sábado, 26 de setembro de 2026

Segredos mais que secretos

 Quando criança eu tinha várias certezas sobre a vida, planos para o futuro e sonhos para o dia seguinte. Era curiosa pelo mundo e tinha minhas juras secretas repetidas silenciosamente para que ficassem gravadas em mim e fossem lembradas na vida adulta. Não sei quando nem em que ordem elas surgiram, mas meus esforços não foram em vão porque até hoje lembro das juras. 

Um, nunca normalizar passar por um pedinte na rua sem sentir compaixão. Lembro de ter visto um homem deitado no chão quase sem roupa e com os braços abertos, tal qual o Jesus cruficicado. Aparentemente ele dormia no passeio de uma rua movimentada e as pessoas passando nem olhavam para ele, a última coisa seria oferecer ajuda, como se o homem deitado no chão de braços abertos transpassando o passeio fosse invisível. 

Dois, manter o coração puro como de uma criança. Não sei mais qual foi o gatilho para isso, mas com certeza sempre fui boa em observar o meu entorno e identificar o que faltava. 

Três, as crianças entendem tudo. Tudo! Absolutamente tudo. Desde icognitas, frases de duplo sentido, tentativas sem sucesso de falar um assunto com códigos entre adultos. As crianças simplesmente entedem. Ah, e também não ter necessidade de falar com as crianças fazendo voz de bebê (nunca tive paciência pra isso). Claro que hoje eu sei que o entedimento da criança é diferente, e muitos acontecimentos eram intensificados, mas ainda assim, não subestime a criança. 

Quatro, cuidar da natureza. Um misto de conexão com as notícias do greenpeace que na época passavam na tv e me faziam imaginar ser aquela pessoa no barco salvando as baleias. 


Juras tantas vezes repetidas que hoje, quase 30 anos depois, ainda lembro e faço um esforço para cumprir. Até porque meus segredos mais secretos são o que fazem de mim a pessoa que sou hoje. 






sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Se você vem às 5 da tarde...

Meu amor, se você vêm às 5 da tarde eu começo a te esperar desde o dia anterior. Limpo a casa, troco os lençóis, lavo a roupa e guardo os pratos no armário. As horas vão passando e vou ao mercado comprar o lanche que você gosta, porque eu mesma não como isso. Sacudo os tapetes, varro o chão pela segunda ou terceira vez  - um misto de alegria e chateação porque eu sei que depois das 5 vamos sujar tudo.

Tomo meu banho e quando olho no espelho me acho até mais bonita do que nos outros dias da semana. Talvez seja por ter passado mais shampoo no cabelo. 

Os minutos se arrastando e eu já trabalhei, já cozinhei, já esperei. 

Os segundos nem se movem, agora são 4h e 59min. 

Tanta espera e você não vem. 

Você vinha às 5 da tarde, mas já são 9 da noite. Já comi o que cozinhei e lanchei aquele lanche que você gosta. Mas lanchei só.

Pelo menos a casa está cheirosa e a roupa lavada. O relógio cansado de girar os ponteiros desistiu de me pirraçar e agora avança veloz, pra que às 10h eu tenha certeza de que você não vem mais. 



Se você vem hoje às 5 da tarde eu começo a te esperar antes mesmo de acordar. 




terça-feira, 4 de agosto de 2026

Ideias para o bloco de notas inglesado

Wellness center 

  • yoga classes, meditation classes, massage, nutrition counseling, chinese medicine, ayurveda, dance or music classes and other arts, psychoterapy, art therapy,  music therapy, alternative therapies 

Restaurant / bakery / food services

  • selling fresh meals and/or frozen food
  • regular cooking classes or workshops 
     

Community shop 

  • net zero products (selling food from local farmers and products from artisans) 
  • holistic products (candles, incense, books, mats etc)

Community garden or community farm 

  • permaculture classes 
  • medicinal plants (workshops)
  • gardening edible plants in small places (workshops)
  • selling the producs in farmers market or regular clients 


Arts and crafs 

  • sewing, embroidery, knitting, painting classes 


NGO specific to instrumentalize people in vulnerable situation to enter the workmarket 

  • language classes, mock interviews, clothes for interview, services for CV preparation, networking
  • intermediation with companies 
  • basic training for soft skills 

Online classes (previously recorded and available online)
  • Language classes (Sanskrit)
  • Kiirtan and Prabhat Samgiita with chords for guitar / piano 

Seasonal projects 

  • Summer camps 
  • Holistic festivals (food truck or food stand or other services)
  • Retreats 
  • Social dinners or lunch with jam, poetry and other artistic performance
  • Charity events (sponsored running marathon, hiking, walking, cycling)
  • Garage sale  
  • Second hand shop 
  • Group travels 
  • "airbnb" of rooms or camping area 
  • Renting space for external service providers 
  • Raffles, quiz or bingo nights





sábado, 1 de agosto de 2026

Menor que um grão de areia

 "Não, daqui da janela não se consegue ver o céu estrelado. Pois é, como eu te disse, acho que vedar o céu é parte de um plano para que a gente acredite que nós, nossos problemas, e nosso mundinho pareça ser o centro do universo."

Foi assim ou mais ou menos assim que eu estava refletindo e conversando no outro dia. E desde então tenho pensado sobre a nossa incapacidade de ver a imensidão do céu a noite quando moramos na cidade ou em areas muito urbanizadas. Quando criança, desde bem pequena por sinal, eu amava olhar o céu à noite e era sempre uma frustração não ver tantas estrelas e ter que lutar contra a luz do poste pra encontrar as constelações. Até hoje eu consigo contar nos dedos quantas vezes pude ver o céu estrelado em sua totalidade ou ao menos o mais próximo dela. 

Existe algo muito especial sobre o céu quando está bem escuro e a gente consegue ver aqueles milhares (ou milhões? ou bilhões e trilhões e zilhões?) de pontinhos brilhando, tantas estrelas que a gente se perde e se encanta ao ponto do pescoço doer do tanto que a gente inclina pra trás. A imensidão do universo é tão grande que se infinito ou finito não importa - nos vemos como pequenos grãozinhos, tão minúsculos! Me sinto um grão de poeira ou até menor. E aos poucos vou sentindo todo o meu ser se dissolvendo no universo, tamanha a minha pequenez. Meus problemas se dissolvem, a minha vida que parece tão longa vira uma fração de milésimo do microlésimo do milesegundo. O que são 35 anos em um universo onde o tempo nem existe? Ele simplesmente é. O meu ser se dissolve como uma colher de açúcar na água quando vejo o sem fim do céu. Nada ou quase nada mais importa. Somos devolvidos a condição de mortais e humanos. Às vezes um frio na barriga e até um medo em encarar um céu tão estrelado.

Mas o que acontece quando somos privados disso? De repente nos sentimos grandes, importantes, como se não houvesse fim para nossa caminhada. Nossos problemas parecem maiores do que realmente são - ganham uma outra dimensão num mundo onde tudo é pequeno. E de repente, nos sentimos o centro do mundo ou até do universo, somos arrastados pela rotina, pelos ruídos de carros e tilintar de copos, pelo cheiro do álcool, e pelas inúmeras propagandas e embalagens plásticas que nos fazem consumir mais do que precisamos e em alguns dias mais do que podemos. A ausência da imensidão assustadora do céu à noite faz com que fiquemos perdidos, como que sem GPS pra alma. E de tanto nos perdermos vamos esquecendo até o que é mesmo que estamos a procurar. 

O céu à noite desde muito tempo foi mapa para navegações, migrações, para os caminhantes que voltavam pra casa. Mas o infinito estrelado também é mapa pra alma, guia nossos corações e acalenta ao nos lembrar de onde viemos e onde estamos. 


Diretamente da nossa casa flutuante e voadora a girar coreografadamente, gozo do prazer de ser parte de algo tão mágico e inexplicável, mesmo sendo menor que um grão de areia do cosmo.




  

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Toalha molhada

 Tem dias que a gente acorda meio pra baixo, um nó na garganta e o corpo pesado, como se tivesse descarregado parte da bateria vital. Uma vontade de chorar para aliviar a alma, mas poucas ou quase nenhuma lágrima. 

Pensamentos em vão buscando os motivos da atual tristeza. E uma busca no google para ver se alguém já encontrou o sentido da vida. Várias suposições e teorias, mas eu ainda acho que no fim é tudo um grande jogo de dados do universo. E o que dá sentido a vida é a morte - o medo de não ter aproveitado o bastante, aquele receio de estar perdendo algo ou até mesmo a saudade do futuro, saudade do que ainda virá a ser. O que dá sentido a vida é achar que um dia encontraremos sentido, e correr atrás desse dia que só Deus sabe se vai chegar. 

Porém, a vida não precisa de sentido quando estamos rindo ou amando. E sim, precisa ser no gerúndio porque é no momento da gargalhada ou no êxtase do amor em movimento que não pensamos em mais nada e viver por si só é o suficiente. A busca não é pela felicidade eterna nem pelo amor sem fim, esses depois de um tempo entram na rotina e viram mais dos mesmos. A busca é pelo -indo, -ando, -endo, pela centelha de vida que nos lembra que estamos no presente vivendo. 

Hoje eu queria poder colocar as minhas emoções numa toalha, como se enxarcada com água, e espremer até não poder mais. Até que cada gota de tristeza ou melancolia evaporasse e no fim só sobrasse a toalha, meio amassada, mas quase que nova. Enquanto isso não é possível eu sigo buscando e escrevendo. 


Até a próxima!



terça-feira, 21 de julho de 2026

Você tá aí?

 São 13:35, e eu ainda não almocei nem tenho planos de almoçar. Tomei um chá verde e um café mal feito. Faz uma hora desde que comi um pão com frutas que tem sabor de panetone e um pedaço de pão com queijo por cima. O computador está aberto desde cedo e eu transito entre minhas obrigações e as distrações da minha mente. Às vezes parece que capinar um terreno é mais fácil que corrigir uma frase, e as horas lentamente passam enquanto eu tento a todo custo focar no que é necessário. 

Algo parece fora do lugar dentro de mim, um sentimento morno que indica que as coisas estão andando, mas a passos lentos. Passos que vão procurando a direção correta a medida que caminho. O ser humano vive e cria sua razão de viver a partir das suas metas - mas o que fazer quando você chega do outro lado? Quando alcança o objetivo e uma nuvem se apossa da sua mente. E agora? 

Dizem que nessa hora é criar uma nova meta e ir se reinventando até o fim. 

É ter um propósito, novas ideias e criações. 

Aos poucos vou colocando no papel as infinitas direções possíveis que posso tomar num futuro não tão distante. Traçando como que no escuro um mapa para guiar o amanhã. Investigo dentro de mim padrões repetidos e marcas do passado que me freiam pelo caminho. Me esforço para lembrar sonhos de quando sonhar era a marca do dia a dia. 

Quem eu sou? 

O que eu quero? 

Para onde vou? 

Qual a minha contribuição nesse mundo que é ao mesmo tempo cão e paraíso?

Como eu posso vir a ser a melhor versão de mim?

  

E o que é um sentimento morno? A melhor forma de descrever seria dizendo que é como uma comida que tem tudo pra ser gostosa, mas faltou sal. 


Ando pelas ruas observando o outros e buscando a mim. Entrego minhas perguntas ao universo, a essa calculadora do impossível, e tento aquietar meus pensamentos enquanto aguardo pela resposta. 

 Universo, o que mais é possível que eu ainda não considerei? 





terça-feira, 7 de julho de 2026

Amor é viver a loucura de ser e estar junto sem nem mesmo se saber porque.

 Por acaso abri um texto antigo aqui do blog e encontrei a frase que está no título: "Amor é viver a loucura de ser e estar junto sem nem mesmo se saber porque." 


Alguns instantes se passaram enquanto eu refletia sobre isso e me perguntava se tem algo mais louco que estar com alguém sem nem saber o motivo. Explicar o porque das coisas faz a nossa mente lógica e cheia de minhocas encontrar caminhos para justificar escolhas. Mas algumas situações na vida não fazem sentido, elas nos fazem sentir. 


O saborear da presença dentro do conforto do silêncio, o toque que faz os pensamentos aquietarem, o quentinho no coração em ouvir a risada gostosa se espalhando pela casa. O abraço que transborda tanto carinho que faz adormecer. Ações racionalmente sem porque de existir mas que trazem beleza aos olhos, prazer aos ouvidos, adoçam a boca, e colorem meu mundo com uma paz profunda.  

Amar é verbo. 
E verbo é ação. 

Amar em português soa como há mar. 
e onde há mar,
há oceano de mistérios sem fim.