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sábado, 21 de fevereiro de 2026

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Meu passatempo predileto é olhar a janela. Deitada passo horas admirando o céu, mesmo quando está coberto de nuvens me distraio observando o vento balançar bem de leve os galhos das árvores. Vez ou outra um passarinho, nos dias de sorte um esquilo ou uma raposa. 


O quarto fechado, a janela trancada, e minha mente longe vendo quem passa ou deixou de passar. Bem em frente consigo ver uma árvore seca, só os galhos finos e as flores espalhadas, daqui parecem branquinhas como neve que aos poucos vai caindo lentamente, voando até o chão cheio de pétalas brancas. 


Tento me lembrar da época em que eu não usava celular e não tinha acesso a internet. De alguma forma eu me distraia, mas sem a urgência de ver se alguém ia me mandar mensagem. Pelo contrário, se o telefone tocava muitas vezes eu deixava lá até desistirem e desligarem. Hoje em dia no primeiro tremilicar do aparelho eu já quero ver quem é. Para quê que eu quero ver quem é? 

Aos poucos minha concentração que já não era muita vai esvaindo. Escrevo uma linha e paro no meio - opa! uma notificação. Me perco entre mensagens e quando volto por pouco já não me lembro mais sobre o que é que eu estava a escrever. Tenho me esforçado para lembrar como era minha vida antes de tudo ser urgente, antes do celular, quando eu ainda não tinha Orkut.

3 segundos e já não sei mais. 

Livros inteiros lidos em um único dia, listas e mais listas de exercícios eram a rotina do final de semana, brincar de não sei mais o quê preenchiam as horas. A TV me prendia, mas a programação tinha horário de início e fim. A programação das redes sociais é infinita. Sem pena destroem nossa capacidade mental.

3 segundos e já não me concentro mais.





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O luxo de ter o básico

Quando eu acordei minha mente estava limpa, sem aquele excesso de pensamentos e preocupações, o maxilar relaxado, e debaixo da coberta or ar quentinho me envolvia. 

Levantei ainda com o corpo cansado, mas a mente afiada. Depois de muito tempo, não consigo nem contabilizar quanto, consegui ler um texto concentrada - claro que pequenos desvios aqui e ali - mas alerta às palavras, compreendendo com o mínimo de esforço. Aos poucos fui percebendo uma mudança sutil ocorrendo, como se aos poucos o meu cérebro estivesse relaxando, tranquilo, sem se ocupar em pensar como será a próxima hora.

Onde você mora? Qual a qualidade de onde você mora? Quão confortável é esse lugar?

Não estou aqui a falar de mansões, mas seu lugar te proporciona conforto térmico e físico? Você se sente segura/o?

Quanto você gasta por mês com contas essenciais? Sobra um pouco para o lazer ou uma emergência? 

Você precisa escolher entre um pão de qualidade ou a passagem do transporte?

De novo, não é sobre estar no 1% mais rico, mas sobre dignidade. 

A água que você bebe é filtrada?


Me lembro de quando comprei um filtro de água, faz alguns meses, a sensação interna de dignidade foi tão intensa que eu nunca imaginei que sentiria isso com uma vasilha com um filtro de carvão dentro. Mas são esses detalhes do dia a dia que moldam nosso nível de estresse, o excesso de preocupações e a qualidade da nossa vida. 

Poder chegar em casa, acender as luzes para espantar a escuridão e sentir o aquecimento ligado sem ter que enfrentar a angústia da invasão do frio pela janela e paredes, que ultrapassa as camadas da cama e invade o corpo. Só em saber que tudo será provido e nada lhe faltará faz muita diferença. 

O luxo de ter o básico! 

Seria um luxo ter dignidade? Não deveria, mas infelizmente, na sociedade que vivemos parece que ainda é para muitos de nós. 

O luxo de morar em segurança,

ter o necessário para viver,

pagar as contas sem entrar no vermelho,

ter um hobbie,

poder escolher,

ter tempo,

sentir a mente relaxar tranquila

ao saber que está tudo bem. 

O pão em cima da pia lembrando a fartura onde a comida nunca falta.  


De repente eu entendi o quão maléfico pode ser para a mente não ter o básico ou estar sempre na corda bamba entre ter e não ter. O quanto de estresse nosso corpo acumula ao sempre se preparar para o pior. E como faz bem ter dignidade! O mínimo, o essencial, o necessário, o básico garantido, e o mundo fica até mais colorido.


Que tenhamos todos o luxo da dignidade! 











sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pequenos passos, pequenas reflexões

Uma inspiração profunda, uma expiração barulhenta. Respiro depois de muito tempo de forma consciente, sinto meus dentes rangerem e o único som que escuto além do ruído do ar que sai com força pelas narinas é o motor do freegobar e os ponteiros do relógio. 

Tic Tac 

Tic Tac

Já repararam que nunca é Tac Tic?

O tempo parece que não volta mesmo. Ele também não para, no máximo se arrasta vez ou outra, mas no dia a dia ele passa sem pena. 

Minha mente cheia de pensamentos entrecortados, como reels que começam do nada e terminam em poucos segundos. Não vejo a hora de me livrar desse hábito horroroso que consume meu tempo, entre uma rolagem e outra da tela, se vão minutos preciosos, minha capacidade cognitiva, e a chance de fazer algo por mim. Num engano entre micro vídeos com micro emoções, em que invisto os meus segundos de descanso, termino cada vez mais cansada. 

Tic

Tac 

Alguém aperta o pause, por favor?

Meu trabalho se acumulando, os livros com poeira, as linhas de tricô sentadas me olhando. 

Não dá tempo nem de adoecer direito, tem que ser correndo, recuperar às pressas porque as pendências não param de somar. Não dá tempo de mudanças com calma, de sentar entre um esforço e outro. Há uma urgência que toma por dentro e exige velocidade. 

Tic Tac 

Tic

Hoje eu vou jogar tudo pra cima

Tac

E no fim do dia lembro do que não foi feito com pesar.

Tic

Mas é isso, senhoras e senhores, a vida é feita de escolhas. Um dia de descanso para renovar-se por dentro e por fora, vale mais que um dia fingindo fazer algo. 

Tac

Sofremos em situações que nós mesmos nos colocamos, e em que somos os próprios responsáveis por nos tirarmos de lá. 

Tic

Respiro fundo

Tac

Se a gente não cuida da gente, quem vai cuidar?

Tic

Sigo tentando pisar no freio da vida, reduzir o ritmo, apreciar o tempo que assim que passar não volta mais. 

Tac

O Tempo, ah, o Tempo! Me visite com calma, amigo Tempo. Sem pressa de ir embora, chegue cedo, sente comigo e vamos admirar os galhos das árvores balançando pela janela. Tempo, tome um chá comigo, escuta minhas ideias, desejos e histórias. Me conte pra onde você vai, seus segredos e mais íntimos mistérios. Ai meu amigo, tem paciência, um passo por vez, me espera!

Tic Tac

O tempo não é amigo nem inimigo de ninguém. Ele só é. 




domingo, 28 de junho de 2009

Fuuuu ! - é assim que o vento faz.

Um tsuru passou voando, anunciava a boa nova de que a sorte está por vir.


Rua vazia, até porque já passou das dez e aqui só continua do lado de fora os bêbados, vagabundos, sem tetos e eu.
O sereno cai parecendo um chuvisco e a calmaria é tão grande que chega a assustar. Odeio ser pessimista, mas uma guria andando sozinha à noite é alvo fácil demais, tão fácil que se eu fosse o ladrão já teria caído por cima, sem arma nem nada.
Um baque leve por trás de mim me dá um arrepio e aumento o tamanho dos passos, queria tanto um retrovisor meu deus!, passei por um carro parado e aproveitei pra olhar o que vinha por trás.
Não vi nada. Virei o corpo pra confirmar. Não gritei. Não chorei. Não corri. Oh, raiva por não ter corrido! Me apoiei na parede e coloquei a mão na cintura, estilo vou rodar a baiana, não sei se ajudou muito, mas ele recuou. Puxou as rédeas e o cavalo recuou de novo. Seu manto reluzente e a sua lança de guerra me amedrontavam, olhei a sua face e aquele semblante calmo e protetor me desarmou, segui para casa.
Eu estou vestida com as roupas e as armas de Jorge.
Salve Jorge! Salve Jorge!
Para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Tic.

Ele está em todo lugar. Controlador e possessivo, cura e liberta, consome e aflige.

Ele rege o mundo e nos permite contar o quanto vivemos.


Quando entramos em desespero olhamos para ele e pedimos para que nos espere.

Ele nunca espera.


É cruel com as crianças e mulheres, mata os homens no seu badalar.


Sempre acorrentados em seus braços basta nos distanciarmos dele para ficarmos perdidos.


Uma ode ao novo deus, ao dignifico Deus Relógio, funciona com sol ou pilha e controla todas as pessoas nesse masoquismo sem fim.


Tic


Tac


Tic


Tac


Tic


Tac.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A melhor maneira de realizar os seus sonhos é acordar. (Paul Valéry)


As melhores histórias são feitas quando estamos assustados, com medo ou passando por algum problema...


Sentada embaixo da árvore encostei-me ao tronco para amenizar a sensação de que apareceria algum animal por trás. Estava tudo quieto desde que desci e fiquei ali parada esperando o dia amanhecer, quem saberia quantas horas eu estava naquela posição, o tempo escorria como um rio calmo e sereno, mas algo me incomodava seriamente quanto a isso.

O céu nos mostra o passado das estrelas e de todo o cosmo, a luz que vemos hoje levou centenas de anos para atravessar o universo e atingir nossos olhos. Nitidamente eu só via a lua e mesmo sem saber onde estava uma certeza ainda se firmava: Sempre estaremos sob o mesmo céu. Só havia uma explicação.

Na minha mente algo estava sumindo, evoquei minhas lembranças e tentei deixar as imagens congeladas por um alguns instantes, não é tão fácil quanto parece, ‘ponto fixo ponto fixo ponto fixo’ repeti enquanto olhava para o mato, mas pra meu terror o ponto fixo começou a se mexer. Um gato branco e castanho saiu e andou pelo local, sentou.


Em torno do livro uma massa cinzenta e mole era absorvida com dificuldade se misturando com um felino que passava no momento.


Para meu espanto amanheceu depressa.

Aparecer ali de noite de alguma forma havia sido proveitoso, olhar o deslocamento da lua me dava às coordenadas de onde eu estava e, ou eu fiquei louca ou o sol estava surgindo do oeste.

A minha certeza era no fundo uma brincadeira, mas parecia me dar uma direção.

O tempo flui para trás, indo para frente estamos voltando.



- Continuação do post de 04/12/2008