"Não, daqui da janela não se consegue ver o céu estrelado. Pois é, como eu te disse, acho que vedar o céu é parte de um plano para que a gente acredite que nós, nossos problemas, e nosso mundinho pareça ser o centro do universo."
Foi assim ou mais ou menos assim que eu estava refletindo e conversando no outro dia. E desde então tenho pensado sobre a nossa incapacidade de ver a imensidão do céu a noite quando moramos na cidade ou em areas muito urbanizadas. Quando criança, desde bem pequena por sinal, eu amava olhar o céu à noite e era sempre uma frustração não ver tantas estrelas e ter que lutar contra a luz do poste pra encontrar as constelações. Até hoje eu consigo contar nos dedos quantas vezes pude ver o céu estrelado em sua totalidade ou ao menos o mais próximo dela.
Existe algo muito especial sobre o céu quando está bem escuro e a gente consegue ver aqueles milhares (ou milhões? ou bilhões e trilhões e zilhões?) de pontinhos brilhando, tantas estrelas que a gente se perde e se encanta ao ponto do pescoço doer do tanto que a gente inclina pra trás. A imensidão do universo é tão grande que se infinito ou finito não importa - nos vemos como pequenos grãozinhos, tão minúsculos! Me sinto um grão de poeira ou até menor. E aos poucos vou sentindo todo o meu ser se dissolvendo no universo, tamanha a minha pequenez. Meus problemas se dissolvem, a minha vida que parece tão longa vira uma fração de milésimo do microlésimo do milesegundo. O que são 35 anos em um universo onde o tempo nem existe? Ele simplesmente é. O meu ser se dissolve como uma colher de açúcar na água quando vejo o sem fim do céu. Nada ou quase nada mais importa. Somos devolvidos a condição de mortais e humanos. Às vezes um frio na barriga e até um medo em encarar um céu tão estrelado.
Mas o que acontece quando somos privados disso? De repente nos sentimos grandes, importantes, como se não houvesse fim para nossa caminhada. Nossos problemas parecem maiores do que realmente são - ganham uma outra dimensão num mundo onde tudo é pequeno. E de repente, nos sentimos o centro do mundo ou até do universo, somos arrastados pela rotina, pelos ruídos de carros e tilintar de copos, pelo cheiro do álcool, e pelas inúmeras propagandas e embalagens plásticas que nos fazem consumir mais do que precisamos e em alguns dias mais do que podemos. A ausência da imensidão assustadora do céu à noite faz com que fiquemos perdidos, como que sem GPS pra alma. E de tanto nos perdermos vamos esquecendo até o que é mesmo que estamos a procurar.
O céu à noite desde muito tempo foi mapa para navegações, migrações, para os caminhantes que voltavam pra casa. Mas o infinito estrelado também é mapa pra alma, guia nossos corações e acalenta ao nos lembrar de onde viemos e onde estamos.
Diretamente da nossa casa flutuante e voadora a girar coreografadamente, gozo do prazer de ser parte de algo tão mágico e inexplicável, mesmo sendo menor que um grão de areia do cosmo.