim mesma. 

O vaso transborda e Refrigera minha alma. 

O ano que não terminou

 Hoje eu descobri que em 2020 não postei no blog. 

Nenhum texto verteu o ano mais desorientado da minha vida. 

Nenhuma rima registrou as mudanças que passei.

Um ano como uma folha em branco, onde as palavras se acovardam a achar espaço. 

2020 não teve registros, mas ele separou, misturou, triturou, bagunçou e não arrumou tudo o que podia e não podia. 

Ele sambou, bebeu e vomitou atrás do carro. Caiu no chão e ficou lá largado esperando a tarde do dia seguinte chegar. 

2020 andou, mas também correu. Dias longos e semanas que passavam depressa. 

Lágrimas que ardiam o rosto, como pimenta de baiana. 

2020 bateu a porta com força e fez perder o sono. Deixou marcas, silêncios profundos no barulho do dia.

2020 quebrou os pratos, os copos e levou os talheres de prata. Depois foi embora, mas ameaçou voltar. 

Como um prato de sopa quente, queimou a língua de muita gente. 


Ô Deus, se acabar a dor também acaba a vida? 


Je suis ici