Tenho lido lentamente um livro que um amigo escreveu. Digo lentamente porque seus questionamentos e reflexões reverberam nos meus pensamentos e exigem pausas antes da próxima página.
Hoje enquanto lia mais um pouco me lembrei que por muitos anos meu sonho foi ser astronauta. Até os 20 e poucos anos eu achava que iria dar um jeito de trabalhar na NASA e estudar sobre o universo. Lembrei das noites em claro procurando constelações e da revista sobre astronomia que eu comprava na banca de jornal vez ou outra. Céus abertos. Era assim que a revista concluia - com o sonho de todo amador. Céus abertos.
Meus sonhos também incluiam uma casa aos 18 anos, uma viagem para visitar outros lugares do mundo, e um emprego, além de comprar um telescópio com meu primeiro salário. Como você pode imaginar, um sonho de criança impossível de ser realizado no sistema de vida atual. Hoje, eu já depois dos 30, ainda nem vejo a sombra da casa própria e continuo revendo a direção do meu caminhar, como um piloto de barco às vezes levanto as velas para aproveitar o vento e ajustar o destino.
Minhas escolhas não me levaram nem mesmo no observatório estelar. Elas se moldaram e adaptaram as oportunidades que apareciam. Meus sonhos se transformaram e ao invés da NASA eu passei a almejar concluir o doutorado. Ao invés de estrelas e buracos negros, meu mundo passou a ser povoado por diversos assuntos nem sempre conectados, mas que me abriam portas e janelas para um possível futuro como pesquisadora.
O sonho de visitar outros países passou a ser o sonho de experimentar viver em outros países, conhecer a cultura, criar laços, e me deslumbrar com o novo. Algo que descobri ser pior que cachaça. Quando você sai e descobre que há um mundo de possibilidades o cérebro se reorganiza e no coração passa a habitar o desejo pelo desconhecido.
Os sonhos já não são mais os mesmos. A casa virou qualquer lugar onde eu me sinta à vontade. O telescópio hoje é uma mochila compacta que comporta meu minimalismo não tão minimalista. Alguns sonhos se concluíram ao ponto de me fazer perder o rumo e ter que descer as velas do barco enquanto recalculo a direção.
Se me arrependo? Não. Se eu faria algo diferente? Talvez, mas é bem improvável. Fiz o que foi possível, com o desenvolvimento emocional, físico, intelectual e espiritual que eu tinha. Mas com certeza eu poderia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer.
Hoje eu construo novos sonhos, algo para fazer o amanhã ter algum sentido. Ainda penso na casa com a rede na sala, um tapete e as grandes almofadas, a janela no quarto (porque não tem como viver sem janelas), e a cozinha com a horta vertical na parede com as plantas que são de comer. A horta do lado de casa, com as larvas comendo as hortaliças porque nem tudo é perfeito. No muro o maracujá, e no fundo eu dormindo e sonhando.
Céus abertos. Sempre.