Umas boas para escrever, outras para cantar, algumas pintam, até constroem. Só que elas nunca se acham capazes o suficiente, mas eu acredito no talento, na criatividade das idéias e nas andanças e transformações diárias que fazem.
Na saída do cinema arrumou a camisa e lavou o rosto no banheiro. Entrou na livraria e folheou um livro sobre signos chinês. Se encostou na estante. Sentiu o vibrar do chão, das pisadas que as pessoas davam ao seu lado, uma gargalhada ressoou como se estivessem aumentando o volume dos acontecimentos. O chão tremia em um mini terremoto pessoal, no seu mundo tudo iria desabar se alguém desse mais um passo. As pessoas pareciam mais próximas e as vozes mais altas, e aumentando cada vez mais. Desencostei da estante e deixei o livro lá. Covarde como uma cabra, a cabra de metal.
Senti uma saudade estranha enquanto arrumava a vida. Saudade de algumas pessoas que já passaram pelo meu caminho, o mais estranho foi que senti falta das pessoas que eu não lembro... são tantas! Aquelas que conhecemos apenas por um dia ou então das que tive somente uma conversa, das que não lembro mais o nome ou a voz, saudade daquelas pessoas que eu só observava.
Será mesmo que a amizade resiste ao tempo?
De repente eu senti saudade das etapas da minha vida e das pessoas que foram passando, de repente a saudade virou alegria, só não sei por que.
Tem um bilhetinho guardado na caixa que fala sobre uma amizade que eu não lembro mais, assinado por alguém que eu nem sei dizer como era o rosto. Mas ele ainda está aqui, há contados dez anos ele está aqui e continuará comigo mesmo que eu não lembre mais quem o escreveu, afinal, foi o que restou da nossa amizade e eu não quero esquecer dessa saudade.
--------------------- ''Resta essa imobilidade, essa economia de gestos Essa inércia cada vez maior diante do Infinito Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível Essa irredutível recusa à poesia não vivida.'' Vinicius de Moraes -----------------------
Uma das crianças, um garoto, começou a andar e terminou de atravessar o rio. As outras ficaram desamparadas, talvez, sem saber o que fazer. Ela se abaixou e colocou as mãos na margem, aos poucos a água estremeceu como um copo d’água quando colocado abruptamente na mesa, duas meninas e um menino correram em nossa direção.
Do outro lado não havia mais ninguém.
Ficamos sentados encostados em uma árvore, ninguém falava nada, o único ruído era o de uma das meninas que vez ou outra soluçava abraçada aos joelhos.
Somente quando começou a amanhecer voltamos para o barracão. Exausta sentei em um dos cantos e apaguei, só voltei a acordar na manhã seguinte.
A quantidade de pessoas que viviam ali se resumia a cerca de quarenta mulheres, quinze a vinte crianças e contados quatorze homens.
As mulheres e crianças tinham idades variadas, mas os homens pareciam irmãos e nascidos na mesma época. Uma mulher aparentando seus sessenta anos devia ser a mais velha.
A casa quando estava com as janelas abertas produzia um sonzinho que lembrava sinos, havia ervas e pedras que lembravam as do rio em torno da construção, do teto pendiam alguns cordões que se entrelaçavam nos quatro cantos.
Entre o que agora chamarei de casa e o matagal havia um espaço considerável com algumas plantações.
Quando acordei as três crianças que retornaram comigo do rio e a mulher haviam desaparecido.
Seguiram-se vários dias sem que eu tomasse conhecimento do que havia acontecido a elas e a mim. Não ouvi os sussurros durante esses dias, tampouco houve grandes movimentações.
Numa manhã tentei fazer o mesmo percurso para chegar ao rio, quando consegui encontrar o sol já estava alto, sentei próximo à árvore e apoiei a cabeça em seu tronco, adormeci.
Quando abri os olhos estava numa sala com o diretor geral recolhendo as avaliações, a minha estava em branco.
As mulheres recolhiam as crianças para a construção, aos poucos o lugar foi se tornando mais estranho ao meu olhar, eu continuava sentada no mesmo lugar tentando entender o que poderia ter acontecido, até que um sussurro passou pelo meu ouvido, vozes misturadas e sem sentido falavam por entre a escuridão. Um vento forte sacudiu o matagal, apagou algumas tochas e entre gritos de mulheres mandando as crianças para o barracão e gritos das próprias crianças de terror eu continuava a ouvir as vozes sussurrando, o medo que já não era pouco se alastrou e também corri para entrar. Lá dentro, como já esperava, não havia separações, era apenas um grande barracão de madeira, tanto o teto quanto as paredes eram feitos de uma madeira crua e escuro avermelhada, como abertura só enxerguei uma porta e duas janelas, havia muito espaço lá dentro sendo que várias crianças choravam pelos cantos.
De repente, no meio da confusão uma mulher apareceu na porta avisando que quatro crianças não estavam por perto e que o paradeiro mais certo de encontrá-las era no rio das Calanhas. Ninguém se propôs a ir na busca, não sei porque, mas me ofereci para acompanhá-la.
Dentro do barracão a claridade era mínima, produzida por pequenas tochas que se dispunham ao centro, mas do lado de fora era o completo breu.
Na mão ela levava a nossa única fonte de luz. Nos distanciamos da construção e passamos a andar pelo matagal, ela parecia conhecer o caminho, mas vez ou outra tropeçávamos nas pedras e raízes. Depois de um tempo, que para mim passou como anos, saímos em um lugar aberto, uma grama que passava pouco do calcanhar e já se ouvia o barulho da água lenta entre pedras. Um frio subiu pelas minhas pernas. Ela não falava nada.
O matagal a pouco deixado para trás se sacudiu com uma ventania, nossa única fonte de luz se apagou e voltei a ouvir como se muitas pessoas falando em outra língua sussurrassem algo.
Quando me dei conta estava andando sendo guiada pelos puxões de braço que ela me dava.
Por algum tempo fiquei estática, ela ia à frente quando percebeu o meu estado, voltou e me puxou guiando meus passos.
As quatro crianças estavam dentro do rio. Uma água clara, absurdamente transparente, deixava ver seus pés sob, e o musgo das pedras. Continuava escuro, era como se alguns filamentos de água iluminassem o rio.
Estavam paralisadas.
Vendo-a de costa, de encontro ao vento, senti como se já a tivesse visto. Do outro lado da margem vinha alguém, as crianças se mantinham no mesmo lugar, mas numa posição em que sugeria que caminhavam para lá.
Tentei me aproximar da margem, ela bloqueou.
Um frio se apoderou do meu corpo, na escuridão só via alguns vultos. Mas era certo, do outro lado havia alguém.