"Só
Somente só
Sozinho
Só ele
Solitário''
I
Sexta-feira pela manhã, logo na chegada, os empregados foram reunidos no pavilhão principal para uma conversa e provavelmente seria aplicado um teste de auto-avaliação de desempenho na empresa.
Todos sentados preencheram uma parte do andar, que mais parecia um galpão, sendo que algumas pessoas ficaram em pé apoiadas na escada.
O responsável por iniciar a reunião começou falando sobre as diferenças do comportamento em casa e no trabalho entre frases de auto-ajuda e de personalidades.
Como estava perto da porta, uma porta alta e larga de metal e que no momento estava totalmente aberta, uma mulher morena levantou e caminhou para fora do pavilhão. Após andar alguns metros e se aproximar da beirada do prédio um vento forte sacudiu os seus cabelos. Estava no último andar de um prédio gigantesco em meio a vários outros tão imponentes quanto. Caminhou próximo a beirada e ao chegar ao extremo do prédio viu uma ligação entre esse e o vizinho feito por uma coluna horizontal de concreto. Se aproximou, apalpou e se agachou, pé ante pé foi andando pela coluna até que em algum momento quando já estava perto do outro prédio viu se desmanchar aos poucos a coluna e vindo em sua direção uma pessoa.
Sentada entre os funcionários que assistiam à reunião eu respirava fundo após ter essa primeira visão. Por instantes ouvi o diretor geral anunciando alguns avisos quando a vi sair novamente.
Fez o mesmo trajeto, e aparentou ter o mesmo vento sacudindo seus cabelos, agora eu via a pessoa caminhando no outro prédio enquanto ela passava próximo à beirada, não saberia dizer se era um homem ou uma mulher, mas vinha em direção à ligação entre os dois prédios, passos decididos, contidos, mas apressados. Ela já ia além pela coluna, no meio o caminho se despedaçou e ela sacudia os braços para o alto tentando se agarrar nos ferros da construção. Os passos vinham apressados em sua direção, se debruçaram na beirada e os braços...
Sentada entre os funcionários que assistiam à reunião eu respirava fundo tentando manter a calma, olhei para a porta, mas não havia ninguém lá.
Foi como um desmaio. Um suor frio correu pelo meu corpo, senti uma necessidade enorme de deitar e tirar as roupas que passaram a me sufocar e aos poucos eu já não estava mais ali, um acontecimento de segundos, mas quando recobrei os sentidos estava escuro e eu estava sentada em um local cheio de lama e mato, onde no meio havia um barracão cheio de pessoas que andavam de lá para cá.
Reconheci duas ou três colegas de trabalho, perguntei como havíamos parado ali e para elas foi como se nunca estivéssemos fora daquele lugar. Não sabia o que fazer, mas naquela semi-escuridão o medo reinava.
Sinal vermelho.
Tem vezes que a visão fica turva e o que era feio torna-se belo, a ignorância vira sabedoria e então o que menos se espera acontecerá.
Há coisas em nosso jeito de ser, de andar ou olhar que não mais notamos; hábitos que parecem defeitos para alguns, mas que na verdade são as bases da nossa melhor qualidade.
Você olha no espelho, arruma o cabelo e ajeita o amassado da roupa, há sempre algo errado na roupa, não adianta nem falar do cabelo. Até aqui ninguém nota o sorriso...
Mas quando você encontra alguém e sorri, dá um abraço quente e sorri o seu melhor sorriso (acredite, não é uma redundância) ninguém mais repara no supérfluo e aí se enxerga dos olhos de um pros olhos do outro.
Nos acomodamos a querer coisas que não tem importância.
Não, não é acostumamos não, é acomodamos mesmo.
Nos acomodamos...
O ser humano não precisa necessariamente de mil objetos sem utilidades, o ser humano na sua condição de mortal e consciente disto só precisa de outro ser humano que lhe dê o seu melhor sorriso.
Enquanto eu andar distraído nada acontecerá.
O pior problema a se enfrentar é esse medo que alimentamos entre nós mesmos, essa ânsia que nos impele a fechar os vidros quando paramos na sinaleira.
Dentro do carro não há moedas, há somente doces e um sorriso no volante.
A reação que você demonstra por um milésimo de segundos agrava o sentimento que povoa no coração das pessoas...
Da minha janela ele levou um sorriso, algumas palavras e um bombom. Em troca recebi o vidro limpo e uma benção de proteção.
Mas antes do sinal abrir vi pelo retrovisor que da outra janela fechada às pressas ele levou um relógio e um olhar de rancor.
Não o culpo... Às vezes eu também tenho raiva das pessoas que o ignoram e sinto vontade de quebrar todos aqueles dentes, porque sorrir é de graça e em alguns dias o que ele só precisa é de algumas palavras e atenção.
Estava conversando com o espelho e me encarei, não reconheci os olhos muito menos a expressão... O meu reflexo não era totalmente meu, vi um pedaço de mim e outro de tudo que veio com o tempo.
Baixei as vistas, me deparei com os sinais descendo pelo pescoço e ombro - aparecem rápido e nunca mais vão embora.
Hoje a noite é nublada e não se vê o céu, mas achei algumas constelações em mim.
A pior sensação é saber que se olha um espelho e perguntar, Quem é você?.
O telefone tocou.
-Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa !
E eu gritei toda a minha loucura pra você.
-
Agora quem grita é meu espírito.
Grita em silêncio, porque na verdade meus gritos não sairam pela boca.