quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Temos nosso próprio tempo

Se comparar com os outros não leva a lugar algum. Abaixa nossa auto estima, cria uma sensação de que estamos fazendo algo errado ou perdendo tempo ao descansar em momentos de lazer. Nessas horas nunca lembramos como o outro pode estar por trás das máscaras, o quanto paga em moedas de tempo de vida e falta de energia no fim de tudo. 

Temos nosso próprio tempo e nem sempre respeitamos isso. Nem sempre as demandas e prazos respeitam isso.

Temos nosso próprio tempo. Entender isso e seguir em frente é sobre-viver.

Tragédia cômica

 Carta para o meu bem.

 

Saber agradecer é um aprendizado.

Saber responder as responsabilidades e não sobrecarregar o outro também.

Errar e não culpar ou descarregar nos outros, mesmo que por brincadeira, é um passo desafiador, mas essencial.

Viver sozinho é fácil. A solitude é confortável no fim das contas. Acordar na paz de estar só. 

Viver a dois não é assim. É um trabalho diário, físico, psicológico, emocional. Viver a dois é estar de acordo a viver no desconforto, e se esforçar para colocar em prática o agradecer e o agir com responsabilidade.   

Viver a dois é uma escolha difícil de ser mantida, porque ela envolve o incomodo, o barulho, e a ingratidão. É uma tragédia cômica que escolhemos. Algo como partilhar os únicos bens que temos de valor, o tempo e energia de vida. Além disso, de alguma forma esperar reconhecimento. Reconhecimento de quê? Por lavar os pratos, fazer a cama, limpar o chão? Quem reconhece o trabalho invisível? Ninguém. Quem quer fazer o trabalho invisível? Ninguém.

Agradecer é a base de tudo. Agradecer torna o incomodo suportável. Agradecer faz a responsabilidade menos pior. Agradecer faz o errar ser só mais um acontecimento do dia, e não a tragédia da vida. 

Agradecer mais para viver melhor.


Texto de 18/12/2021.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Exaustão

 Entrego os pontos. 48h dormindo praticamente sem parar. 7 dias se arrastando a espera da energia que corre pelo corpo ser recarregada. 

Xeque-mate do sistema na minh'alma. 

Abro os janelas, espero o Sol tocar na pele. Quem sabe dá certo dessa vez.

Urgências regem o imediatismo. Tudo urge, tudo é para ontem, menos o sentir, dormir e o descansar. Cabe a nós saber a hora de parar, antes que o corpo pare por si só. 

Sozinha em casa transito entre cama e sofá. Refletindo como chegamos a esse ponto.

Tanta vida lá fora, e eu rezando pedindo paz. Impossível descansar pensando no que deve ser feito ou no atraso de prazos. 

Ânsia de voltar a sentir o pulsar sem dormir.

Ouço o meu corpo e tento honrar suas necessidades. A maior delas é dizer não e impor limites ao mundo das cobranças. Tudo tem um preço, mas nada vale o ânimo que move a vida.



quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Café com pão

 Sentada na sala com o computador no colo escuto os barulhos da noite. Água da fonte, avião passando e o bip da máquina avisando que o pão está pronto. 

Café com pão. Café com pão. 

O cheiro da massa fresca invade a casa, entra pelas narinas, percorre o corpo como incenso. 

Café com pão. Café com pão. 

Sentada eu espero o tempo do pão crescer, assar e dourar. 

Olhando para o vazio perdida no cheiro que brota da massa de farinha com água. 

"Café com pão. Café com pão. 

Se vem de fora ela devora, ela devora."




Anestesia

 Por alguns instantes, na mesa cirúrgica da vida, o efeito da anestesia acaba. 

Há então um surto de realidade por poucos segundos.

Lembro que há 1 ano e 7 meses e 4 dias nos despediamos de vocês. Por poucos segundos lembro que não nos veremos mais. 

Lembro que não prestei atenção suficiente nas histórias para gravar e poder contar depois. 

Lembro que eu dormia cansada de ouvir as mesmas coisas. 

A saudade bateu arrebatadora sem a anestesia. 

A anestesia passou, mas foram rápidos em aplicar uma nova dose. 

Uma boa dose de novos afazeres para o humano-máquina que não pode parar. 


Na mesa cirúrgica da vida eu levo minhas saudades para operar.  

sábado, 18 de setembro de 2021

Palavras na mesa

 Verto no papel um vaso cheio de palavras. 

Elas escorrem pela boca do vaso como líquido, e gotejam uma a uma no copo A4 vazio. 

Quanto mais o papel encharca, mais o vaso enche. 

De repente, vários copos estão cheios, coloco na bandeja e sirvo as visitas imaginárias - como uma brincadeira de criança.

Sirvo palavras no copo e nos pratinhos de post-it imprimo ideias, motivação e sonhos. 

Ninguém mais se serve, então eu mesma bebo e como no meu festim. Guardo o que sobra na parede e aos poucos, um por um, sirvo a mim mesma. 

O vaso transborda e Refrigera minha alma. 

O ano que não terminou

 Hoje eu descobri que em 2020 não postei no blog. 

Nenhum texto verteu o ano mais desorientado da minha vida. 

Nenhuma rima registrou as mudanças que passei.

Um ano como uma folha em branco, onde as palavras se acovardam a achar espaço. 

2020 não teve registros, mas ele separou, misturou, triturou, bagunçou e não arrumou tudo o que podia e não podia. 

Ele sambou, bebeu e vomitou atrás do carro. Caiu no chão e ficou lá largado esperando a tarde do dia seguinte chegar. 

2020 andou, mas também correu. Dias longos e semanas que passavam depressa. 

Lágrimas que ardiam o rosto, como pimenta de baiana. 

2020 bateu a porta com força e fez perder o sono. Deixou marcas, silêncios profundos no barulho do dia.

2020 quebrou os pratos, os copos e levou os talheres de prata. Depois foi embora, mas ameaçou voltar. 

Como um prato de sopa quente, queimou a língua de muita gente. 


Ô Deus, se acabar a dor também acaba a vida? 


Je suis ici

Ruídos

 A boca seca

Os lábios áridos 

O mar em ondas

O olhar vazio transbordando lágrimas

A garganta queimando 

A cabeça zonza

O rosto molhado

A maré cheia 

A língua morna repousa no silêncio 

Os pensamentos vêm e vão 

A escassez do mundo mesclada com a abundância da vida

E o vazio - o vazio que só o ser humano conhece - na imensidão do mar. 


Deixe-me tocar o meu tambor pra você

Não tenho nada a sua altura para te oferecer

Apenas o tambor tocado no meu coração 


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ô de casa!

"O bom filho a sua casa retorna."

Faz muito tempo que não escrevo por aqui e desde lá tanta coisa mudou! Vivi experiências únicas que dentre angústias de andar por novos mundos e alegrias ao encontrar um caminho me fizeram aprender lições especiais.

1. Acreditar na força cósmica do universo até o fim, sem duvidar. A força cósmica a gente pode chamar de Deus, energia universal, força do amor... mil nomes para aquele que possui todas as faces.

2. Perseverar. Só isso. Tudo isso. Insistir nos meus sonhos e loucuras me exige a todo momento lembrar de dar um passo de cada vez, perseverando no caminho.

3. Ser eu mesma. Nada é melhor do que ter a coragem de ser quem si é.

4. Cuidar de mim com carinho e aceitar minhas imperfeições, ou aquilo que considero imperfeições, ser verdadeira com meus sentimentos e acolher a mim mesma. Festejar aquilo que considero como meus sucessos e me embalar nos dias em que tudo parece sair dos planos.

5. Ser flexível comigo e com os que me rodeiam.

6. Amar. Amar as coisas que faço, as pessoas do meu convívio, amar sem medo. Tarefa difícil, mas que me esforço para colocar em prática.

7. Meditar. Outra tarefa nada fácil, mas que me ajuda a ter eixo e manter os pés no chão mesmo com a cabeça em outra dimensão. 



"PERHAPS THIS VERY INSTANT IS YOUR TIME."

8. Rever as coisas que gosto. Percebi que não adianta fazer algo fora do propósito, desbravar o meu caminho, apesar de ser árduo, recompensa. 

9. Descobri que um dos meus sonhos é ter um roçado, com horta e árvores com frutos para consumo familiar. 

10. Mãos e pés na terra. Plantar e cuidar de hortas se tornou um hábito, me trazem a tranquilidade e certeza de que tudo têm seu tempo.



Tudo têm seu tempo.
Tempo de começar e de terminar.
Tempo de ir e de voltar. 
Para o tempo não há tempo. Mas para nós todo tempo é apenas um segundo. 

sábado, 13 de outubro de 2018

Como uma onda no mar...

Da minha janela é possível ver diversas faces de Salvador, mas atualmente tenho tido medo de olhar para fora. Medo de que pela janela possam ver meus pensamentos e posicionamentos. Medo de mostrar no que acredito e voltar violentada, agredida verbalmente ou fisicamente.
O medo paralisa. Tenho pensado sobre isso.

Tenho tido medo por que é estampado na minha cara aquilo em que acredito, corre pelo meu corpo como o sangue corre pelas veias. Exalo o cheiro. Até de costas dá pra ver. O caminhar denuncia.
Mesmo aqueles a quem chamo de meus, os mais próximos ao meu redor, também me imprimem o temor. 

Quanto mais acredito nos ideais, mais eles tomam forma em meu ser. Hoje, relembro pelo quê eu tenho tido medo e dou risada. 10 minutos sem parar de riso. 

Acredito na igualdade. No sonho dos direitos iguais. Na força e competência da mulher.
Acredito no respeito, na tolerância, no poder da diversidade.
Acredito na educação e seus efeitos na sociedade. Educação crítica, que filosofa, cria e transforma.
Acredito na defesa do meio ambiente. Na cura pela alimentação e contato com a natureza.
Acredito na ética. Nos direitos humanos.
Acredito no SUS.
Acredito nas políticas públicas.
Acredito na humanidade. 
Acredito no neo-humanismo.
Acredito no vegetarianismo. No sentimento de amor e sensibilidade dos animais.
Acredito no poder da auto-observação.
Acredito no Brasil.

Esse ano as eleições mostraram não só candidatos, mas um ideal que inspira medo e violência.
Como uma doença que espalha e tira os sentidos. 
O ser humano em si é uma arma, mas eu sigo acreditando... 

Acredito na capacidade do ser humano de amar e ser amado.
Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. 


Acima do medo a coragem. 


#EleNão



Apaguem a luz, por favor!

Há algumas semanas que tento escrever, mas o tempo urge e o corpo nem sempre acompanha, o cansaço é um grande inimigo afinal de contas. 

O cansaço é em diferentes níveis destruidor de esperanças. 

Não vai dar agora, estou cansada.
Deixa pra depois, quando o cansaço passar.

O cansaço é perigoso, como uma toxina que se alastra. 

  Desisto das pessoas, cansei. 
Cansei de lutar por meus sonhos.

Não quero escolher mais nada, cansei de ser iludida.

Cansei de acreditar. 

O cansaço acumulado é como um vírus, uma doença, amolece o corpo, entorpece a mente, a criatividade aos poucos se esvai. 

Só queria dormir, qual o problema?
Estou cansada de persistir.
Mata logo todo mundo, não vê que educação não resolve nada?
Estou cansada.

O cansaço é destruidor. Semeador da discórdia. 

Cansei de esperar. 
Cansei de ser roubado.
Cansei de corrupção. 
Mas também cansei de ser ético.
Estou tão cansada disso tudo, nada serve, qualquer coisa serve.

Apaguem a luz, por favor! Um dia ou dois talvez seja o suficiente. Portas e janelas fechadas, luzes apagadas, quarto vazio, um copo de água para matar a sede do cansaço. Silêncio. 
Reflita até onde podemos chegar por causa do cansaço. 


Descanço. 
Acordo.
Talvez haja esperança depois do cansaço.

03:47am. Há luz na escuridão.



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Eu nem sonhava te amar desse jeito...

7 meses de 60h semanais. 
7 meses desde que entrei nesse casulo de transformações chamado residência. 
7 meses. E já não sou a mesma desde o primeiro dia. 



Se houvesse tempo para pensar saberíamos que estamos andando na contramão e que a vida não é pra ser feita apenas de tensão e dívidas. Se sobrasse disposição para inovar e criar... as páginas deixariam de estar em branco. Se houvesse mais tempo para dormir talvez brotassem mais sonhos nos nossos dias. Mas vamos seguindo, vivendo como nossos pais, tentando lembrar que um dia prometemos não repetir os mesmos erros, esquecendo dos problemas sociais e vivendo na famosa bola de vidro.

Vamos andando que "mais um dia menos um dia", mas o de hoje já acabou. Tempo ocioso também é vida e é por isso que as crianças são tão hábeis em aprender, pequenos gênios que surgem nas areias do ócio. Mas não há tempo para pensar outra vez, se o fim do mês chegar... não haverá hora se não for a extra.

Na beira do leito, à noite, o vento sussurra no ouvido do outro que a solidão arrebata o coração, que os dias passaram rápido e que o abraço poderia ter sido mais demorado. A comida de casa de repente parece a melhor comida do mundo. E o vizinho chato? Continua chato, mas talvez não fosse tão ruim assim. O vento fofoca horrores nos ouvidos alheios fazendo o coração apertar. A porta bate incansável e anuncia que a noite ainda será longa.

E no fim só queremos ser amados. Amados por qualquer um, a qualquer hora.
Ser normal para ser aceito.
Seguir as regras para ser incluído.
Ter sucesso para ser "alguém".
Estética para ser admirado.
Nesse mundo alimentamos mentiras para sermos amados.
Estimulamos o ego para sobreviver se não formos capazes de amar e ser amados.


É só o amor que conhece o que é verdade. 



 Abracadabra!, eu disse, mas as vendas não caíram.
E meus sentidos ainda permanecem na hipnose que um dia entrei.
Mundo de ilusões, me deixe em paz.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Últimos dias

Nó na garganta e no coração. Um nó  que expande e sobe pela cabeça, desce pelo pescoço, paralisa braços e pernas. Silencia a voz. Esse é o nó dos últimos acontecimentos.
O grito silenciado da revolta fica travado e as lágrimas de decepção não descem mais. Eles conseguiram e agora sou um robô, um boneco de carne e sangue, uma máquina de comer, trabalhar e dormir, um animal irracional que opera máquinas. Criança domada em rédeas e gibão que deixou de ser gente e não se percebe mais como comunidade, natureza, ser. Vê as atrocidades e recolhe para si suas reflexões em um misto de inferno e realidade.

Acorda o seu eu verdadeiro. Acorda. Acorda. Tira as vendas que o mundo anda sofrido e não adianta fechar os olhos ou tampar os ouvidos, os gritos do inferno já vêm acompanhados de lucros.

Quantos sofrem sem saber a razão?

Quantos esquecem para quê vivem?

Quantos rejeitam sonhos e vendem seus dias para ganhar o pão?

Quantos se perdem em preces para aguentar os dias? Vivem em prisões sem saber. Morrem sem saber.

Quantos acham que educação e saúde são um mero favor?

Quantos se sujeitam ao mercado espiritual para alcançar um futuro melhor já que o hoje é de misérias?

E entre tantos, quantos deles sou eu e você?


No limiar da normalidade e loucura eu vivo, equilíbrio, caio. Que a loucura seja contagiosa e retire a senda que nos torna impotentes. Sou um monstro preso em uma gaiola feita com palitos.

Que a loucura de ser consciente me retire dessa impotência sem fundamentos. 

 

terça-feira, 2 de maio de 2017

E se fez luz!





Do que somos feitos

Já ouvi dizer que somos feitos de barro,
material genético,
proteínas, carboidratos e lipídios,
poeira cósmica do espaço,
água e comida,
onda vibracional condensada,
crenças, amor e luz.
Já ouvi dizer tanto! Palavras são muitas.
Muitas palavras, pouco é o sentido.


Sou dicotomia. Sei. Não sei.
Bom mesmo seria a gente aceitar que da vida não sabe de nada. 

Me entrego e fui. 





Rascunhos do alter ego

Através da porta entre aberta vejo seu corpo molhado do banho, uma mecha de cabelo caindo pelo rosto e por alguns instantes seus olhos cintilantes param nos meus. Aquele sorriso misto de vergonha e ousadia brota e aí já é certo que vou me apaixonar de novo, novamente, mais uma vez.
Fecho meus olhos e sinto o pulsar dos seus lábios nos meus. Sua perna entre as minhas. Apertando. Pressionando. De olhos fechados sinto o seu gosto em minha boca me fazendo esquecer da hora, da fome, do mundo.

Sinto o toque dos seus lábios e todo o corpo se contorce em dança e grita. 
Esqueço do mundo para estar no presente. 
1...2...3... Se abro os olhos você já não está mais lá. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O corretivo

Diariamente lido com pessoas que me relatam obstipação, passam dias e mais dias sem ir ao banheiro, mas do meu problema ainda não ouvi nenhum caso e até duvido que haja um medicamento para isso. Há alguns dias estou sofrendo da falta de lágrimas, a garganta travada, as linhas de expressão alteradas, faço até um esforço, mas sem êxito. Olhos secos, sem nem lacrimejar.

No trabalho a lista diária sofre mudanças constantes, troca de quarto, troca de andar e principalmente devido ao falecimento das pessoas. Morte. Morte. Morte. Morte. Falamos várias vezes para que morrer se torne tão natural quanto viver. Para que a finitude do corpo físico se torne nossa amiga.
Mas o corretivo é cruel e verdadeiro. Ele apaga o nome da pessoa, seus gostos, rejeições, problemas, tudo. Apaga tudo da lista e abre espaço para que outros cheguem. O corretivo mostra como a vida funciona. Ele faz parte do cotidiano, arma secreta de todos os funcionários. E toda vez que aquele líquido branco forma uma crosta na lista me faz pensar na momentaneidade da vida, como tudo continua, pois já pude constatar que o mundo não para de girar apesar do corretivo.

Por amor, com amor. A morte muitas vezes chega com amor. Delicadamente se instala ao lado da pessoa, aguarda pacientemente que ela segure nas mãos do outro e receba um carinho talvez. As vezes a morte chega por amor e leva todo sofrimento embora, leva a angustia que não cabe mais em si, leva a solidão, lava a alma. Amo-te. A morte. Duas coisas diferentes, mas que no fundo dizem a mesma coisa.

Sentada com o computador no colo respiro fundo e escuto o barulho dos carros lá fora, asfalto ligeiramente molhado da chuva, barulho de grilos ao longe e uma brisa bem de longe entra pela janela. Cansada e não consigo dormir, olhos secos, noite nublada. Na janela ficavam duas folhas secas presas com um pregador de roupas no beiral. Ficavam ali para me lembrar de que a vida é passageira e que a folha da árvore um dia cai. Hoje eu olhei pra janela e percebi que elas não estão mais ali, na melhor das hipóteses o vento levou. E então vejo que até as folhas secas que eu mantinha para me lembrar da transitoriedade da vida passaram.

Eu, passarinho. 




Por amor, com amor. 





domingo, 22 de janeiro de 2017

Entre braços

O coração fala nos momentos de silêncio.


Abraço

Entrelaço um braço pelo seu ombro e outro pela cintura
Apoio as mãos em suas costas
Os braços pressionam como que para garantir a posição perfeita
Então encosto rosto, corpo, cheiro, alma
E ali, naquele breve instante, meu coração bate junto ao seu
Só eles dois falam durante o silêncio da voz
E dizem um para o outro tudo aquilo que não havia sido dito
Selam entre eles o amor e carinho até então negado  
Conversam tão alto que tenho medo das pessoas ouvirem ao longe
Tudo em um abraço

Em um momento de silêncio que durou a eternidade de apenas um instante.



"A felicidade vai desabar sobre os homens."

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Incompreensível

 Entre tantos mundos particulares, seria muito pedir por compreensão.

A mesma frase lida por duas pessoas não tem o mesmo significado. Lida em dois dias diferentes também não. Lidas pela mesma pessoa, no mesmo dia, em locais diferentes, muda mais ainda. Cada instante é um mundo de singularidades.


Aquele cartão era para você, para aliviar a angústia de não ser compreendido. Era para fazer da ilusão uma realidade.

Sem palavras ou gestos explícitos eu entendi que você estava lá por mim, para quebrar o laço que nem havia se formado. Por instantes percebi a voracidade e amorosidade do seu coração. No tempo de um abraço de quem diz foi bom te conhecer. Que pena que a vida é breve e os momentos bons mais breves ainda.  

Queria te contar o quão nu seu espírito é. O quão fácil é para olhos treinados como os meus perceber no sorriso silencioso, entre uma gota de chuva e de lágrima, seu desejo contido.


Todo o amor do mundo é incompreensível.



Mas Fica bem. Se cuida. E vai com Deus.  
Um dia, quem sabe, nos veremos mais uma vez.



sexta-feira, 9 de setembro de 2016

E agora?

Olha moço, só posso te dizer que as certezas de ontem já não cabem mais no dia de hoje. E os sonhos de outrora perderam o brilho. Perdi as rédeas moço, agora sou só eu e esse cavalo selvagem. 

Quem me viu há um mês atrás poderia descrever em poucas palavras os meus sonhos e ambições para o futuro. Venho trilhando um caminho incerto e árduo por pelo menos oito meses, quase um parto, e dentre respostas positivas e dificuldades tenho tentado me equilibrar nessa tênue linha que liga minhas ambições à realidade.
Acontece que na última semana algo mudou. As rédeas que me prendiam ao cavalo partiram e eu caí. E agora moço, lá estava eu, frente a frente com aquele cavalo que nunca me obedeceu, que sempre correu na hora do trote, que dava pinotes quando eu precisava passar em silêncio. Lá estávamos nós, tete a tete e sem amarras.
Pois bem, decidi que aceitaria o que viesse. Moça, ninguém dá tiro no escuro. Que escuro, moço? Que tiro? Eu nem falei de violência e você já me vêm com essa conversa. Deixa pra depois, moça. Não é hora. Já não dá pra você. Olha moça, é difícil. Isso aí que você conseguiu foi a parte fácil. E essa idade, sei não, você já tá ficando velha pra isso.
E lá estávamos nós moço, eu e o cavalo, e eu olhava dentro dos olhos dele sem medo de nada. Mas moço, veja bem, o cavalo é selvagem e ele também não tinha medo de mim.
Foi quando os sonhos perderam o brilho moço. Foi alí naquela horinha mesma, quando eu descobri que independente do que escolhesse o resultado ia levar a uma coisa só. Que não adiantava eu laçar o cavalo ou agarrar ele pelo pêlo. Tudo leva a um final, que é o trabalho, moço. No final só nos resta trabalhar, independente do meio o final é um só. Talvez esse trabalho seja em locais diferentes, com coisas diferentes, com pessoas diferentes, mas só Deus sabe moço a satisfação que você vai sentir quando esse dia chegar. É que a gente não sabe de nada, viu.
Eu tava lá parada e ele olhando pra mim. Deu duas passadas pra trás. Olhei de lado como quem diz, tá indo pra onde? Mas nada aconteceu. Ficamos naquela posição como que duas estátuas. Eu guerreira sem as botas, de pé, braços jogados ao lado do corpo, entre as mãos as rédeas partidas. Do outro lado o cavalo de pêlo escuro, olhos úmidos e vivos, grande, bicho de porte, dava para ver que era forte o animal pelas ancas massudas.
Nesse momento eu reparei moço, que o bicho era tão danado de grande que podia me destruir em dois tapas. Mas não tive medo, só que também não quis brigar. Veja só moço, eu tenho medo só de uma coisa, que é de perder minhas convicções, meus sonhos, a vontade de viver sabe. Enquanto eu olhava pro cavalo eu percebi que meus sonhos não eram colocar as rédeas ou adestrar aquele bicho bravo, meus sonhos eram me tornar um ser humano, humano mesmo, daqueles que sentem e vivem, do tipo que ama e sente compaixão, sabe moço? O sonho era servir ao próximo e ajudar as pessoas a se sentirem bem e felizes. Moço, pois veja só! Não é que eu havia mesmo perdido as rédeas? Foi aí que eu descobri que todo o resto era o ego, era a vontade de ser mais. Ora, que hipocrisia a minha vestir o lobo de cordeiro.
Quando eu entendi tudo isso resolvi largar as rédeas. Que o cavalo seja livre. E os meus olhos secos se tornaram úmidos. E lá fomos nós, eu e o cavalo, como que dois amigos que depois de muito tempo distantes e brigados se encontram e se entendem. Veja só moço, sem rédeas, só eu e o cavalo selvagem.


O amor Deus proverá.