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quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ligação de Natal

 Alô, Maria, sou eu de novo. Te ligando pra dizer que hoje é Natal mais uma vez e por aqui o brilho ficou só no pisca pisca, que modéstia a parte esse ano eu fiz questão de ligar várias vezes. 

Maria, tá me ouvindo?

Meu corpo dolorido, minha cabeça ainda zonza, acho que peguei um resfriado. Não, não se preocupa, vou ficar bem. Sei fazer um chá e na dúvida eu durmo de novo até acordar boa. 

Preciso te dizer que quero chorar e não consigo. Então, não é que eu esteja triste, não sei explicar, só queria conseguir chorar e lavar a minha alma, esfregar com água e sal meu coração até ele ficar alvinho e leve novamente. Isso, como das outras vezes! Só que estou sem lágrimas. Quando aparecem só uma ou duas, só umidecem as pálpebras. 

Você ainda está aí? A ligação hoje tá falhando. Estou tão sozinha na multidão. As vozes sopradas nas minhas costas me agoniam e me fazem querer correr, mas é aquela loucura de Natal, todo mundo aglomerado tentando achar um presente, uma roupa, um enfeite novo. Eu vou como se faltando um pedaço, algo que esqueci por aí e não consigo repor. 

Sei, sim, sei que vim inteira pra essa vida. Entendo, mas ainda sinto falta. 

Maria, quando você vem me ver? Queria ir aí te ver, mas você sabe, o futuro é imprevisível e se eu for não sei bem o caminho pra voltar. Ano que vem? Tenho muitos planos, espero conseguir realizar alguns deles. O meu maior plano é não ter pressa e viver devagarzinho, sentindo os dias escorrendo pelas mãos. 

Quero pregar na parede da minha casa os quadros que vou pintar, e colocar as frutas da semana no cesto que vou fazer, deitar na rede e me estirar no meio da sala olhando o nada e as plantas penduradas ao acaso. Quando você for na cozinha vai ter ervas plantadas na janela, as panelas pelas paredes e meus vasos fermentando na estante. Tá rindo, Maria? Ah, parece casa de bruxa, mas eu bem que sou! Graças a Deus não queimam mais nas fogueiras. No quarto vai ter pouca coisa, mas não pode faltar o altar pro Bom Deus. Vai ser simples, você sabe como eu sou. Se eu der sorte Maria, até as canecas que você beber água sou eu quem vou fazer. 

Parece sonho, né? Ai Maria, você me conhece, vai dar certo eu só não sei quando. 

Maria, o que você faz quando te falta esperança? Isso, o que você faz quando acaba a animação?

Eu não sei, se eu soubesse não estaria perguntando. Rezar?

Talvez eu devesse fazer uma oração hoje então, aproveitar que é Natal, quem sabe o efeito é dobrado?

Você ri, né, mas vai que cola! Dizem que Natal é um dia diferente, as pessoas se esforçam pra ser melhores, eu só sinto melancolia, mas vai que pra Deus também é especial. 

Maria, obrigada por me ouvir. Vou desligar, tá ficando tarde. Quero rezar antes da meia noite que é pra ainda ter o efeito do dia de Natal. 

Se cuida, viu! Eu tô me cuidando. Também te amo. 



 







segunda-feira, 13 de julho de 2015

Sobre as grandes pequenas coisas

Quando converso sobre problemas sociais, má distribuição de dignidade (o que inclui renda, moradia, saúde, educação, alimentação, entre outras necessidades básicas)  ou mesmo quando escuto alguém falando sobre isso sempre me deparo com o pensamento negativo, a impotência diante dos fatos.
Mas engraçado é que hoje eu estava pensando comigo mesma, como que eu posso ser tão louca para apesar de todos os argumentos não acreditar que somos impotentes?

Quem me conhece sabe que a minha mente trabalha diferente... e meu primeiro pensamento foi "eu vivo em extremos".

Quando olhamos uma foto do universo, daquelas que a NASA publica de vez em quando, temos a sensação de que tudo é apenas um monte de pontinhos e grandes nuvens coloridas. Porém, quando ampliamos, cada pequeno ponto se transforma em uma galáxia ou no mínimo em uma complexa formação estelar.

O que eu quero dizer é que tudo depende do ponto de vista.

De um pequeno ponto na foto à uma galáxia, de uma galáxia à um conjunto de matérias, cada matéria composta de pequenos pontos.


...Cada ponto compõe seu próprio universo. 

Da mesma forma quando vejo a minha foto, daquelas que publicamos no Facebook de vez em quando, tenho a sensação de que sou diferente dos outros, mais especial, ou mesmo quem sabe, que o meu sorriso é o mais importante. Quando vejo a foto por algum motivo eu me destaco aos meus próprios olhos.
Mas será que isso pode ser verdade se quando tenho fome eu me sinto mal como qualquer outro, se quando estou doente fico vulnerável e não tenho forças, se quando sinto tristeza as lágrimas caem salgadas e fazem o mesmo caminho para todos.

O desejo de ser especial e melhor é o que nos limita quando pensamos em distribuição de dignidade.

A impotência que sentimos ao falar das "questões sociais" ao meu ponto de vista vai muito mais além do fato de que sempre esperamos a GRANDE mudança, a MAJESTOSA transformação que alguém em algum lugar desconhecido com um grupo de pessoas que ninguém também conhece irá fazer.
A impotência vem do fato de que nós não queremos ser vistos como iguais.

Eu sou igual ao doente no corredor do hospital.
Eu sou igual ao pedinte nas ruas.
Eu sou igual a prostituta.
Eu sou igual ao ladrão.
Eu sou igual a criança que dorme ao relento.
Eu sou igual àquele que busca comida no lixo.
A minha fome é igual, a minha carência é igual, a doença é igual, o meu desejo de ser especial é igual.

A impotência vêm do sentimento de que nós não queremos mudar. Nós pensamos que pode ser legar a distribuição de dignidade, mas nada mais.

A sociedade é o pequeno ponto do universo na foto, quando ampliada vemos os vários pequenos pontos compostos por mim e por você.

Cada vez que penso sobre isso chego a conclusão que a solução vai além das questões políticas e dessa propaganda toda que vemos na TV. É tudo muito mais relacionado ao nosso pensamento egoísta de querer mostrar-se melhor que os outros.
Se toda vez que EU me deparar com o meu igual eu tiver uma atitude de respeito à sua dignidade a vida vai se tornar melhor ainda que em um pequenino círculo de pessoas.
Das minhas frases prediletas para terminar o texto "melhor pouco do que nada, e antes tarde que mais tarde.".








sábado, 9 de maio de 2015

De onde foi que eu vim?

De onde eu vim?
Por que eu não me enquadro no padrão normal das pessoas?
Por que eu tenho que ser assim tão...tão... louca?

Me pergunto sempre essas questões.

Por que eu tenho que amar demais?

Estava lendo um artigo sobre uma sequência de genes presentes em pessoas que relatam sentimentos exacerbados. Eu aposto que tenho isso. Mas não é exatamente sobre mim que quero falar hoje, quero falar da minha percepção das pessoas.

Tenho amado alguém que em um mísero fim de semana me deixou por outra pessoa. Alguém que é doente, Alguém que muda de humor como as nuvens mudam de posição. Alguém que sabe como pirraçar. Alguém que esconde de mim o seu destino. Que me faz ficar preocupada e com raiva de mim mesma. Alguém que é um dos meus melhores amigos. Alguém que é doce e amargo com fel.
Alguém que eu amo com todas as forças e odeio de vez em quando. Alguém que me decepciona.
Tanta gente no mundo e aonde é que eu fui parar?!
Aonde é que eu sempre vou parar...

Insisto em dizer que o problema deve ser comigo, não devo entender a realidade dos fatos ou simplesmente escolho a pessoa "errada".

De onde eu vim por alguma razão existiam as palavras confiança, afeto, compromisso, sinceridade.

Lembro de uma vez que eu estava trabalhando numa lojinha e eles tinham imãs de geladeira com algumas dessas palavras. Um dia uma garota entrou, pegou um dos imãs e perguntou pra mim Mas o que é afeto? O que é compaixão? Naquela hora eu sabia que havia algo de errado, tentei explicar com pouco sucesso. No fim só posso dizer que muita gente cresce sem saber o significado dessas palavras e sai errante tentando viver o que chamamos de vida.

Por que eu não deixei a minha pessoa amada para trás? Por que eu simplesmente não esqueço e corto contato?
Sinceramente, minha resposta é porque eu sou maluca mesmo, mas eu lá tenho minhas razões pra isso.
Mantenho uma relação de amizade que nutre o afeto e que cuida mutuamente para que ambas as partes fiquem bem. Vai que essa pessoa também não conhece o significado de tudo isso. Na pior das razões mora o fato de que eu aprendo muito sobre o ser humano lidando com essas espécimes raras.







sábado, 2 de novembro de 2013

Diário de bordo

Considerações iniciais
Já faz um tempo que venho me preparando para os dias atuais, mas ainda assim a cada amanhecer eu me arrumo e repasso os preparativos. Durante o dia às vezes paro e sento sozinha para relembrá-los, e só no final me sinto livre e com a sensação de missão cumprida.
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Terceiro dia de viagem, já é noite e eu posso dizer com propriedade que em 72 horas eu vi mais do que muita gente conseguiu ver em um mês. Provavelmente esse é um dos pontos positivos de se estar só, pode-se caminhar a vontade e na velocidade que achar necessário, se perder é uma alegria e abertura de caminhos para novas descobertas.
Conheci pessoas simples e interessantes, espiritualmente ativas, e superficialmente consegui observar algumas peculiaridades ao meu redor.

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Da primeira vez que vi a cidade me arrependi em pensamento por não portar um guarda-chuva, pois ao longe eu já conseguia ver uma nuvem negra cobrindo grande parte do céu. Para minha surpresa era somente poluição, densa sujeira aérea invadindo nossas narinas. Mais assustador que muito filme.
Consegui intuitivamente e depois de muito explorar a funcionária do posto de informações descobrir o melhor trajeto para realizar em um dia de visita.
Corri disfarçando o meu desconhecimento e me deixei levar pela coragem e multidão sabendo que no final encontraria o tão almejado metrô.
Subi, desci, olhei e me assustei novamente.
A cidade parecia estar sendo estuprada pelos visitantes, uma leva enorme de turistas em busca de facilidades, oportunidades e preço baixo invadiam as ruas e os meios de transporte da cidade. Todos em busca de produtos tão baratos que ao meu ver só podem alimentar o trabalho de semi-escravidão que nos submetemos hoje. Mas quem quer saber?
Desci, subi, desci e me compadeci.
A luz do Sol se embrenhava entre a poluição, mas aparecia gloriosa através do céu, seu calor irradiava ao meu redor, mas as pessoas continuavam sentindo frio. Casacos e roupas e botas e cachecol e frio e frio e frio no calor. Por instantes pensei em parar alguém para perguntar se era uma lei sentir frio na cidade, mas não fiz isso, seria ridículo demais. Conclui que as pessoas padecem de frio interior, já que estão imersas em tamanho cansaço, tristeza e solidão. Submergiram a ponto de se afogar e previamente já se vestem de preto em luto pelo eu interior perdido. Luto ao esquecimento de si.
Andam em luto pela falta de amor ou em sua incansável busca... ou quem sabe a espera de um renascimento.
Subi, desci e me perdi.
Me perdi no estilo da cidade, entre gótico, neoclássico e um quase raro rococó, me apaixonei e ao mesmo tempo repudiei a imagem da cidade. Lindamente gótica, e em seu esplendor a vivacidade da tristeza. Mas que contradição! Quanto mais bela mais triste se faz.
Lindamente enlouquecedora.
Desci, subi e me encontrei.
Em um centro de arte sacra e um bairro oriental encontrei as cores e uma tranquilidade constante. Seria o oásis? Não sei... e continuarei sem saber.

Subi e voltei ao meu mudo de aventuras pitorescas.

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Engraçado, mas só agora entendi uma exposição que vi no museu. Era o retrato da cidade... em sua inconstância, desespero e anseia pelo que ainda não viveu, o autor me mostrou sem eu nem desconfiar aquilo que aguarda aos que mergulham e não voltam mais à superfície das boas energias.


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Para viver feliz é preciso ser e estar.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Diz que eu fui por aí...

Eu estava para passar por aqui, mas acabei me perdendo no caminho.


21 de setembro, uma homenagem ao desconhecido.




Ela já havia passado mais de quatro horas sentada no banco do ônibus e mesmo assim não havia conseguido um minuto livre para por em ordem os pensamentos dos últimos dias, pelo visto a programação de refletir sobre a vida ficaria para outra hora. Fazia um tempo que não se dedicava a pensar sobre alguns fatos ou mesmo se auto analisar, os dias se transformaram em um relógio contínuo de procedimentos e conversas. A necessidade de um período de solidão urgia.
Enumerou os desejos de criança, os atuais, as realizações e perspectivas e fez uma interseção. Quem diria que a vida iria caminhar desse jeito. Se fosse um jogo de lego ela veria as peças se encaixando de forma amontoada, abstrata. Desejou que no futuro pudesse olhar novamente e enxergar algo menos parecido com uma incógnita.
 Uma neblina densa surgiu na estrada. E se o ônibus batesse e ela morresse naquele exato momento? Todos esses instantes de vida escorrendo como farinha de tapioca entre os dedos, presa pelo cinto de segurança e sem espaço para libertar o instinto de sobrevivência.
Sabia que o instinto a guiava em diversas situações a menos se fosse assalto e principalmente se fosse no amor. Ah, o diabo do amor! Acreditar ou não nessa porção de endorfinas e sinais adrenérgicos? Valeria a pena viver ensandecida entregue a emoções? Deixava essas questões nas mãos do instinto e se entregava, mas na primeira ameaça sua lógica, assim como o cinto de segurança, a segurava pela cintura.
Presa pela lógica...
Entre a neblina e o farol dos carros reviveu. Sentiu o carinho esquecido subir à tona da memória, o sorriso e as lágrimas presas em alguma sala escura sendo revelados por um lapso. Por que havia se esquecido dos bons momentos? Por que os tinha escolhido? Por que viver entre fugir e ficar?
Dirigiu sua mente de forma defensiva e se preparou para colocar o cinto da lógica novamente, se preparava buscando um motivo para acreditar e nada mais. Desejando acreditar como os religiosos ou os ateus, cheios de convicção. 

Vivendo a busca, sofrendo em vão. Porque nem sempre precisamos ser racionais. 




 Gosto das minhas dúvidas tanto quanto das certezas. 








sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Vinicius


Assisti um filme hoje pela indicação de alguém que irei chamar de Beija-flor, me identifiquei com a história, com os personagens e com a trilha sonora. Teria como ser melhor? O interessante é que lembrei um pouco de uma história antiga que tentei imaginar ou melhor que tentei não esquecer. Vinicius é o nome que escolhi para a criança que vi em um dos meus sonhos há alguns anos atrás, naquela noite meu inconsciente me disse que ele era meu fruto, ele ia me contar uma história que de alguma forma eu havia lhe contado e escrito. Acordei antes de ouvir e até hoje tento imaginar o que ele iria me falar... Ah, que saudade do desconhecido... Que saudade...

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Já faz um tempo que eu penso em você, como se parece e se um dia irei te conhecer de verdade. Hoje, depois de tantos anos que nos encontramos lembrei do lugar sobre o qual você iria me contar, lembrei como se houvesse visto em uma foto e guardado em algum lugar da minha memória. Mande notícias pelo meu subconsciente...


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Quando abri os olhos me vi rodeado por montanhas, ao longe um campo verde escuro se estendia até aonde as minhas vistas poderiam alcançar depois de se encontrarem com os raios de Sol. Não tenho noção do tempo nem a direção para qual devo seguir, sei apenas que é dia, estou entre algumas pedras e onde me encontro a vegetação não chega a cobrir todo o solo, há um caminho entre as pedras e mais além não vejo sinal de outra pessoa ou mesmo um animal.
Levantei devagar e percebi que estava morrendo de fome. Céus! Onde estou? Não encontrei minha mochila... Como eu poderia sair sem minha mochila? Comecei a andar em busca de algum sinal, talvez eu tivesse sido sequestrado, roubaram meus órgãos, apagaram minha mente e de alguma forma sobrevivi, mas não havia sinal de cirurgia, não havia nada. Passei a mão pela nuca e percebi que estava com uma marca enorme da pressão que exerci na pedra enquanto estava deitado. Quanto tempo eu haveria passado daquela forma não consegui imaginar.
Talvez por parecer um caminho mais limpo e fácil comecei a andar em direção ao cume da montanha, talvez se conseguisse alcançar uma maior visibilidade pudesse ver um vilarejo ou um local para me abrigar e comer alguma coisa. Minha barriga ronca e sinto como se estivesse a dias sem ingerir algo.
Caminhei por pelo menos duas horas ou dez minutos tão longos quanto duas horas e encontrei algumas abelhas, um coelho ou um rato grande parecido com um coelho, tropecei n vezes e tive que sentar antes de desmaiar de fome, deitei no chão e o Sol que parecia agradável começou a me provocar um incomodo terrível, estava passando mal sozinho em um lugar que não fazia ideia de onde era, a visão foi se apagando, tentei me arrastar para um lugar com sombra. Vinicius, você não pode morrer aqui, pensei e dois segundos depois não havia mais nada além da escuridão. Havia desmaiado.
Acordei novamente no que deveria ser o final da tarde e quando finalmente o Sol se pôs cá estava eu, vivo e sem abrigo. Desejei continuar desmaiado, pois pelo menos o medo não seria intenso e quase personificado em meu ser, o barulho do vento me assustava ao ponto de eu começar a chorar como quando era criança. Não fazia frio nem calor àquela hora, mas em meu coração parecia o lugar mais gélido do universo. Não havia Lua e as estrelas eram tantas que me deixavam tonto, sempre fui fascinado pela noite e um céu daqueles era digno de ser admirado por toda eternidade da minha vida finita. Levantei e me abriguei entre as raízes de uma árvore, a sensação de ter um local protegido me ajudou a parar de chorar, coloquei as mãos dentro do casaco que estava vestindo e percebi ter um bilhete e algumas folhas de hortelã, masquei-as e tentei ler o que estava escrito - Segunda travessa entre as margens do rio. Era minha letra, o papel estava amassado e de alguma forma eu não lembrava quando foi que o escrevi ou guardei. Fiquei acordado a noite inteira e assim que o dia começou a clarear fiz a decisão que iria me guiar até o fim – Eu vou sobreviver, custe o que custar.
Continuei no caminho e antes do meio dia já tinha encontrado umas frutas possivelmente comestíveis e que me sustentaram por toda a manhã, todo o tempo me senti observado como se algo ou alguém estivesse me acompanhando. Tentei ouvir passos, fiz alguns caminhos tortuosos e quase desmaiei novamente, mas a sensação não passou, havia mais alguém ali.
Ao entardecer eu comecei a ouvir o som de água corrente, mas escurecia rápido e preferi me abrigar antes do anoitecer, catei algumas pedras para me defender caso algum animal aparecesse e deitei, fechei os olhos e por alguns instantes ouvi algo que parecia o caminhar de alguém leve e quase imperceptível, me concentrei ao máximo e o som se aproximava, tentei segurar uma das pedras e abrir os olhos sem muitos movimentos, alguém estava ali, eu podia sentir sua presença ao meu redor, o medo foi me possuindo e quando consegui focalizar entre o mato vi uma pessoa que devia ter não mais que um metro de altura, branca, cabelos claros quase tão brancos quando a pele e os olhos avermelhados, vestia uma calça de couro, uma bota amarrada próximo aos joelhos e uma longa camisa marrom que cobria até os cotovelos, na cintura carregava uma bolsa e algo que poderia ser uma faca. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo. Estranhamente linda e assustadora. Permaneceu imóvel, sabia que eu estava olhando para ela, ainda a encarando sentei e ficamos assim não sei por quanto tempo, levantei e ela recuou, falei meu nome, pedi ajuda, dei dois passos e ela correu tão rápido que quando alcancei o local em que estava já não tinha mais sinal da sua presença, encontrei no chão uma massa dura que parecia pão e uma garrafa com água. Escureceu a ponto de eu não enxergar um palmo a minha frente e essa noite não consegui dormir novamente imaginando quem seria ela. Comi e bebi água, me senti grato e não pude evitar um sorriso, apesar de não fazer ideia do que estava acontecendo ter encontrado ou quem sabe ser encontrado por outro alguém parecia deixar a situação melhor.





sexta-feira, 20 de abril de 2012

Lá vai a vida a rodar...


Quando sou invadida por inúmeros questionamentos e profusões de pensamentos só a concentração de tentar escrever acalma. Pena que não consigo materializar nem em letras ou voz aquilo que habita o meu mundo de ideias.

Será que perdi o que tanta almejei resguardar em mim? A ânsia do ser questionador... sufoquei-a talvez me abastecendo com inúmeras respostas ou com o vazio e guardei-a como um baú antigo dentro de mim. Ao mesmo tempo nutri o desejo pelas pessoas, prazeres e palavras que me distanciavam do que eu já havia escondido.
Foi por isso que fui embora da outra vez? Um sarcasmo na minha mente narra o quanto busco nos outros o que escondi em mim.
Quem diria... não achei saciedade suficiente nos prazeres, não achei perguntas, apenas certezas e as certezas me incomodam. Incomodam assim como as certezas que construí, assim como o que fiz com meu espírito questionador.
Ardo em febre e penso ainda mais. Penso nas respostas... mas que respostas se as perguntas são tão brutas e falhas?
Enquanto isso vou narrando meus pensamentos e atos na terceira pessoa do singular como se eu na verdade estivesse em outro lugar narrando a minha angústia, que na verdade não passa de um ardor da juventude.
Que esse ardor não morra. Amém!



quinta-feira, 29 de março de 2012

Se é pra falar de amor... olhos nos olhos.

Quando amamos voltamos a ter cinco anos de idade, e assim como nenhuma criança quer emprestar o brinquedo, dificilmente alguém se sente feliz assim que toma consciência de que somos livres, e que a pessoa amada também pode ir e vir.

Não sei por que, mas sinto que ainda irei pensar durante muito tempo sobre esse assunto...

E agora? O que fazer?

É tão sutil a linha que une as pessoas, talvez seja por isso que evitamos amar livremente... por medo de se machucar, por medo de que alguém leve o que, na verdade, nem mesmo é nosso, por que só é nosso o beijo que foi dado, o momento de carinho, as brigas, os risos e a admiração.

Eu temo e admiro como se fosse meu amor platônico a ideia de ser amada e amar livre de amarras, e continuar amada e continuar amando mesmo podendo ir e me perder pelo caminho.

E continuar amada e continuar amando...

Talvez a mulher tenha medo da outra mulher, tenha medo que essa seja o que ela não foi ou não conseguiu ser para ele, e dessa forma ela leve embora o seu brinquedo, deixando-a como uma criança desolada que não sabe pra onde ir. O desejo de posse surge do medo de perder.
Medo. Não vivemos sem ele, mas não podemos viver submissos. É necessário confiar e amar. Não cresce amor em um chão sem confiança, apenas obsessão, medo e tristezas.

“Eu ainda estou confuso, só que agora é diferente. Estou tão tranquilo e tão contente.”

Foi tão rápido, tão sincero, tão breve que me assustei. Como pôde? Quem é ela? Por que ela? Por que não sinto desejo por outras pessoas também? Eu não quero saber... Só lembro de ter meu sentimento de criança assustada e nada mais. Da raiva e nada mais. Das lágrimas e nada mais. Do desejo de querer ser diferente e nada mais. Do desejo de querer ir para o mais longe possível e nada mais. Do medo e nada mais.
Hoje quando penso lembro que o carinho não havia mudado por ter acontecido... e se não me contasse eu nem mesmo perceberia.

Vinicius de Moraes diz em uma de suas músicas que para viver um grande amor precisa-se de seriedade e que ser de muitas é para quem quer e não tem nenhum valor. A graça de tudo isso é que ele foi um homem de muitos amores, um homem e muitas mulheres.

"Ninguém vive mais que uma vez."

Um dia o amor será livre e eu não vou sentir como se estivessem arrancando minhas entranhas... como se um frio me invadisse, numa mistura de sentimentos.

Talvez, eu tenha que perder o medo da chuva.

“Hei de morrer de amar mais do que pude.”
Ah, Vinicius... tão exageradamente fiel aos extremos daqueles que amam, àqueles que mergulham na própria ilusão e que se deixam afundar nesse mar desconhecido.


E vamos vivendo enquanto a banda toca...
Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar .

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

É você hipocrisia?!



Já faz um tempo que para falar com alguém do outro lado do mundo não demora mais que um clique, a não ser que a sua conexão com a internet seja muito ruim. As redes sociais vem se tornando mais que um lugar de encontros e desencontros, o seu papel social está sendo cada vez mais reconhecido a partir de protestos e comentários que inflamam os corações dos que ainda sonham com um mundo melhor. Alguns acham que o percentual de pessoas que realmente conseguem fomentar uma mobilização não chega aos pés da quantidade de besteiras que são publicadas, mas como já diziam os mais velhos de grão em grão a galinha enche o papo. A internet apesar de seus encantos tem um quê de túnel sem fim, quando você entra sair é a última opção. Mas vale a pena, o mundo virtual revoluciona hábitos e mentes, só não podemos virar um povo que não sabe reagir além dos cliques do mouse.



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Não, não fuja não

.
João e Maria
Chico Buarque


Agora eu era herói
E o meu cavalo só falava inglês
A dona do cowboy
Era você alem das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava meu reboque
E ensaiava um rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era bedéu
E era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que fiz coroar
Era tão linda de se admirar
E andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido

Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem
Tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz de contas terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você
Sumiu no mundo sem me avisar
Agora eu era louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim
.
.
.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Rocha

(...)
Nascida na terra, marcada por vento, chuva e sol, lapidada pelo tempo e bonita como a natureza.
(...)

Rocha era assim, menina faceira e manhosa, manha de carinho, jeitinho de doce de tamarindo com coco, corria quando criança pelas ruas parecendo um passarinho. Antigamente Rocha era nossa Isabel porque é prima de Maria, filha de Seu Zeca e de Dona Luciene.
Isabel cresceu em uma casa pequena. Tinha um quarto que se dividia com a sala por uma cortina de lençol, uma cozinha e do lado de fora havia a pia de cortar carne e lavar pratos, o banheiro e o quintal que era maior que a casa.
Isabel nunca reclamou, flor de menina que era cosia e limpava na casa do barão. Vez ou outra levava maçã e biscoito de goma pra casa... Um dia mesmo, lembro que teve guaraná na casa do barão, escondido ela encheu o vaso de manteiga e levou pra casa pra que os irmãos e a mãe soubessem o que era. Não deu outra! A mulher do barão que já não gostava dela - más línguas diziam que o barão jogava charme pra cima de Isabel - tirou as cartas da manga e mandou a menina embora.
Isabel já era moça, tinha o corpo formoso que só a juventude sabe moldar, a pele morena de sol e parecia que passava o dia inteiro tomada banho pois cheirava sempre a sabão. Tornara-se lavadeira.
Dia após dia Isabel sentava na pedra à beira do rio e esfregava as roupas, lavava pra se sustentar pois em casa muita gente andava morrendo de diarréia.
O tempo passou... Isabel sumiu pela roça.
De manhã cedinho, tinha acabado de raiar, quando fui levar o boi pra beber água vi lá Isabel deitada de bruços abraçada à rocha. O sangue escorria entre as pernas junto à criança presa ao cordão.
Corri pra socorrer. Sacudi a Isabel e nada, tirei a criança, e olha lá! Estava viva, mirradinha de magra, chorava baixinho, nem lágrima tinha mais...
Lembro que o céu estava azul com as nuvens douradas pelo amanhecer e eu em pânico ouvia o barulho das águas correndo entre as pedras levando aos poucos a vida como quem solta um passarinho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quase um malabares

No princípio se fez o céu e a terra... Ok, não é bem isso. No início havia o big bang e era necessário a explosão de cores de um por do sol para eu lembrar de um ser humano.


No segundo dia apareceram as plantas e os animais... Eeeer, bem... E as pétalas vivas e reluzentes me lembravam o seu olhar...

De repente, mas não tão repentinamente, as pequenas coisas já lhe pertenciam.


Equilibra, equilibra!

Que hoje em dia qualquer gato vagabundo me faz lembrar você, e me deixa com vontade de por no colo esquecendo do mundo.


domingo, 25 de setembro de 2011

É que eu gosto de ser baiano'

Quem é da Bahia e não gosta de samba nem nunca comeu caruru,
ah sinhô, ah sinhá!
Manda esse embora e nem deixa entrar,
ah sinhô, ah sinhá!
Quem é da Bahia nasce sabendo sambar.



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Você, assim como eu.


Dias longos deveriam merecer longos abraços, longos sorrisos
e curtos engarrafamentos





Quando a gente descobre que a vida é feita de fases percebe que as flores da primavera não são as mesmas que florecem no verão.



sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um gole de ar, por favor!


Passei cinco dias sem sentir cheiro algum, cinco dias comendo sem gosto, sem perfumes ou fedores, cinco longos dias sem olfato. Ontem, inacreditavelmente, voltei a sentir alguma coisa, senti um fedor de gasolina e pastel frito, mas quando menos esperava o ar foi embora, uma bola invisível apareceu na minha garganta e bloqueou a passagem. Longos segundos sem ar. Mantenho a calma, continuo conversando e com algum esforço sinto o tórax relaxar e o alivio. A cada quinze minutos a respiração falha.

Hoje acordei sentindo cheiro de pão queimado. Levantei da cama e a bola invisível já estava transpassando minha garganta. Deitei.

Quando sai de casa senti o cheiro da rua molhada pela chuva, me lembrou fralda molhada de xixi, os carros deixando o ar impregnado com o cheiro de fuligem, os corredores nunca dantes me pareceram tão tenebrosos com sua poeira e cheiro de tinta. Passei o dia inteiro sem ar, posso contar a quantidade de vezes em que respirei.

Tomei um café, meu coração disparou e o ar fugiu junto com a fumaça que subia do copo.

Me apoiei no braço da cadeira, nas grades, no poste, no chão. Sentei no meio fio. Cabeça entre as mãos. Não havia o que pensar, mas se fosse pra morrer sem ar que pelo menos fosse na praia, porque é doce morrer no mar.



segunda-feira, 13 de junho de 2011

Me abrace com seus olhos


Quando era criança pensava na vida como gente grande, discutia comigo mesma os problemas mundiais e as questões do meio ambiente, desigualdade social e capitalismo. Os anos foram passando e me enveredei sobre os astros, seus mistérios, a origem do universo e do mundo em que vivemos. Passei a usar menos tempo para os problemas do mundo. Um tempo se passou e eu me vi usando uma longa camisa azul, calça jeans, cabelos arrumados e bolsa. Não pensava mais nos astros, nem nos mistérios da vida, muito menos em seus dilemas que continuam sendo os mesmos.
De repente me senti uma grande estúpida e idiota, sentada no meu umbigo dentro de pensamentos sem fundamentos. De repente vi que a minha teoria de criança estava amplamente certa, depois de um período nos acostumamos com tudo, não importa se bom ou ruim, apenas nos conformamos, abanamos a cabeça e começamos a construir a grande muralha que nos separa do mundo. Ainda menina sabia que mais dia ou menos dia isso também me atingiria, a única forma que tive de promover minha libertação foi plantar dentro de mim a vontade de ser eu mesma, estando fora de cogitação ter medo daquilo que sempre fui, uma louca perdida num universo de idéias.

Quanto mais estúpida me sinto, mais perto da liberdade estou.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Hoje eu quero sair só'



Apertou com força o corpo fino e esguio, colocou entre os lábios e mordeu sua extremidade com tanta vontade que deixou a marca dos dentes, esfregou entre suas mãos para esquentar, e enquanto observava a folha branca de papel tentava fazer com que a caneta funcionasse.



Rodapé...

Não, o texto não ia começar assim, a idéia também não era sobre caneta falhando, nem sobre a GVT que deixou a rede cair por algumas horas ontem e mostrou como isso afeta o meu vício virtual. Não era pra falar também sobre a necessidade que aflora nas pessoas em ouvir algo que preencha a angustia ou a solidão. Já não sei mais até o que era mesmo pra falar, não era sobre os alimentos frios’ mal refrigerados nos mercados, nem sobre as promoções de produtos com validade para aquele dia... Acho que eu estava pensando algo sobre velhos amigos, pessoas que desaparecem na nossa vida e uma palestra que assisti no inicio do ano, mas é depressivo demais.

É, cansei. Esqueci.

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"O destino une e separa as pessoas, mas nenhuma força é tão grande para fazer esquecer aqueles que por algum motivo um dia nos fizeram felizes." (Recebi por e-mail :)