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quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ligação de Natal

 Alô, Maria, sou eu de novo. Te ligando pra dizer que hoje é Natal mais uma vez e por aqui o brilho ficou só no pisca pisca, que modéstia a parte esse ano eu fiz questão de ligar várias vezes. 

Maria, tá me ouvindo?

Meu corpo dolorido, minha cabeça ainda zonza, acho que peguei um resfriado. Não, não se preocupa, vou ficar bem. Sei fazer um chá e na dúvida eu durmo de novo até acordar boa. 

Preciso te dizer que quero chorar e não consigo. Então, não é que eu esteja triste, não sei explicar, só queria conseguir chorar e lavar a minha alma, esfregar com água e sal meu coração até ele ficar alvinho e leve novamente. Isso, como das outras vezes! Só que estou sem lágrimas. Quando aparecem só uma ou duas, só umidecem as pálpebras. 

Você ainda está aí? A ligação hoje tá falhando. Estou tão sozinha na multidão. As vozes sopradas nas minhas costas me agoniam e me fazem querer correr, mas é aquela loucura de Natal, todo mundo aglomerado tentando achar um presente, uma roupa, um enfeite novo. Eu vou como se faltando um pedaço, algo que esqueci por aí e não consigo repor. 

Sei, sim, sei que vim inteira pra essa vida. Entendo, mas ainda sinto falta. 

Maria, quando você vem me ver? Queria ir aí te ver, mas você sabe, o futuro é imprevisível e se eu for não sei bem o caminho pra voltar. Ano que vem? Tenho muitos planos, espero conseguir realizar alguns deles. O meu maior plano é não ter pressa e viver devagarzinho, sentindo os dias escorrendo pelas mãos. 

Quero pregar na parede da minha casa os quadros que vou pintar, e colocar as frutas da semana no cesto que vou fazer, deitar na rede e me estirar no meio da sala olhando o nada e as plantas penduradas ao acaso. Quando você for na cozinha vai ter ervas plantadas na janela, as panelas pelas paredes e meus vasos fermentando na estante. Tá rindo, Maria? Ah, parece casa de bruxa, mas eu bem que sou! Graças a Deus não queimam mais nas fogueiras. No quarto vai ter pouca coisa, mas não pode faltar o altar pro Bom Deus. Vai ser simples, você sabe como eu sou. Se eu der sorte Maria, até as canecas que você beber água sou eu quem vou fazer. 

Parece sonho, né? Ai Maria, você me conhece, vai dar certo eu só não sei quando. 

Maria, o que você faz quando te falta esperança? Isso, o que você faz quando acaba a animação?

Eu não sei, se eu soubesse não estaria perguntando. Rezar?

Talvez eu devesse fazer uma oração hoje então, aproveitar que é Natal, quem sabe o efeito é dobrado?

Você ri, né, mas vai que cola! Dizem que Natal é um dia diferente, as pessoas se esforçam pra ser melhores, eu só sinto melancolia, mas vai que pra Deus também é especial. 

Maria, obrigada por me ouvir. Vou desligar, tá ficando tarde. Quero rezar antes da meia noite que é pra ainda ter o efeito do dia de Natal. 

Se cuida, viu! Eu tô me cuidando. Também te amo. 



 







sexta-feira, 6 de maio de 2011

De dentro do espelho...

Sentada no sofá ela olhava atentamente as coisas que a rodeavam, da costura da almofada a forma da cadeira.

A rua onde a casa está, quando chega à noite, fica tão silenciosa que até a voz dela que quase já não se escuta pode ser distinguida e entendida.
Levantou, andou pela casa, mexeu nas gavetas e cuspiu no chão. Céus! Não é pra cuspir no chão, mas não adianta falar, em dez minutos a cena se repete sem que se note a interrupção do comentário.
A casa por todos os lados tem espelhos... Ela não quer mais passar pelos espelhos, diz que há uma pessoa ali olhando na sua direção. Tentei mostrar que era ela mesma e na hora em que olhou tomou um susto dizendo, Agora são duas pessoas, pois é... Não podia dizer que estava errada, como então explicar que ali éramos nós se em dias comuns eu também converso com o espelho como se fosse qualquer outra pessoa a me olhar?

Tirei o espelho da parede e agora ele descansa em cima do guarda-roupa.

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Randômico

Escrever é como libertar esse outro eu que existe em nós, assim como dançar sem ter de se preocupar com os comentários, talvez como gritar sem abafar com o travesseiro.

Escrever é uma expressão sublime das sensações da alma. Perde-se o controle das palavras proferidas pelos dedos enquanto teclam; perde-se a guia dos pensamentos, teimosos como uma criança... Enfim, nos perdemos dentro de nós mesmos.

sábado, 2 de outubro de 2010

Strawberry Swing



A felicidade é um objetivo eterno, uma meta que toda vez que alcançamos se esfarela como o pão torrado do café - gostoso e quentinho, deixando sempre a vontade de mais um pouco.
Outro pedaço. Outro sorriso.



Comparações excêntricas fazem parte... Nelas mora o perigo.

sábado, 14 de março de 2009

Perdidos e achados

Saí cedo, andei por aí, acabei me perdendo.





Um céu sem nuvens e o calor de fritar ovos no asfalto preenchiam o cenário.

O ponto de ônibus estava quase vazio, sentei ao lado de um idoso enquanto esperava o transporte. Pensava em qualquer coisa, acho que é comum pensar na vida em situações como engarrafamento, espera de ônibus, banho, dor de barriga, na verdade penso que a dor de barriga alimenta mais a fé porque é quando oramos bastante. Engraçado que lembro de ter analisado o tal idoso ao meu lado, seu aspecto, a sujeira, não acreditava encontrar aquilo que achei [...] .



Inesperadamente ele se virou para mim e disse “Qual a cor que Deus mais gosta?” na hora tive o impacto, ninguém normalmente pergunta essas coisas para nós, ainda mais quando se está fritando em um ponto de ônibus, tinha em mente a cor branca, mas quando ia responder olhei para o céu – um céu sem nuvens, azul, muito azul; eu estava sofrendo com o calor, mas tenho que admitir que fazia um dia bonito – respondi “azul”, meio óbvio isso, ele riu para mim, riu mesmo, de gargalhar e olhou para o céu também. Fiquei pensando se devia ter dito branco ou verde quem sabe, ele disse apenas “talvez seja azul, a gente sempre fala qualquer coisa pra começar uma conversa” e riu para o homem que estava ao seu lado.

Não demorou muito passou seu ônibus, depois da sua partida o homem falou “meio doido ele, né?!” ah, mas que raiva dele, eu tinha achado tão poético, tão belo aquele comentário simples e impactante para ele me dizer isso, balancei a cabeça pra qualquer lado.



Sempre me espanto com as coisas simples da vida...



Ele havia morrido e era seu aniversário. Ninguém achava que ela iria, enquanto oravam ela chegou, as crianças, seus colegas, gritaram freneticamente e cantaram um parabéns entre abraços e sorrisos. Um nó na minha garganta me fez cantar um parabéns abafado para não chorar.



A melhor alegria é a das crianças.




Quando me encontrei já era hora de voltar.