quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Ligação de Natal

 Alô, Maria, sou eu de novo. Te ligando pra dizer que hoje é Natal mais uma vez e por aqui o brilho ficou só no pisca pisca, que modéstia a parte esse ano eu fiz questão de ligar várias vezes. 

Maria, tá me ouvindo?

Meu corpo dolorido, minha cabeça ainda zonza, acho que peguei um resfriado. Não, não se preocupa, vou ficar bem. Sei fazer um chá e na dúvida eu durmo de novo até acordar boa. 

Preciso te dizer que quero chorar e não consigo. Então, não é que eu esteja triste, não sei explicar, só queria conseguir chorar e lavar a minha alma, esfregar com água e sal meu coração até ele ficar alvinho e leve novamente. Isso, como das outras vezes! Só que estou sem lágrimas. Quando aparecem só uma ou duas, só umidecem as pálpebras. 

Você ainda está aí? A ligação hoje tá falhando. Estou tão sozinha na multidão. As vozes sopradas nas minhas costas me agoniam e me fazem querer correr, mas é aquela loucura de Natal, todo mundo aglomerado tentando achar um presente, uma roupa, um enfeite novo. Eu vou como se faltando um pedaço, algo que esqueci por aí e não consigo repor. 

Sei, sim, sei que vim inteira pra essa vida. Entendo, mas ainda sinto falta. 

Maria, quando você vem me ver? Queria ir aí te ver, mas você sabe, o futuro é imprevisível e se eu for não sei bem o caminho pra voltar. Ano que vem? Tenho muitos planos, espero conseguir realizar alguns deles. O meu maior plano é não ter pressa e viver devagarzinho, sentindo os dias escorrendo pelas mãos. 

Quero pregar na parede da minha casa os quadros que vou pintar, e colocar as frutas da semana no cesto que vou fazer, deitar na rede e me estirar no meio da sala olhando o nada e as plantas penduradas ao acaso. Quando você for na cozinha vai ter ervas plantadas na janela, as panelas pelas paredes e meus vasos fermentando na estante. Tá rindo, Maria? Ah, parece casa de bruxa, mas eu bem que sou! Graças a Deus não queimam mais nas fogueiras. No quarto vai ter pouca coisa, mas não pode faltar o altar pro Bom Deus. Vai ser simples, você sabe como eu sou. Se eu der sorte Maria, até as canecas que você beber água sou eu quem vou fazer. 

Parece sonho, né? Ai Maria, você me conhece, vai dar certo eu só não sei quando. 

Maria, o que você faz quando te falta esperança? Isso, o que você faz quando acaba a animação?

Eu não sei, se eu soubesse não estaria perguntando. Rezar?

Talvez eu devesse fazer uma oração hoje então, aproveitar que é Natal, quem sabe o efeito é dobrado?

Você ri, né, mas vai que cola! Dizem que Natal é um dia diferente, as pessoas se esforçam pra ser melhores, eu só sinto melancolia, mas vai que pra Deus também é especial. 

Maria, obrigada por me ouvir. Vou desligar, tá ficando tarde. Quero rezar antes da meia noite que é pra ainda ter o efeito do dia de Natal. 

Se cuida, viu! Eu tô me cuidando. Também te amo. 



 







quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Vulnerável

Se eu deitar não sinto o apoio da cama, de pé não sinto o chão, ando como se em nuvens que se desfazem a cada passo. 

Vazio por dentro enquanto o coração bate acelerado. 

Na cabeça gira um só pensamento que tira a minha paz e presença.

O corpo todo sente a falta, como se em abstinência de uma droga potente ou adoecido na ausência de algo vital. 

Respiro fundo e sinto toda a minha vulnerabilidade, a vontade de chorar, mas nenhuma lágrima cai dos meus olhos secos.

O sorriso apagado pela saudade. 

A falta de sono de quem quer acordar desse sentir-se frágil e impotente. 

Vestida me sinto nua.

Nua me sinto sua. 

Vulnerável, meu espírito busca se encontrar mais uma vez.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Desapego

 Soltar as amarras, liberar a fivela, desatar os cadarços, abrir os botões 


Entre o nascer e pôr do sol tem o tempo de se iludir,

Entre o se pôr e o nascer há o tempo pra sonhar.

Em ambos a mente divaga perdida tentando se encontrar no presente. 

Buscando aquele instante único que acontece vez ou outra, quase raramente, 

em que estamos por completo no aqui e agora.

O momento em que desapegamos das ilusões, 

soltamos o passado e o futuro 

e nos vemos no aqui.

Aquele instante que mais se parece com o exato momento de alívio em soltar um botão apertado,

os três segundos que precedem e após esse instante, onde só sentimos a liberdade e nada mais.

Desapego do que foi vivido e do que virá, talvez seja esse o segredo que me custa aprender, porque quando solto o passado e libero o futuro, só me resta a mim mesma. Eu, pequena no universo e nada mais.







quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Quando o mel vira fel?

Várias vezes me pego pensando em você, em todos os momentos que tivemos juntas e fico triste em ver como tudo se desenrolou. Sem uma conversa apropriada, de forma distorcida e amarga. De um jeito que me assusta e entristece. 

Todas as memórias que tenho da gente são bonitas, então, quando foi que o amor se perdeu?

Nunca pensei que o que dizem sobre casar fosse assim tão difícil. O cansaço, o estresse do dia a dia, a rotina a curto prazo são como uma corrida com pesos nas mãos, no início a gente leva, mas a medida que o tempo passa vão deixando os braços cansados, e exaustos, estes não abraçam, só querem descanso.  

Pessoas exaustas não tem paciência, não namoram, conversam pouco, querem seu próprio tempo e espaço. E acho que cheguei nesse estágio de exaustão durante a nossa relação. Uma mistura de excesso de trabalho, cuidados invisíveis e racionamento de recursos financeiros faziam o contexto aumentar ainda mais a carga de estresse. Passamos tanta coisa juntas, dias de muitos sorrisos e também dias difíceis.

A pandemia nos uniu, mas ela também me quebrou em pedaços. Um contexto completamente atípico em que passamos a dividir a mesma casa. Ali foi um marco da nossa união física, mas também de quando o sentimento começou a se transformar. Somos tão parecidas e ao mesmo tempo completamente diferentes. Durante esse início tive os maiores picos de estresse que consigo me recordar na vida, foi quando em alguns momentos não me reconheci em mim, e quando os beijos se tornaram mornos, e isso ficou preso como um espinho no pé.    

Não vejo eu ou você como responsáveis ou culpadas por nada do que ocorreu e eu não soube lidar, era algo novo para as duas e os ajustes de rota aconteceram para ambas. Aquilo que se vive e faz pela primeira vez exige seu tempo de maturação e aprendizado. Não sabia como conversar algo que eu ainda não entendia o porque. Pra ser sincera até hoje ainda tento entender e achar a melhor forma de expressar. 

Por todo esse tempo sempre me recordava dos primeiros meses em que nos conhecemos, era a minha forma de renovar o sentimento e seguir em frente. Mas lá no fundo eu sabia que em algum momento esse espinho não iria me deixar continuar caminhando ao seu lado. Um misto entre querer continuar e insistir ao mesmo tempo que sentia um cansaço de tirar o fôlego. E por favor, não entenda isso ao avesso, o amor sempre existiu e foi isso que me manteve ao seu lado por todo esse tempo, mas a exaustão foi minando os dias bonitos.   

Esse ano diante de tudo o que aconteceu cheguei a conclusão de que tem horas que é melhor soltar ao invés de segurar, me machucar e machucar ainda mais você. Até porque chegamos num ponto que todo mel foi se revirando em fel, e tudo o que conversavamos se tornava amargo. 

Com certeza estou atrasada para te enviar essas palavras, atrasada em por isso a mesa, mas você foi e é uma das pessoas mais importantes na minha vida.   


terça-feira, 5 de novembro de 2024

Estou com sintomas de saudades

Depois de um intervalo enorme sem escrever no blog, voltei. Não sei se voltei pra ficar, mas com certeza aqui, aqui é o meu lugar.

Por um acaso do destino, daqueles que não são mera coincidência, me lembrei que eu gosto de escrever, mas que nos últimos anos tenho visitado cada vez menos meus momentos de escrita livre e desabafos. 2024 com todo seu charme me virou de cabeça para baixo e nesse sacolejar apareceram inúmeras coisas que eu gosto de fazer e que foram deixadas para trás. Ouvir música, dançar e cantar sem medo de fazer barulho, olhar para o céu sem compromisso, ler simplesmente por ler, e me encantar pela diversidade e caos do mundo são algumas delas.  


Mudamos ao longo do tempo e as vezes nem percebemos que aquilo que deixamos de lado era o motivo de sorrisos, o que nos mantinha seguindo com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Os dias vão passando e quando vemos o que antes fazia todo sentido para nós fica esquecido dentro da gaveta. A poeira do tempo vai tomando conta, e hábitos, rotinas, vão sendo esquecidos como que envoltos em neblina. 

Quanto tempo leva para lembrar o que nos faz bem e ficou para trás?

Um dia, como que por acaso tropeçamos em acontecimentos que nos lembram aquilo que faziamos com tanta disposição. Como se o universo desse em um empurrãozinho em nos recordar o que nos aproxima da nossa essência, o que nos faz perder a hora de dormir sem tomar café. Ele lembra o que te move com prazer, sem esforço, como que em um grande fluxo.

O que te move com prazer?


Respiro entre uma palavra e outra como quem volta a andar de bicicleta depois de aprender na infância. A delícia do vento passando pelo rosto e a sensação de que não se esquece aquilo que se ama. Da mesma forma, os dedos no teclado se deliciam em ver as palavras surgindo na folha em branco, como que saudosos abraçam até os tropeços de uma pessoa enferrujada.


Estou com sintomas de saudade

Saudades de mim. Saudades do que esqueci.



Obs.: Para o/a leitor/a de plantão, recomendo os textos com a memória fresca de músicas brasileiras. Algumas frases vão soar melhor assim.



É preciso saber viver

Na contracapa da vida, em letras miúdas e quase no rodapé está escrito,

"Enquanto respirar, lembre-se, é sobre-viver

sobre

viver"

Pensei então com meu botões, sobre viver, não é apenas sobreviver. É sobre estar no tempo imensurável e espaço in-finito incompreensível a mente humana de uma forma que vai além da sobrevivência, algo a mais do que a busca pela água, comida e abrigo. 

É sobre-a-vivência. 

Me arrisco a dizer que é mais o Como, do que o por que, quando e para quê.

Mas como viver onde exigem que só sobrevivemos?





quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Temos nosso próprio tempo

Se comparar com os outros não leva a lugar algum. Abaixa nossa auto estima, cria uma sensação de que estamos fazendo algo errado ou perdendo tempo ao descansar em momentos de lazer. Nessas horas nunca lembramos como o outro pode estar por trás das máscaras, o quanto paga em moedas de tempo de vida e falta de energia no fim de tudo. 

Temos nosso próprio tempo e nem sempre respeitamos isso. Nem sempre as demandas e prazos respeitam isso.

Temos nosso próprio tempo. Entender isso e seguir em frente é sobre-viver.

Tragédia cômica

 Carta para o meu bem.

 

Saber agradecer é um aprendizado.

Saber responder as responsabilidades e não sobrecarregar o outro também.

Errar e não culpar ou descarregar nos outros, mesmo que por brincadeira, é um passo desafiador, mas essencial.

Viver sozinho é fácil. A solitude é confortável no fim das contas. Acordar na paz de estar só. 

Viver a dois não é assim. É um trabalho diário, físico, psicológico, emocional. Viver a dois é estar de acordo a viver no desconforto, e se esforçar para colocar em prática o agradecer e o agir com responsabilidade.   

Viver a dois é uma escolha difícil de ser mantida, porque ela envolve o incomodo, o barulho, e a ingratidão. É uma tragédia cômica que escolhemos. Algo como partilhar os únicos bens que temos de valor, o tempo e energia de vida. Além disso, de alguma forma esperar reconhecimento. Reconhecimento de quê? Por lavar os pratos, fazer a cama, limpar o chão? Quem reconhece o trabalho invisível? Ninguém. Quem quer fazer o trabalho invisível? Ninguém.

Agradecer é a base de tudo. Agradecer torna o incomodo suportável. Agradecer faz a responsabilidade menos pior. Agradecer faz o errar ser só mais um acontecimento do dia, e não a tragédia da vida. 

Agradecer mais para viver melhor.


Texto de 18/12/2021.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Exaustão

 Entrego os pontos. 48h dormindo praticamente sem parar. 7 dias se arrastando a espera da energia que corre pelo corpo ser recarregada. 

Xeque-mate do sistema na minh'alma. 

Abro os janelas, espero o Sol tocar na pele. Quem sabe dá certo dessa vez.

Urgências regem o imediatismo. Tudo urge, tudo é para ontem, menos o sentir, dormir e o descansar. Cabe a nós saber a hora de parar, antes que o corpo pare por si só. 

Sozinha em casa transito entre cama e sofá. Refletindo como chegamos a esse ponto.

Tanta vida lá fora, e eu rezando pedindo paz. Impossível descansar pensando no que deve ser feito ou no atraso de prazos. 

Ânsia de voltar a sentir o pulsar sem dormir.

Ouço o meu corpo e tento honrar suas necessidades. A maior delas é dizer não e impor limites ao mundo das cobranças. Tudo tem um preço, mas nada vale o ânimo que move a vida.



quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Café com pão

 Sentada na sala com o computador no colo escuto os barulhos da noite. Água da fonte, avião passando e o bip da máquina avisando que o pão está pronto. 

Café com pão. Café com pão. 

O cheiro da massa fresca invade a casa, entra pelas narinas, percorre o corpo como incenso. 

Café com pão. Café com pão. 

Sentada eu espero o tempo do pão crescer, assar e dourar. 

Olhando para o vazio perdida no cheiro que brota da massa de farinha com água. 

"Café com pão. Café com pão. 

Se vem de fora ela devora, ela devora."




Anestesia

 Por alguns instantes, na mesa cirúrgica da vida, o efeito da anestesia acaba. 

Há então um surto de realidade por poucos segundos.

Lembro que há 1 ano e 7 meses e 4 dias nos despediamos de vocês. Por poucos segundos lembro que não nos veremos mais. 

Lembro que não prestei atenção suficiente nas histórias para gravar e poder contar depois. 

Lembro que eu dormia cansada de ouvir as mesmas coisas. 

A saudade bateu arrebatadora sem a anestesia. 

A anestesia passou, mas foram rápidos em aplicar uma nova dose. 

Uma boa dose de novos afazeres para o humano-máquina que não pode parar. 


Na mesa cirúrgica da vida eu levo minhas saudades para operar.  

sábado, 18 de setembro de 2021

Palavras na mesa

 Verto no papel um vaso cheio de palavras. 

Elas escorrem pela boca do vaso como líquido, e gotejam uma a uma no copo A4 vazio. 

Quanto mais o papel encharca, mais o vaso enche. 

De repente, vários copos estão cheios, coloco na bandeja e sirvo as visitas imaginárias - como uma brincadeira de criança.

Sirvo palavras no copo e nos pratinhos de post-it imprimo ideias, motivação e sonhos. 

Ninguém mais se serve, então eu mesma bebo e como no meu festim. Guardo o que sobra na parede e aos poucos, um por um, sirvo a mim mesma. 

O vaso transborda e Refrigera minha alma. 

O ano que não terminou

 Hoje eu descobri que em 2020 não postei no blog. 

Nenhum texto verteu o ano mais desorientado da minha vida. 

Nenhuma rima registrou as mudanças que passei.

Um ano como uma folha em branco, onde as palavras se acovardam a achar espaço. 

2020 não teve registros, mas ele separou, misturou, triturou, bagunçou e não arrumou tudo o que podia e não podia. 

Ele sambou, bebeu e vomitou atrás do carro. Caiu no chão e ficou lá largado esperando a tarde do dia seguinte chegar. 

2020 andou, mas também correu. Dias longos e semanas que passavam depressa. 

Lágrimas que ardiam o rosto, como pimenta de baiana. 

2020 bateu a porta com força e fez perder o sono. Deixou marcas, silêncios profundos no barulho do dia.

2020 quebrou os pratos, os copos e levou os talheres de prata. Depois foi embora, mas ameaçou voltar. 

Como um prato de sopa quente, queimou a língua de muita gente. 


Ô Deus, se acabar a dor também acaba a vida? 


Je suis ici

Ruídos

 A boca seca

Os lábios áridos 

O mar em ondas

O olhar vazio transbordando lágrimas

A garganta queimando 

A cabeça zonza

O rosto molhado

A maré cheia 

A língua morna repousa no silêncio 

Os pensamentos vêm e vão 

A escassez do mundo mesclada com a abundância da vida

E o vazio - o vazio que só o ser humano conhece - na imensidão do mar. 


Deixe-me tocar o meu tambor pra você

Não tenho nada a sua altura para te oferecer

Apenas o tambor tocado no meu coração 


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ô de casa!

"O bom filho a sua casa retorna."

Faz muito tempo que não escrevo por aqui e desde lá tanta coisa mudou! Vivi experiências únicas que dentre angústias de andar por novos mundos e alegrias ao encontrar um caminho me fizeram aprender lições especiais.

1. Acreditar na força cósmica do universo até o fim, sem duvidar. A força cósmica a gente pode chamar de Deus, energia universal, força do amor... mil nomes para aquele que possui todas as faces.

2. Perseverar. Só isso. Tudo isso. Insistir nos meus sonhos e loucuras me exige a todo momento lembrar de dar um passo de cada vez, perseverando no caminho.

3. Ser eu mesma. Nada é melhor do que ter a coragem de ser quem si é.

4. Cuidar de mim com carinho e aceitar minhas imperfeições, ou aquilo que considero imperfeições, ser verdadeira com meus sentimentos e acolher a mim mesma. Festejar aquilo que considero como meus sucessos e me embalar nos dias em que tudo parece sair dos planos.

5. Ser flexível comigo e com os que me rodeiam.

6. Amar. Amar as coisas que faço, as pessoas do meu convívio, amar sem medo. Tarefa difícil, mas que me esforço para colocar em prática.

7. Meditar. Outra tarefa nada fácil, mas que me ajuda a ter eixo e manter os pés no chão mesmo com a cabeça em outra dimensão. 



"PERHAPS THIS VERY INSTANT IS YOUR TIME."

8. Rever as coisas que gosto. Percebi que não adianta fazer algo fora do propósito, desbravar o meu caminho, apesar de ser árduo, recompensa. 

9. Descobri que um dos meus sonhos é ter um roçado, com horta e árvores com frutos para consumo familiar. 

10. Mãos e pés na terra. Plantar e cuidar de hortas se tornou um hábito, me trazem a tranquilidade e certeza de que tudo têm seu tempo.



Tudo têm seu tempo.
Tempo de começar e de terminar.
Tempo de ir e de voltar. 
Para o tempo não há tempo. Mas para nós todo tempo é apenas um segundo. 

sábado, 13 de outubro de 2018

Como uma onda no mar...

Da minha janela é possível ver diversas faces de Salvador, mas atualmente tenho tido medo de olhar para fora. Medo de que pela janela possam ver meus pensamentos e posicionamentos. Medo de mostrar no que acredito e voltar violentada, agredida verbalmente ou fisicamente.
O medo paralisa. Tenho pensado sobre isso.

Tenho tido medo por que é estampado na minha cara aquilo em que acredito, corre pelo meu corpo como o sangue corre pelas veias. Exalo o cheiro. Até de costas dá pra ver. O caminhar denuncia.
Mesmo aqueles a quem chamo de meus, os mais próximos ao meu redor, também me imprimem o temor. 

Quanto mais acredito nos ideais, mais eles tomam forma em meu ser. Hoje, relembro pelo quê eu tenho tido medo e dou risada. 10 minutos sem parar de riso. 

Acredito na igualdade. No sonho dos direitos iguais. Na força e competência da mulher.
Acredito no respeito, na tolerância, no poder da diversidade.
Acredito na educação e seus efeitos na sociedade. Educação crítica, que filosofa, cria e transforma.
Acredito na defesa do meio ambiente. Na cura pela alimentação e contato com a natureza.
Acredito na ética. Nos direitos humanos.
Acredito no SUS.
Acredito nas políticas públicas.
Acredito na humanidade. 
Acredito no neo-humanismo.
Acredito no vegetarianismo. No sentimento de amor e sensibilidade dos animais.
Acredito no poder da auto-observação.
Acredito no Brasil.

Esse ano as eleições mostraram não só candidatos, mas um ideal que inspira medo e violência.
Como uma doença que espalha e tira os sentidos. 
O ser humano em si é uma arma, mas eu sigo acreditando... 

Acredito na capacidade do ser humano de amar e ser amado.
Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. 


Acima do medo a coragem. 


#EleNão



Apaguem a luz, por favor!

Há algumas semanas que tento escrever, mas o tempo urge e o corpo nem sempre acompanha, o cansaço é um grande inimigo afinal de contas. 

O cansaço é em diferentes níveis destruidor de esperanças. 

Não vai dar agora, estou cansada.
Deixa pra depois, quando o cansaço passar.

O cansaço é perigoso, como uma toxina que se alastra. 

  Desisto das pessoas, cansei. 
Cansei de lutar por meus sonhos.

Não quero escolher mais nada, cansei de ser iludida.

Cansei de acreditar. 

O cansaço acumulado é como um vírus, uma doença, amolece o corpo, entorpece a mente, a criatividade aos poucos se esvai. 

Só queria dormir, qual o problema?
Estou cansada de persistir.
Mata logo todo mundo, não vê que educação não resolve nada?
Estou cansada.

O cansaço é destruidor. Semeador da discórdia. 

Cansei de esperar. 
Cansei de ser roubado.
Cansei de corrupção. 
Mas também cansei de ser ético.
Estou tão cansada disso tudo, nada serve, qualquer coisa serve.

Apaguem a luz, por favor! Um dia ou dois talvez seja o suficiente. Portas e janelas fechadas, luzes apagadas, quarto vazio, um copo de água para matar a sede do cansaço. Silêncio. 
Reflita até onde podemos chegar por causa do cansaço. 


Descanço. 
Acordo.
Talvez haja esperança depois do cansaço.

03:47am. Há luz na escuridão.



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Eu nem sonhava te amar desse jeito...

7 meses de 60h semanais. 
7 meses desde que entrei nesse casulo de transformações chamado residência. 
7 meses. E já não sou a mesma desde o primeiro dia. 



Se houvesse tempo para pensar saberíamos que estamos andando na contramão e que a vida não é pra ser feita apenas de tensão e dívidas. Se sobrasse disposição para inovar e criar... as páginas deixariam de estar em branco. Se houvesse mais tempo para dormir talvez brotassem mais sonhos nos nossos dias. Mas vamos seguindo, vivendo como nossos pais, tentando lembrar que um dia prometemos não repetir os mesmos erros, esquecendo dos problemas sociais e vivendo na famosa bola de vidro.

Vamos andando que "mais um dia menos um dia", mas o de hoje já acabou. Tempo ocioso também é vida e é por isso que as crianças são tão hábeis em aprender, pequenos gênios que surgem nas areias do ócio. Mas não há tempo para pensar outra vez, se o fim do mês chegar... não haverá hora se não for a extra.

Na beira do leito, à noite, o vento sussurra no ouvido do outro que a solidão arrebata o coração, que os dias passaram rápido e que o abraço poderia ter sido mais demorado. A comida de casa de repente parece a melhor comida do mundo. E o vizinho chato? Continua chato, mas talvez não fosse tão ruim assim. O vento fofoca horrores nos ouvidos alheios fazendo o coração apertar. A porta bate incansável e anuncia que a noite ainda será longa.

E no fim só queremos ser amados. Amados por qualquer um, a qualquer hora.
Ser normal para ser aceito.
Seguir as regras para ser incluído.
Ter sucesso para ser "alguém".
Estética para ser admirado.
Nesse mundo alimentamos mentiras para sermos amados.
Estimulamos o ego para sobreviver se não formos capazes de amar e ser amados.


É só o amor que conhece o que é verdade. 



 Abracadabra!, eu disse, mas as vendas não caíram.
E meus sentidos ainda permanecem na hipnose que um dia entrei.
Mundo de ilusões, me deixe em paz.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Últimos dias

Nó na garganta e no coração. Um nó  que expande e sobe pela cabeça, desce pelo pescoço, paralisa braços e pernas. Silencia a voz. Esse é o nó dos últimos acontecimentos.
O grito silenciado da revolta fica travado e as lágrimas de decepção não descem mais. Eles conseguiram e agora sou um robô, um boneco de carne e sangue, uma máquina de comer, trabalhar e dormir, um animal irracional que opera máquinas. Criança domada em rédeas e gibão que deixou de ser gente e não se percebe mais como comunidade, natureza, ser. Vê as atrocidades e recolhe para si suas reflexões em um misto de inferno e realidade.

Acorda o seu eu verdadeiro. Acorda. Acorda. Tira as vendas que o mundo anda sofrido e não adianta fechar os olhos ou tampar os ouvidos, os gritos do inferno já vêm acompanhados de lucros.

Quantos sofrem sem saber a razão?

Quantos esquecem para quê vivem?

Quantos rejeitam sonhos e vendem seus dias para ganhar o pão?

Quantos se perdem em preces para aguentar os dias? Vivem em prisões sem saber. Morrem sem saber.

Quantos acham que educação e saúde são um mero favor?

Quantos se sujeitam ao mercado espiritual para alcançar um futuro melhor já que o hoje é de misérias?

E entre tantos, quantos deles sou eu e você?


No limiar da normalidade e loucura eu vivo, equilíbrio, caio. Que a loucura seja contagiosa e retire a senda que nos torna impotentes. Sou um monstro preso em uma gaiola feita com palitos.

Que a loucura de ser consciente me retire dessa impotência sem fundamentos.