sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pequenos passos, pequenas reflexões

Uma inspiração profunda, uma expiração barulhenta. Respiro depois de muito tempo de forma consciente, sinto meus dentes rangerem e o único som que escuto além do ruído do ar que sai com força pelas narinas é o motor do freegobar e os ponteiros do relógio. 

Tic Tac 

Tic Tac

Já repararam que nunca é Tac Tic?

O tempo parece que não volta mesmo. Ele também não para, no máximo se arrasta vez ou outra, mas no dia a dia ele passa sem pena. 

Minha mente cheia de pensamentos entrecortados, como reels que começam do nada e terminam em poucos segundos. Não vejo a hora de me livrar desse hábito horroroso que consume meu tempo, entre uma rolagem e outra da tela, se vão minutos preciosos, minha capacidade cognitiva, e a chance de fazer algo por mim. Num engano entre micro vídeos com micro emoções, em que invisto os meus segundos de descanso, termino cada vez mais cansada. 

Tic

Tac 

Alguém aperta o pause, por favor?

Meu trabalho se acumulando, os livros com poeira, as linhas de tricô sentadas me olhando. 

Não dá tempo nem de adoecer direito, tem que ser correndo, recuperar às pressas porque as pendências não param de somar. Não dá tempo de mudanças com calma, de sentar entre um esforço e outro. Há uma urgência que toma por dentro e exige velocidade. 

Tic Tac 

Tic

Hoje eu vou jogar tudo pra cima

Tac

E no fim do dia lembro do que não foi feito com pesar.

Tic

Mas é isso, senhoras e senhores, a vida é feita de escolhas. Um dia de descanso para renovar-se por dentro e por fora, vale mais que um dia fingindo fazer algo. 

Tac

Sofremos em situações que nós mesmos nos colocamos, e em que somos os próprios responsáveis por nos tirarmos de lá. 

Tic

Respiro fundo

Tac

Se a gente não cuida da gente, quem vai cuidar?

Tic

Sigo tentando pisar no freio da vida, reduzir o ritmo, apreciar o tempo que assim que passar não volta mais. 

Tac

O Tempo, ah, o Tempo! Me visite com calma, amigo Tempo. Sem pressa de ir embora, chegue cedo, sente comigo e vamos admirar os galhos das árvores balançando pela janela. Tempo, tome um chá comigo, escuta minhas ideias, desejos e histórias. Me conte pra onde você vai, seus segredos e mais íntimos mistérios. Ai meu amigo, tem paciência, um passo por vez, me espera!

Tic Tac

O tempo não é amigo nem inimigo de ninguém. Ele só é. 




quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Quantas vidas cabem em um ano?

 Começo a escrever com o sentimento de que em 2025 eu já vivi 3 ou 4 anos condensados em meses. Transições, mudanças abruptas, montanha-russa em emoções e tremores no chão onde pisam meus pés. 

Que ano, amados e amadas, que ano! 

Ao mesmo tempo que chegou com grandes conquistas também trouxe altas doses de ansiedade, estresse, urgência por concentração, e reflexões sobre a minha estadia no mundo. 

Às vezes percebo que mesmo se a gente se acabar de trabalhar não vai acessar alguns espaços que exigem rios de dinheiro, nem ter a casa de vários quartos e sofá duplo na sala, mas ao mesmo tempo me pergunto, será que é isso mesmo que eu quero?

Comecei a ler um pequeno livro sobre agradecer e mesmo sendo algo simples  tem feito a diferença. Tenho me esforçado para mentalmente agradecer pelo que já tenho, pelo que sou, pelas situações que acontecem em momentos que os pensamentos divagam. Às vezes me surpreendo com o que ocorre na vida dos outros e sinto um cadinho de inveja, mas me lembro novamente por tudo que sou grata. Não é mágica, mas aquece o coração. 

Recentemente enquanto andava na rua cheguei a conclusão do que quero pra mim. Quero viver uma vida em que eu me faça feliz pelas escolhas tomadas, abraçada por dias de paz e sossego. Uma vida simples, livre de excessos e complicações desnecessárias. Uma vida preenchida pela possibilidade de desenvolver meus potenciais criativos através da arte, do meu trabalho, das relações humanas criadas. Uma vida onde o sangue pulsa correndo pelas veias e a gente sente a alegria em estar vivo. 

Com a paciência de um artesão que dedica sua atenção a pequenos detalhes de uma peça, que faz e refaz com dedicação e esmero, quero me dedicar aos pequenos momentos dessa vida, aqueles que passam despercebidos, mas que são feitos por eles o alicerce do nosso existir. 

A mais linda obra não é um prédio ou um local de luxo, é ser você mesmo em sua essência e potencialidades.


antigos sonhos

respiração lenta

movimentos dançantes 

risos sem motivo

poesia

tempo de paz

Agradecer por existir.

 

terça-feira, 25 de março de 2025

E eu sei lá

 Chegou meu certificado de adulta esses dias, mas não veio por correio nem por e-mail, chegou de surpresa em uma impressão de ausência de ânimo e sentido. Veio no corpo marcado por seriedade, estilo profissional, só que meio sem vida. 

De início estranhei, não consegui entender o que era aquilo. Aos poucos fui lendo os sinais e entendendo que havia cruzado a linha da vida adulta. Sem brincadeiras, sem canções, sorrisos curtos e sem graça, olhares vazios. Só podia ser isso.

Tomei mais um copo de água, comprei uma marmita, olhei o notebook com meus compromissos aguardando eu reagir. A dor nas costas não nega.


Sentei, mas não aguentei o peso, tive que deitar. Janela aberta, me cubro com a velha coberta, começo a suar, mas não me movo. Alguns lampejos me mostram que os sinais já estavam aqui, só faltava o golpe final do desânimo até com o que se ama.  


Senti falta da correnteza arrastando meu corpo na água, do pincel desbravando pinturas abstratas, dos sorrisos sem sentido e das gargalhadas até chorar. Andar sem rumo na rua com uma paçoca no bolso. Conversar por horas sem fim e não cansar. Ligações que duravam horas e horas. Amizades que faziam qualquer dia cinza um arco-íris. Senti falta de levar a vida numa boa.


Emoldurei meu certificado de adulta com retalhos do que me faz feliz. Busquei do fundo da minha alma tudo aquilo que me faz leve e expremi em uma tinta, joguei por cima do desânimo e da falta de sentido. 

A vida não precisa fazer sentido mesmo. 

Que seja leve enquanto dure. 

Leve como uma pena voando solta pelo ar, que existe e só pela sua beleza em ser já nos faz feliz.








terça-feira, 4 de março de 2025

O que você vê pela janela?

Diminuo o som da música, está tocando Didn't I do Darondo, já no finalzinho. Coloquei aquela playlist que me faz lembrar você para tocar. Hoje são 04 de março, mas parece que desde sempre eu escuto essas canções, tocam em meu coração e fazem playback em minha mente quando estou só e enquanto devaneio mesmo no meio das pessoas. 

Hoje eu decidi que ia esquecer de você, mas não durou mais que uma hora e quarenta e poucos minutos, exatamente o tempo do filme que coloquei pra passar. Para falar a verdade, nem funcionou de verdade. Assisti o segundo filme e parece que o efeito foi um pouco melhor. Por alguns minutos eu esqueci de tudo.

E se eu desligar o celular? Talvez ajude em alguma coisa, talvez. 

Na última vez eu deitei na cama, desliguei tudo, tranquei a porta decidida a deitar e não pensar em você.

No escuro, mas não tão escuro por causa das luzes dos postes lá fora, no quase escuro, deitada, olhei pela janela por horas a fio. Passando junto com as nuvens no céu desfilavam minhas memórias, nossas memórias, tão mal guardadas como uma roupa tirada do guarda-roupa sem passar. Memórias de dias que existiram e outras que foram criadas pela minha própria cabeça.

My song de Labi Siffre está tocando agora. Acho que você nem sabe que eu gosto dessas canções, nem imagina que elas me lembram você. Não sei mais quando, mas eu era criança quando comecei a ouvir blues e jazz. Por um acaso tinha o cd do BB King lá em casa. Hoje quando escuto essas canções por alguma razão me lembram você, e você nem gosta dessas músicas assim. Quem entende?

Mas são canções que me acolhem, como uma coberta macia e quentinha ou como uma almofada tão grande e tão fofa que se eu sentar me abraça por inteiro. Me trazem paz assim como a sua presença também me traz paz. 

Pulei para próxima música. Está tocando Pass me by, com Sharon Jones e The Dap-Kings. Até com as letras mais insanas e tristes eu sinto paz.

Vou de uma canção a outra assistindo a janela do meu quarto. Meus dedos passam pelo cabelo desmanchando os cachos, meus olhos perdidos, a mente solta e completamente fora do corpo buscando o momento que só se vive uma vez.

A janela escancarada me assusta. Tenho medo de flutuar e sair por ela com o vento e meus pensamentos. Mas no fim nada acontece. Meu corpo continua pesado em cima da cama, as nuvens devagar vão passando e se desfazendo, e eu continuo pensando em você. Sem forças pra lutar me rendo a te amar 

Imperfeitamente

Em linhas tortas

Do avesso

Em cacos de flores quebrados

Atrás do porta retrato 

Em palavras mal escritas.


Me rendo assistindo o tempo passar através da janela.














quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ligação de Natal

 Alô, Maria, sou eu de novo. Te ligando pra dizer que hoje é Natal mais uma vez e por aqui o brilho ficou só no pisca pisca, que modéstia a parte esse ano eu fiz questão de ligar várias vezes. 

Maria, tá me ouvindo?

Meu corpo dolorido, minha cabeça ainda zonza, acho que peguei um resfriado. Não, não se preocupa, vou ficar bem. Sei fazer um chá e na dúvida eu durmo de novo até acordar boa. 

Preciso te dizer que quero chorar e não consigo. Então, não é que eu esteja triste, não sei explicar, só queria conseguir chorar e lavar a minha alma, esfregar com água e sal meu coração até ele ficar alvinho e leve novamente. Isso, como das outras vezes! Só que estou sem lágrimas. Quando aparecem só uma ou duas, só umidecem as pálpebras. 

Você ainda está aí? A ligação hoje tá falhando. Estou tão sozinha na multidão. As vozes sopradas nas minhas costas me agoniam e me fazem querer correr, mas é aquela loucura de Natal, todo mundo aglomerado tentando achar um presente, uma roupa, um enfeite novo. Eu vou como se faltando um pedaço, algo que esqueci por aí e não consigo repor. 

Sei, sim, sei que vim inteira pra essa vida. Entendo, mas ainda sinto falta. 

Maria, quando você vem me ver? Queria ir aí te ver, mas você sabe, o futuro é imprevisível e se eu for não sei bem o caminho pra voltar. Ano que vem? Tenho muitos planos, espero conseguir realizar alguns deles. O meu maior plano é não ter pressa e viver devagarzinho, sentindo os dias escorrendo pelas mãos. 

Quero pregar na parede da minha casa os quadros que vou pintar, e colocar as frutas da semana no cesto que vou fazer, deitar na rede e me estirar no meio da sala olhando o nada e as plantas penduradas ao acaso. Quando você for na cozinha vai ter ervas plantadas na janela, as panelas pelas paredes e meus vasos fermentando na estante. Tá rindo, Maria? Ah, parece casa de bruxa, mas eu bem que sou! Graças a Deus não queimam mais nas fogueiras. No quarto vai ter pouca coisa, mas não pode faltar o altar pro Bom Deus. Vai ser simples, você sabe como eu sou. Se eu der sorte Maria, até as canecas que você beber água sou eu quem vou fazer. 

Parece sonho, né? Ai Maria, você me conhece, vai dar certo eu só não sei quando. 

Maria, o que você faz quando te falta esperança? Isso, o que você faz quando acaba a animação?

Eu não sei, se eu soubesse não estaria perguntando. Rezar?

Talvez eu devesse fazer uma oração hoje então, aproveitar que é Natal, quem sabe o efeito é dobrado?

Você ri, né, mas vai que cola! Dizem que Natal é um dia diferente, as pessoas se esforçam pra ser melhores, eu só sinto melancolia, mas vai que pra Deus também é especial. 

Maria, obrigada por me ouvir. Vou desligar, tá ficando tarde. Quero rezar antes da meia noite que é pra ainda ter o efeito do dia de Natal. 

Se cuida, viu! Eu tô me cuidando. Também te amo. 



 







quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Vulnerável

Se eu deitar não sinto o apoio da cama, de pé não sinto o chão, ando como se em nuvens que se desfazem a cada passo. 

Vazio por dentro enquanto o coração bate acelerado. 

Na cabeça gira um só pensamento que tira a minha paz e presença.

O corpo todo sente a falta, como se em abstinência de uma droga potente ou adoecido na ausência de algo vital. 

Respiro fundo e sinto toda a minha vulnerabilidade, a vontade de chorar, mas nenhuma lágrima cai dos meus olhos secos.

O sorriso apagado pela saudade. 

A falta de sono de quem quer acordar desse sentir-se frágil e impotente. 

Vestida me sinto nua.

Nua me sinto sua. 

Vulnerável, meu espírito busca se encontrar mais uma vez.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Desapego

 Soltar as amarras, liberar a fivela, desatar os cadarços, abrir os botões 


Entre o nascer e pôr do sol tem o tempo de se iludir,

Entre o se pôr e o nascer há o tempo pra sonhar.

Em ambos a mente divaga perdida tentando se encontrar no presente. 

Buscando aquele instante único que acontece vez ou outra, quase raramente, 

em que estamos por completo no aqui e agora.

O momento em que desapegamos das ilusões, 

soltamos o passado e o futuro 

e nos vemos no aqui.

Aquele instante que mais se parece com o exato momento de alívio em soltar um botão apertado,

os três segundos que precedem e após esse instante, onde só sentimos a liberdade e nada mais.

Desapego do que foi vivido e do que virá, talvez seja esse o segredo que me custa aprender, porque quando solto o passado e libero o futuro, só me resta a mim mesma. Eu, pequena no universo e nada mais.