7 meses de 60h semanais. 7 meses desde que entrei nesse casulo de transformações chamado residência. 7 meses. E já não sou a mesma desde o primeiro dia.
Se houvesse tempo para pensar saberíamos que estamos andando na contramão e que a vida não é pra ser feita apenas de tensão e dívidas. Se sobrasse disposição para inovar e criar... as páginas deixariam de estar em branco. Se houvesse mais tempo para dormir talvez brotassem mais sonhos nos nossos dias. Mas vamos seguindo, vivendo como nossos pais, tentando lembrar que um dia prometemos não repetir os mesmos erros, esquecendo dos problemas sociais e vivendo na famosa bola de vidro.
Vamos andando que "mais um dia menos um dia", mas o de hoje já acabou. Tempo ocioso também é vida e é por isso que as crianças são tão hábeis em aprender, pequenos gênios que surgem nas areias do ócio. Mas não há tempo para pensar outra vez, se o fim do mês chegar... não haverá hora se não for a extra.
Na beira do leito, à noite, o vento sussurra no ouvido do outro que a solidão arrebata o coração, que os dias passaram rápido e que o abraço poderia ter sido mais demorado. A comida de casa de repente parece a melhor comida do mundo. E o vizinho chato? Continua chato, mas talvez não fosse tão ruim assim. O vento fofoca horrores nos ouvidos alheios fazendo o coração apertar. A porta bate incansável e anuncia que a noite ainda será longa.
E no fim só queremos ser amados. Amados por qualquer um, a qualquer hora.
Ser normal para ser aceito.
Seguir as regras para ser incluído.
Ter sucesso para ser "alguém".
Estética para ser admirado.
Nesse mundo alimentamos mentiras para sermos amados.
Estimulamos o ego para sobreviver se não formos capazes de amar e ser amados.
É só o amor que conhece o que é verdade.
Abracadabra!, eu disse, mas as vendas não caíram.
E meus sentidos ainda permanecem na hipnose que um dia entrei.
Nó na garganta e no coração. Um nó que expande e sobe pela cabeça, desce pelo pescoço, paralisa braços e pernas. Silencia a voz. Esse é o nó dos últimos acontecimentos.
O grito silenciado da revolta fica travado e as lágrimas de decepção não descem mais. Eles conseguiram e agora sou um robô, um boneco de carne e sangue, uma máquina de comer, trabalhar e dormir, um animal irracional que opera máquinas. Criança domada em rédeas e gibão que deixou de ser gente e não se percebe mais como comunidade, natureza, ser. Vê as atrocidades e recolhe para si suas reflexões em um misto de inferno e realidade.
Acorda o seu eu verdadeiro. Acorda. Acorda. Tira as vendas que o mundo anda sofrido e não adianta fechar os olhos ou tampar os ouvidos, os gritos do inferno já vêm acompanhados de lucros.
Quantos sofrem sem saber a razão?
Quantos esquecem para quê vivem?
Quantos rejeitam sonhos e vendem seus dias para ganhar o pão?
Quantos se perdem em preces para aguentar os dias? Vivem em prisões sem saber. Morrem sem saber.
Quantos acham que educação e saúde são um mero favor?
Quantos se sujeitam ao mercado espiritual para alcançar um futuro melhor já que o hoje é de misérias?
E entre tantos, quantos deles sou eu e você?
No limiar da normalidade e loucura eu vivo, equilíbrio, caio. Que a loucura seja contagiosa e retire a senda que nos torna impotentes. Sou um monstro preso em uma gaiola feita com palitos.
Que a loucura de ser consciente me retire dessa impotência sem fundamentos.
Através da porta entre aberta vejo seu corpo molhado do banho,
uma mecha de cabelo caindo pelo rosto e por alguns instantes seus olhos
cintilantes param nos meus. Aquele sorriso misto de vergonha e ousadia brota e
aí já é certo que vou me apaixonar de novo, novamente, mais uma vez.
Fecho meus olhos e sinto o pulsar dos seus lábios nos meus. Sua perna
entre as minhas. Apertando. Pressionando. De olhos fechados sinto o seu gosto
em minha boca me fazendo esquecer da
hora, da fome, do mundo.
Sinto o toque dos seus lábios e todo o corpo se
contorce em dança e grita.
Esqueço do mundo para estar no presente.
1...2...3... Se abro os olhos você já não está mais lá.
Diariamente lido com pessoas que me relatam obstipação, passam dias e mais dias sem ir ao banheiro, mas do meu problema ainda não ouvi nenhum caso e até duvido que haja um medicamento para isso. Há alguns dias estou sofrendo da falta de lágrimas, a garganta travada, as linhas de expressão alteradas, faço até um esforço, mas sem êxito. Olhos secos, sem nem lacrimejar.
No trabalho a lista diária sofre mudanças constantes, troca de quarto, troca de andar e principalmente devido ao falecimento das pessoas. Morte. Morte. Morte. Morte. Falamos várias vezes para que morrer se torne tão natural quanto viver. Para que a finitude do corpo físico se torne nossa amiga.
Mas o corretivo é cruel e verdadeiro. Ele apaga o nome da pessoa, seus gostos, rejeições, problemas, tudo. Apaga tudo da lista e abre espaço para que outros cheguem. O corretivo mostra como a vida funciona. Ele faz parte do cotidiano, arma secreta de todos os funcionários. E toda vez que aquele líquido branco forma uma crosta na lista me faz pensar na momentaneidade da vida, como tudo continua, pois já pude constatar que o mundo não para de girar apesar do corretivo.
Por amor, com amor. A morte muitas vezes chega com amor. Delicadamente se instala ao lado da pessoa, aguarda pacientemente que ela segure nas mãos do outro e receba um carinho talvez. As vezes a morte chega por amor e leva todo sofrimento embora, leva a angustia que não cabe mais em si, leva a solidão, lava a alma. Amo-te. A morte. Duas coisas diferentes, mas que no fundo dizem a mesma coisa.
Sentada com o computador no colo respiro fundo e escuto o barulho dos carros lá fora, asfalto ligeiramente molhado da chuva, barulho de grilos ao longe e uma brisa bem de longe entra pela janela. Cansada e não consigo dormir, olhos secos, noite nublada. Na janela ficavam duas folhas secas presas com um pregador de roupas no beiral. Ficavam ali para me lembrar de que a vida é passageira e que a folha da árvore um dia cai. Hoje eu olhei pra janela e percebi que elas não estão mais ali, na melhor das hipóteses o vento levou. E então vejo que até as folhas secas que eu mantinha para me lembrar da transitoriedade da vida passaram.
Entre tantos mundos
particulares, seria muito pedir por compreensão.
A mesma frase lida por
duas pessoas não tem o mesmo significado. Lida em dois dias diferentes também não.
Lidas pela mesma pessoa, no mesmo dia, em locais diferentes, muda mais ainda. Cada
instante é um mundo de singularidades.
Aquele cartão era para
você, para aliviar a angústia de não ser compreendido. Era para fazer da ilusão
uma realidade.
Sem palavras ou gestos
explícitos eu entendi que você estava lá por mim, para quebrar o laço que nem
havia se formado. Por instantes percebi
a voracidade e amorosidade do seu coração. No tempo de um abraço de quem diz
foi bom te conhecer. Que pena que a vida é breve e os momentos bons mais breves ainda.
Queria te contar o quão
nu seu espírito é. O quão fácil é para olhos treinados como os meus perceber no
sorriso silencioso, entre uma gota de chuva e de lágrima, seu desejo contido.
Olha moço, só posso te dizer que as certezas de ontem já não cabem mais no dia de hoje. E os sonhos de outrora perderam o brilho. Perdi as rédeas moço, agora sou só eu e esse cavalo selvagem.
Quem me viu há um mês atrás poderia descrever em poucas palavras os meus sonhos e ambições para o futuro. Venho trilhando um caminho incerto e árduo por pelo menos oito meses, quase um parto, e dentre respostas positivas e dificuldades tenho tentado me equilibrar nessa tênue linha que liga minhas ambições à realidade.
Acontece que na última semana algo mudou. As rédeas que me prendiam ao cavalo partiram e eu caí. E agora moço, lá estava eu, frente a frente com aquele cavalo que nunca me obedeceu, que sempre correu na hora do trote, que dava pinotes quando eu precisava passar em silêncio. Lá estávamos nós, tete a tete e sem amarras.
Pois bem, decidi que aceitaria o que viesse. Moça, ninguém dá tiro no escuro. Que escuro, moço? Que tiro? Eu nem falei de violência e você já me vêm com essa conversa. Deixa pra depois, moça. Não é hora. Já não dá pra você. Olha moça, é difícil. Isso aí que você conseguiu foi a parte fácil. E essa idade, sei não, você já tá ficando velha pra isso.
E lá estávamos nós moço, eu e o cavalo, e eu olhava dentro dos olhos dele sem medo de nada. Mas moço, veja bem, o cavalo é selvagem e ele também não tinha medo de mim.
Foi quando os sonhos perderam o brilho moço. Foi alí naquela horinha mesma, quando eu descobri que independente do que escolhesse o resultado ia levar a uma coisa só. Que não adiantava eu laçar o cavalo ou agarrar ele pelo pêlo. Tudo leva a um final, que é o trabalho, moço. No final só nos resta trabalhar, independente do meio o final é um só. Talvez esse trabalho seja em locais diferentes, com coisas diferentes, com pessoas diferentes, mas só Deus sabe moço a satisfação que você vai sentir quando esse dia chegar. É que a gente não sabe de nada, viu.
Eu tava lá parada e ele olhando pra mim. Deu duas passadas pra trás. Olhei de lado como quem diz, tá indo pra onde? Mas nada aconteceu. Ficamos naquela posição como que duas estátuas. Eu guerreira sem as botas, de pé, braços jogados ao lado do corpo, entre as mãos as rédeas partidas. Do outro lado o cavalo de pêlo escuro, olhos úmidos e vivos, grande, bicho de porte, dava para ver que era forte o animal pelas ancas massudas.
Nesse momento eu reparei moço, que o bicho era tão danado de grande que podia me destruir em dois tapas. Mas não tive medo, só que também não quis brigar. Veja só moço, eu tenho medo só de uma coisa, que é de perder minhas convicções, meus sonhos, a vontade de viver sabe. Enquanto eu olhava pro cavalo eu percebi que meus sonhos não eram colocar as rédeas ou adestrar aquele bicho bravo, meus sonhos eram me tornar um ser humano, humano mesmo, daqueles que sentem e vivem, do tipo que ama e sente compaixão, sabe moço? O sonho era servir ao próximo e ajudar as pessoas a se sentirem bem e felizes. Moço, pois veja só! Não é que eu havia mesmo perdido as rédeas? Foi aí que eu descobri que todo o resto era o ego, era a vontade de ser mais. Ora, que hipocrisia a minha vestir o lobo de cordeiro.
Quando eu entendi tudo isso resolvi largar as rédeas. Que o cavalo seja livre. E os meus olhos secos se tornaram úmidos. E lá fomos nós, eu e o cavalo, como que dois amigos que depois de muito tempo distantes e brigados se encontram e se entendem. Veja só moço, sem rédeas, só eu e o cavalo selvagem.
Inúmeras vezes somos dominados por uma emoção que não é nossa. Aquela sensação que sobe de repente pela nossa cabeça e nos apodera como raiva, tristeza, vontade de gritar, chutar, ser arrogante, destruir, quebrar. De repente. De repentemente essa emoção chega. Não sabemos o motivo dela iniciar, ela simplesmente se apodera de nós.
Choro e quando me perguntam o motivo eu não sei explicar. Quero bater portas e janelas, quebrar os vidros, mas não sei a razão. Lembro de quando era criança e passava por essas situações sem explicação. Praticamente todas as vezes eu inventava um motivo para as emoções inexplicáveis, visto que ninguém aceita choro sem motivo nem raiva sem razão.
Foi então que descobri que essa emoção não era minha. Nunca foi. Nunca será. Ela chega de outros que estão ao meu redor, ela vêm no tom de voz, na narração do dia estressante, cheio de gritos e raiva. Essa emoção não é minha.
Junto com a raiva e a tristeza vêm um aperto no coração, enjoo, uma pressão na cabeça ou na nuca. Essa emoção não é minha, repito mais uma vez para poder afirmar ao meu coração que se acalme, não se identifique e que isso vai passar. Assim como veio, irá embora.
Muitas vezes por estarmos perdidos em nossos pensamentos não nos damos conta do que ocorre ao nosso redor, muito menos da origem das nossas emoções. Várias vezes estamos tranquilos, mas ao nos aproximarmos de uma pessoa ansiosa ou nervosa acabamos sentindo as mesmas coisas e partilhamos inconscientemente suas emoções, as levamos para casa e reproduzimos em amigos e familiares.
Contudo, quando começamos a observar a nós mesmos, nossos pensamentos, emoções, ações, palavras... Fica ligeiramente mais fácil detectar quando uma emoção externa começa a nos apoderar. Ela chega como uma pedra jogada em águas tranquilas. Quando estamos observando podemos detectar a pedra chegando, o movimento que provoca na água e como que por instinto nos afastamos do atirador de pedras. Mas se estivermos imersos em nossos pensamentos e devaneios, a pedra atirada, por menor que seja vira um monstro. Reagimos durante horas a esse evento que como por encanto iniciou.
Sabe Deus de nossas limitações e sabemos nós o que mora em nosso interior. Essa emoção não é minha. Nem nunca será.
Naquele dia eu cheguei super cedo, acho que com uma hora de antecedência, pensei em estacionar o carro e caminhar próximo à praia, mas aquele sol de meio dia me fez mudar de ideia. Andei até a praça ali perto e sentei em um dos bancos. Do outro lado, no meio da praça estavam uma senhora, uma jovem, um senhor e um menino nuelinho de aparentemente dois anos de idade.
Qualquer um veria que eram moradores de rua e que estavam ali almoçando. O menino era filho da moça de short jeans e blusa de alça. Danado que era não parava em um canto, moreno, com as perninhas definidas como todo criança tem, tinha no lado direito do rosto um arranhão vermelho vivo que devia ter sido de alguma queda recente.
Flavinhooo! Flavinho, desce daí. Sua mãe chamava enquanto ele ria e corria ao redor da praça brincando sozinho. Corria atrás do pombo, caia, levantava, subia nos bancos e chamava atenção de todos que passavam pela beleza da sua nudez de criança, nudez de corpo e de alma.
Não lembro quem sorriu primeiro, só sei que ele veio brincar perto do banco em que eu estava sentada. Subia no banco, pulava no chão, sentava do meu lado e olhava atento pra o papel que eu segurava como se também quisesse saber que negócio interessante (ou não) era aquele que me prendia a atenção. De repente Flavinho pegou uma folha do chão e falou "Óo!" e eu respondi "Hmm, a folha é da árvore" com aquele tom de quem acabou de falar algo super importante. Mas ele continuava "Ó, ó!", parou embaixo da árvore, olhou para cima e suspendeu a mão que segurava a folha como se quisesse de alguma forma prender novamente aquela folha amarelada na árvore.
Nesse instante eu sabia que havia algo ali para eu aprender, e que aquela criança me mostrava alguma coisa que até então eu não tinha entendido. Flavinho veio até mim e me deu a folha, na verdade ele jogou a folha na minha direção. Eu peguei do chão e segurei para entregá-lo, mas ele olhou para mim, apontou para o topo da árvore e fez "Ó". Eu já tinha entendido que ele queria prender a folha na árvore novamente. Tentei falar alguma coisa sobre não ser possível, mas que não me recordo bem agora. Depois disso ele brincou, caiu, jogou folha e pedra para cima e eu tive que ir embora devido ao horário.
Mas o que aquele menino nuelo queria me mostrar?
Dentre as várias interpretações daquele dia eu entendi que tudo passa, tudo tem seu tempo e que por mais que façamos um esforço para retornar ao que já se viveu não há como fazer isso acontecer. Assim como a folha que cai da árvore não pode ser presa novamente ao galho, nós não podemos nos prender a locais, pessoas ou momentos que passaram pela nossa vida.
A árvore era uma amendoeira daquelas que tem a folha grande e vistosa. O topo da árvore estava cheio de folhas de cores variadas, várias verdes, muitas alaranjadas, outras quase vermelhas. Apesar de ser final de inverno aquela árvore parecia ainda estar no outono. Cada folha em um momento diferente de desenvolvimento compartilhando da vida em comum presas aos galhos da árvore. Mas aquela na mão de Flavinho já havia caído, seu tempo no galho tinha terminado e ela agora voava errante com o vento.
De certa forma nossa vida também é assim. Podemos ser como uma folha na vida de alguém. Brotamos, participamos da vida daquela pessoa e depois com o tempo viramos a folha caída que não encontra mais espaço entre os galhos. Ou mesmo quem sabe a árvore ali mostrasse a energia que nos move e cada folha nosso momento de desenvolvimento e crescimento na vida.
Mas não se devolve ao galho uma folha caída... ou devolve?
Não sei... Só sei que tudo passa... tudo passará.
Cabe a nós viver o hoje.
Olhando bem para a ilustração, você já fica com uma primeira idéia do que esta lâmina quer transmitir: um anjo multicolorido voa pelo espaço ilimitado levando consigo a figura de uma mulher: não encontro expressão mais linda para definir o nosso mestre interior do que esta representação.
Mas, se notar bem vai ver que a figura feminina está com o rosto virado para esta figura angelical. O que isso quer dizer? Quer significar que muitas vezes damos às costas ao nosso bem mais precioso: nossa proteção, nosso guia interno, nosso mestre, nossa intuição: aquela voz que vem do coração e que fala primeiro que nosso cérebro.
E por que fazemos isso? Porque fomos viciados em acreditar apenas naquilo que vemos com nossos olhos, ou apalpamos com nossas mãos ou pés. Os estímulos do mundo externo são, para nós, muito mais reais do que a nossa sabedoria interna. Por isso nos tornamos discípulos de alguém, fanáticos de uma religião ou caminho, apegados a pessoas que nos rodeiam, achando que são eles os nossos guias. Vã esperança! O nosso guia não está fora de nós. Está dentro de cada ser.
Literalmente é isso que a carta diz. Acompanhe: “A verdade do seu próprio ser mais profundo está tentando mostrar-lhe o caminho a seguir neste exato momento e, quando esta carta aparece, significa que você pode confiar na orientação interior que lhe está sendo dada. Esta orientação vem por meio de sussurros, e algumas vezes podemos hesitar, sem saber se compreendemos corretamente. As indicações, porém, são claras: seguindo seu guia interior você se sentirá mais pleno, mais integrado, como se estivesse se movimentando a partir do centro do seu próprio ser. Se você a acompanhar, essa célula de luz o conduzirá exatamente onde você precisa ir”.
No entanto, nem sempre é fácil ouvir esta voz interior. Para isso é preciso calma, sossego, paz. Se você sente que um exercício com imagens mentais poderá ajudá-lo a encontrar seu guia interno, tente este. Faça por 7 dias sempre ao acordar e, se sentir que resultou, repita por mais 14 dias, completando um ciclo de 21 dias. Ou continue fazendo sempre que sentir necessário. Se estiver fazendo outro exercício não misture. Espere que o outro acabe para começar este.
Exercício para encontrar seu mestre interior.
Sentado, olhos fechados, pés firmes no chão, mãos apoiadas nas pernas com as palmas viradas para dentro, respire calmamente três vezes e leve sua atenção para a sua intenção (que está no título do exercício) e veja, sinta, ouça, perceba ou imagine que entra dentro do seu coração pelo orifício do seu corpo que achar melhor. Examine bem o ambiente do seu coração. Se estiver apertado alargue o espaço. Se estiver escuro ilumine com luz cor de rosa. Se as paredes forem opacas substitua por cristais translúcidos. Caminhe então para o centro do seu coração chamando pelo seu mestre. Conte lentamente e mentalmente até 6 e veja ou imagine que vê uma porta que se abre e por ela entra o seu mestre . Vá ao encontro dele. Abrace-o e seja abraçado por ele. Ouça o conselho que ele tem para lhe dar. Então marque um encontro com ele para revê-lo todos os dias. E sentindo que encontrou seu mestre, despeça-se dele, saia do seu coração pelo mesmo caminho que usou para entrar dentro dele e sentindo-se pleno, leve, alegre e firmemente sentado na cadeira, respire e abra os olhos.
Qual foi o conselho que ele lhe deu? Escreva o conselho num caderno que reservou só para isso.
A primeira
vez que te vi nem reparei que você existia. Me ofereceu uma cadeira para
sentar, pouca diferença me fez, lembro apenas de ter visto do seu pescoço para
baixo, alto, largo, de jaleco e com andar meio desajeitado. Da segunda vez que
eu te vi você estava sentado debruçado em sua mesa trabalhando, foi quando
soube que trabalharia com você. Dessa vez eu vi seu rosto, nada me atraiu, seu
sotaque puxado menos ainda. Lembro que você me deu algo ridículo e despretensioso
para fazer, mesmo assim eu fiz como se fosse a coisa mais importante que eu já
havia feito. Da mesma forma eu procurei o que fazer porque você aparentava não ter
ideia das atividades que poderia passar para mim.
Um dia você
me mostrou a área dos animais e se comportou como tal, tal como uma raposa que
sutilmente se aproxima da preza. Me perguntou como era ter um relacionamento no
meu país, te expliquei qualquer coisa sobre as contradições que ocorrem e o meu
ponto de vista. Você queria saber se eu achava certo ou errado e eu tentei te
dizer que não acredito em dicotomia. Naquele dia quando saímos dali minha
intuição falou que aquela pergunta era você sondando a minha vida com segundas intenções,
mas não quis acreditar nessa verdade e simulei para mim mesma que era apenas
uma curiosidade.
Por duas
semanas eu trabalhava com você apenas durante os finais de semana, mas quando a
rotina se normalizou eu te via de domingo a domingo, das nove da manhã às cinco
da tarde, e muitas vezes comecei a te ver depois das cinco. Nunca te contei,
mas eu te achava parecido com uma máquina fazendo coisas automaticamente, sem
demonstrar o que se passava dentro de você. Durante esse meio tempo eu tive
problemas, inúmeros problemas que eu não tinha como solucionar, fugiam do meu
alcance em proporção e distância, pois ocorriam em outro país. Eu não sei se eu
era transparente para você, mas toda vez que eu estava triste você sabia, se
com dor você identificava, se cansada você também me dizia. Sei que uma de suas
qualidades é ser um bom observador, mas você me lia por inteiro e sabia como me
acalmar. Passou a ir caminhar comigo, me disse que não conhecia a cidade e eu
como descobridora de mares me ofereci para te mostrar.
Em poucos
dias fomos fazer uma trilha, que para mim era apenas uma longa caminhada. Você levou
sua câmera, se deitava pelo chão tirando fotos, não é de se estranhar já que
com seus quase dois metros de altura se abaixar não seria suficiente. Tentou me
ensinar a usar sua câmera, aperta assim, segura assim, quando eu vi estava por
trás de mim e eu entre seus braços querendo achar que aquilo não era mais que a
sua amizade. Tirei sua foto umas trinta vezes até uma ficar boa. Nunca entendi
como eu saia bem nas fotos que você tirava, mas você sempre desaparecia nas que
eu fotografava. Fazer o quê né, a câmera era sua há anos, eu não ia aprender em
segundos o que você levou anos praticando.
Nesse mesmo
dia quando caminhávamos para casa paramos em um restaurante para lanchar. Lembro
como se tivesse sido ontem a minha cara de medo e susto quando se declarou para
mim. Não quero te enganar saindo como se fosse seu amigo, eu quero ter um
relacionamento com você, gosto de você. Suspirei, não conseguia mais comer. Tudo
que suspeitei era verdade menos a sua intenção de sermos apenas amigos. Te disse
que não sabia o que fazer com essa situação, trabalhávamos juntos, convivíamos juntos,
não poderia passar disso. Comemos. Conversamos e eu sem saber como sair dessa
resolvi apelar pelo tempo. O caminho inteiro para casa você continuou a se
declarar para mim afirmando que sabia que daríamos certo juntos.
O cemitério
na minha vida possui um local especial. Meu primeiro beijo tinha vista pro
cemitério. Quando você explicou o motivo da sua declaração estávamos parados em
frente ao cemitério que fica no meio da cidade. Me falou do seu trágico
primeiro amor, amor que nasceu do silêncio e morreu antes mesmo de brotar na
terra. E como eu era parecida com seu primeiro amor, e como isso era pra você a
chance que havia recebido de fazer o que você não fez da primeira vez. Se declarar,
tirar o amor das sombras e fazê-lo brotar. Fazia frio, mas por ser verão eu não
havia levado meu casaco, você me deu o seu e eu com muita relutância aceitei,
aceitei também a sua declaração.
Quando cheguei
em casa me arrependi de tudo, achei que havia errado desde o princípio e te
mandei uma mensagem de que não poderia ficar assim, que eu não deveria ter
aceitado e que voltava atrás. A partir daí não tinha mais um dia de paz, sua
segunda qualidade que impressionou foi a persistência e dedicação, mesmo
ouvindo não diversas vezes ao dia, diversos dias na semana, você não desistia. Fizemos
um acordo de que eu aceitaria sair com você como amigos e se um dia despertasse
algum sentimento por você conversaríamos novamente. Você me fez aceitar que eu
te encontraria todos os dias após o expediente e que caminharíamos juntos como
uma forma de nos aproximarmos. Te devolvi o casaco, mas aceitei caminhar com você.
Muito tempo
depois você me disse que tomou coragem para se declarar por mim porque eu era
legal e gentil com você. Nunca pensei que isso seria motivo para alguém se
declarar, eu sou legal com todo mundo, imagina se o critério fosse apenas esse.
Mas para você foi a chama que acendeu sua persistência.
Tinha dias
que eu não aguentava mais, eu ia ligar para polícia e te denunciar, quis chamar
sua chefe e dizer tudo, mas não fiz. Você se mostrava responsável com seu
trabalho, falava com sua família todos os dias, trabalha para eles, vivia para
eles, sustentava seus sonhos e os de sua família sozinho. Se orgulhava em ver
sua família vivendo bem mesmo quando você tinha que se privar de ambições e
anseios para isso. Eu não queria destruir tudo. Não era justo, eu não achava
justo.
Você me dizia
que nunca teve uma namorada e a única namorada que teve foi imaginária, era uma
amiga a quem nunca se declarou, com quem sonhou casar e ter filhos, mas que se
foi antes de terem tempo mesmo que para dizer eu te amo. Vi você chorar por um
amor que nunca se materializou, vi você usar um boné mesmo na chuva por ter
sido da sua sobrinha que você não via há meses, vi você me amparar quando eu
precisei. E não precisei ver mais do que isso para entender que mesmo não me
sentindo atraída eu gostava de você.
Lembro do
nojo que senti da primeira vez que pediu para segurar a minha mão. Você não acariciou,
não fez nada mais que segurar a minha mão. Eu sentia os calos na sua palma, a
pele grossa e áspera me fazia não querer segurar sua mão por mais tempo. Pedi que
soltasse, que parasse de usar as caminhadas para se declarar de novo e de novo,
mas que fosse um momento para falar mais de cada um, dos gostos, da vida. Você disse
que eu iria me arrepender, que sabia que eu gostava de dormir com a cabeça
apoiada em seu ombro, falou mais umas duas coisas que eu gostava e que não lembro
agora, então me disse que para você nós já tínhamos vivido juntos em outra
vida, outro momento.
Passamos a
ir no mercado juntos, você carregava meus milhões de sacos mais os seus até em
casa, eu não queria deixar, mas você insistia e levava quase tudo sozinho em
uma caminhada de mais de meia hora. Brincava comigo se fazendo de besta e me
fazia rir mesmo a contragosto, olhava para mim e se deixava bater contra a
parede, passava o cartão do ônibus para abrir a porta e falava besteiras em uma
língua inventada por você que me davam raiva, mas que ao mesmo tempo eu achava
graça. Quando passávamos por algum casal de mãos dadas você fazia o favor de me
mostrar e dizer que devíamos andar do mesmo jeito. Cheguei a chorar na sua
frente de aflição pela persistência descomunal em um relacionamento que eu não via
como iria começar ou terminar sendo você de um mundo e eu de outro.
Até que um
dia você me convenceu. Fomos caminhar em um dos locais que eu mais gosto, ao
lado de um rio descendo a colina que vez ou outra faz cascata de cachoeira. Tem
uma escadinha que dá em frente a ponte que liga as duas margens do rio, fica em
cima da parte que parece cachoeira, do lado direito um banco de praça em baixo
de uma árvore. Sentamos no banco para olhar o rio. Já havíamos sentado ali
inúmeras vezes, almoçado ali, lanchado ali, mas dessa vez apenas sentamos. Você
virou para mim e disse que tínhamos feito até então tudo que um casal faz ou
mais que isso, pois nos víamos todos os dias por mais de doze horas em um dia
de vinte e quatro horas, saíamos todos os dias, nos dávamos bem juntos, trabalhávamos
bem juntos, só não nos beijávamos. E foi aí que você me desarmou e nos beijamos
para depois nos acabarmos na risada, pois você apesar de ter insistido tanto não
sabia o que fazer. Seu primeiro beijo era meu.
Dali em
diante você parou de ser persistente pois sabia que já havia me ganhado. A rotina
era a mesma, mas em sua loucura você não sabia o perigo que era se descobrissem
que estávamos juntos. Decidimos então que o relacionamento seria só nosso, sem
divulgação nem conhecimento de ninguém. Nos separamos por duas semanas e como
se fosse brincadeira do destino você me ligava quando eu pensava em você, e eu
te mandava mensagem na exata hora em que você abria o celular.
Você sempre sério me fez acreditar que por mim
faria do meu mundo o seu mundo. Que ficaríamos juntos e que os seus filhos
seriam os meus filhos. Descobri que eu gostava de segurar sua mão, de deixar a
minha cabeça repousar sobre o seu ombro e de conviver com você apesar de sua displicência
e de nada ser perfeito, pois nada é perfeito, mas fazíamos boa convivência em
todos os sentidos.
Descobri que
era verdade quando você me dizia que daríamos certo, que eu iria me arrepender
por não termos ficado juntos logo. Não me arrependi de fato, mas desejei ter
tido mais tempo com você. Viramos um casal que convivia vinte e quatro horas
juntos sem aparentemente ninguém saber. Apesar de me dizer que nunca havia
abraçado uma mulher em um relacionamento você sempre soube o que fazer, nunca
me machucou nem mesmo me deixou sem sentir desejada. Pelo contrário, você sabia
a pressão certa de me segurar, eu cabia exatamente em seus braços e você em
minha calça, seus pés em meu sapato. Mesmo sendo uma pessoa gigante suas mãos eram
do tamanho das minhas e suas roupas também cabiam em mim. Nunca entendi que
proporção era essa, mas tudo bem.
Discutíamos
a fome, a pobreza, a soberba, e a marca do papel higiênico que iriamos comprar.
Você veio para minha casa porque sabia que eu nunca iria aceitar casar com
alguém que eu meramente conhecia. Você veio e abriu espaço em meu coração para
entender que eu tenho sim capacidade de viver com alguém, e viver bem. Quebrou meus
traumas e me fez ver que no fundo talvez não seja tão ruim assim ser um casal.
Eu brigava
com você, mas você nunca brigou comigo, nem nunca me deixou chorar. Era tão
chato com isso que nem quando eu queria eu chorava só por causa da sua chatice.
Fiquei triste e você passou a ser mais organizado com suas coisas, bebia menos,
fumava menos. Você era todo errado, mas mesmo assim eu gostava, e gostava mais
ainda por você admitir que não era perfeito. Você nunca foi bom pra fazer
escolhas, gosta do belo, do que desperta o seu coração. Também nunca me
explicou ao certo porque decidiu loucamente que precisava ficar comigo mesmo
sabendo do risco que corria se eu denunciasse todas as mensagens
que tinham sido enviadas por você.
Eu vivi com
você um misto entre amor e admiração. Não vou contar mais porque levaria muitos
dias para explicar tudo o que nos levou a chegar até aqui.
O amor é
mais forte que a distância, era isso que você dizia e são essas as palavras que
eu me forço lembrar quando você some entre seus problemas e faz como se
esquecesse de mim.
Todos os
dias eu acordo pensando em desistir de você, no presente você não passa de uma
lembrança boa e saudosa do dia em que eu pensei ter encontrado o meu amor
personificado. Você, a quem eu tanto refutei, a quem eu mostrei minha fragilidade e fortaleza, você... essa pessoa que eu tenho que decidir todos os
dias se ainda está comigo ou não. Você que fez tanto e que hoje não faz mais que
desaparecer. Você por quem eu já chorei e roguei a Deus para que me fizesse
esquecer.
Você...
A minha intuição diz para eu ter paciência, mas só Deus sabe até onde isso vai chegar.
Desde ontem o meu coração chora silencioso, a garganta trava com o soluço que não sai e os olhos ardem com as lágrimas que não chegam.
Engraçado como eu sempre chego a esse ponto de amar demais, de amar todo mundo, e de não me sentir amada. Desde anos eu sofro desse mal e é sempre assim, até chegar o dia que alguma palavra é dita ou não, e pelo excesso de palavras que me deixam no vazio ou pelo excesso de vazio que vem da ausência de palavras eu faço a escolha mais difícil e deixo esse tal de amor bandido ir embora pra cuidar de quem mais precisa do meu amor e bem querer, eu mesma. Se machuca? Sim, sempre, mas hoje aconteceu algo que eu não esperava e que me ensinou alguma coisa importante...
Fui na feira comprar umas folhas e flores. Passei pela barraca do freguês, mas hoje eu quis comprar na que fica do lado oposto, vi umas rosas mais abertas e achei que seria melhor comprar lá. O vendedor que já me conhece fez cada rosa por dois reais e cinquenta o que é um preço bem barato em dia de feriado, e me disse pra escolher as que eu queria. Escolhi uma branca, uma rosa clarinho, e outra vermelha, a rosa vermelha tinha espinhos e o espinho furou minha mão de leve, mas dei um Ai de dor e surpresa. Ele que estava ao meu lado me mostrou a sua mão inchada e toda machucada, disse que furava a mão toda hora, e eu perguntei se a mão já não estava "calejada", expressão típica para quando já nos acostumamos com uma situação e paramos de sentir a dor que ela nos provoca. Ele me respondeu que não, que toda vez doia da mesma forma, tirava até pele, o que acontece é que acostuma mesmo quando doi, você sente a dor.
Saí dalí sem saber se eu tinha entedido direito. Meio difícil isso de entender.
Fui em outra barraca porque ainda me faltava comprar umas coisas. O rapaz que me atendeu depois de começar a embalar o que comprei me perguntou se eu era paixonada, você é apaixonada menina?, pensei bem brevemente e respondi com vontade, sou apaixonada sim, e ele me disse, pois seja apaixonada pela vida, porque o resto não vale muito a pena.
Cheguei em casa, lembrei que havia esquecido algo com o feirante, nem sei se ele cobrou, mas volto lá depois pra buscar. Fui arrumar as flores no jarro, umas margaridas pequeninas e uma galha de folhas que o freguês colocou pra mim. Depois de colocar o jarro na mesa, vi que uma folha caiu em minha cama, pequenininha e verde brilhante em formato de coração. Não tem outra, tanto amor que seria injusto eu ficar triste por uma dor que passa.
....
Fatos reais de uma vida de ilusões.
....
Tem gente que não acredita em Deus, eu não tenho condições de não acreditar. Ele vive a cuidar de mim, a me alegrar quando estou triste e a me explicar sobre a vida mesmo quando estou sofrendo pela centésima vigésima terceira desilusão. Ele aparece em diversas formas e me ajuda sem medo de me fazer perceber que é a sua força agindo em minha vida.
A dor que sinto vai passar, mas a lembrança de Deus em minha vida ficará comigo para sempre...
A câmera percorria o local com poças de
água suja e casas maltrapilhas. E o narrador dizia, Você sabe como se chama
aquele que entra e destrói o seu território? Se chama invasor. Mas não há mais
como recuperar o território expulsando eles, eles se multiplicaram e agora são muitos
para conseguirem outro lugar para morar. É preciso aceita-los, perdoa-los e
trabalharmos juntos. Durante essa cena eu via que uma mão soltava um pequeno
porco-espinho ou animal parecido com esse e ele como que retornando a um velho
local conhecido do qual havia sido retirado ia caminhando e cheirando aquela
água que agora parecia suja. A câmera foi para dentro de uma sala e mostrava de
um a um as pessoas sentadas no chão entre ex-invasores e nativos juntos e decididos a
discutir as melhorias para aquele lugar.
Na
última cena eu a vi novamente. Seu cabelo negro chamou minha atenção, liso e curto
desfiado nas pontas, mais ou menos na altura da orelha, sentada na cadeira de
líder atrás de uma mesa. Antes de eu poder vê-la os meus olhos percorreram uma
sequência de bandeiras dispostas uma sobre a outra em um suporte e por fim a
última bandeira que era escolhida para representar o local, North Carolina, eu
ouvia. E ao lado ela abria um sorriso enorme no rosto. O narrador dizia então, Havia
chegado a hora de mais um momento de amadurecimento na sua vida e isso envolvia
a tomada de cargos de liderança.
Ela
é jovem, olhos sorridentes e recebeu a responsabilidade de responder pelo seu
povo, índios nativos da américa.
Antes disso tudo ocorrer lembro de outra cena. No
início desse sonho acho que cheguei a ver como ela estava
antes, seu medo e insegurança, sua união com alguém e que em determinado
momento o amadurecimento e a responsabilidade chegariam, mas não consigo
lembrar ao certo como a cena foi mostrada.
A bandeira no final eu lembro que havia sido redesenhada, com diferentes tons de verde e azul dispostos parecendo um arco-íris dentro de um círculo. Haviam mais símbolos, mas não lembro agora.
Tem
sido difícil me concentrar, esvaziar os pensamentos, desligar do mundo e
conectar com o meu vazio interno, vazio que me guia na minha busca espiritual e
pessoal.
Até
mesmo para escrever meus parágrafos desordenados tem sido difícil, porque a
minha mente voa longe e tão rápido que não tenho tempo de resgatar o que eu
gostaria de escrever.
O
ambiente externo apesar de não ser um fator determinante para a minha
capacidade de concentração e desenvolvimento de sentimentos exerce uma grande
influência. Pude confirmar isso após ter passado um ano e meio vivendo em um
local que tinha por hábito ser extremamente silencioso, reduzir as atividades
ao final do dia e cultivar árvores ao longo das ruas. Após alguns meses lá
ouvindo as mesmas músicas de meditação que escuto aqui eu pude viver dias em
que acordava sentindo um amor incontrolável sem explicação, dias em que a
alegria se espalhava pelo meu corpo como uma onda sem fim. Tive momentos difíceis
e de tristeza, mas a tranquilidade do ambiente me ajudava a estabelecer um grão
de tranquilidade interna.
Agora
eu passo por um momento de transição, no qual preciso entender que a minha
tranquilidade interna impacta e repercute no ambiente externo. Que se eu
conseguir cultivar diariamente os pensamentos de amor e luz, a energia ao meu
redor também refletirá isso. Não é fácil ser o oposto do meio em que vivo. Não é
simples nadar contra a maré. Acordar e perceber como algumas músicas tem
estruturas de mantas e como as pessoas conseguem incessantemente ouvi-las, são
curtas e repetitivas, falam a mesma sentença por mais de dez minutos, mas a única
diferença é que é sobre sexo, violência e mazelas. Sinto um frio na espinha
quando escuto aquele toque no celular que é o sino dos templos de meditação
alertando a nova mensagem que chegou. Tlim, Tlim, Tlim, e lá vamos nós entrando
em um transe de ambições materiais. Não é fácil, mas isso não quer dizer nada. Quanto
mais nado contra a maré mais forte ficam meus braços, mais experiência ganho,
melhor é o resultado.
Cada
dia que passa reconheço que os pensamentos se materializam mais rápido do que
imaginamos que aconteça. Cultiva os pensamentos que você quer ver em sua vida,
cultiva e colherá.
Me pediu para não pensar pela décima ou trigésima vez.
Que raiva que me deu. Saber que você me conhece e bloqueia meus pontos fracos.
Eu penso demais. Em segundos eu vivo uma vida inteira em pensamentos. Faço da alegria um drama, pequenos atos transformo em um filme inteiro.
Mas você, que só Deus sabe como me conhece, pediu para eu não pensar.
Eu queria criar um mundo em minha mente e brincar com os fantoches de pensamento, mas você não deixou.
Cortou a minha diversão e me prendeu nessa realidade sem drama ou magia.
Alguns poderiam dizer que mesmo com o seu pedido meu pensamento é livre para divagar, sim ele é, mas mesmo a divagação muda de rumo.
A vida caminha com você ou não... meus pensamentos divagam com você ou não... Eu só queria romance, mas romance sem ilusão não existe. Sem ilusão nem o que chamamos de realidade existe.
Ontem por acaso assisti a um
vídeo muito interessante, era um diálogo entre J. Krishnamurti e algumas
crianças de uma escola. Fiquei tão encantada com o vídeo que hoje assim que
tive tempo fui pesquisar mais para ver o que encontrava. Dentre vários da lista
escolhi ver um chamado Descobrindo o amor... ou algo assim. Eu sempre me
perguntei várias coisas, o sentido da vida, a melhor maneira de viver a vida,
como ter pensamentos positivos, como ajudar os outros, como ser feliz e até
mesmo como amar.
Assistindo ao vídeo ele traçou
uma investigação, uma observação detalhada desde significado de palavras a
sentimentos que possuímos no nosso dia a dia. Podemos chamar o apego de amor?
Seria a possessividade amor? Ciúmes é amor? É o carinho entre mãe e filho?
Questões vieram à tona sem
parar, uma atrás da outra com observações e exemplos. O apego nos remente a
responsabilidade e a afeição, mas traz consigo o medo da perda e do sofrimento.
Amor e medo não andam juntos, portanto, o apeno não pode ser amor. A possessividade
e o ciúmes também não são amor. A relação mãe e filho não necessariamente é
amor. Mas o que é amor afinal?
Constantemente ele falava Ouça
cuidadosamente, Observe a si mesmo, Investigue a si mesmo, Faça isso agora
enquanto estamos falando, Devagar, Pensem, Não falem palavras em vão e vazias. Deveria
eu então iniciar a minha busca enquanto assistia o vídeo, mas foi aí que recebi
uma mensagem no celular. Explicarei em instantes o motivo dessa mensagem ter me
desestabilizado.
Se não foi ontem ou antes de
ontem, um amigo não muito próximo veio conversar comigo sobre seu relacionamento
amoroso. Me contou sua história, decepção, e em sua conclusão ele estava
morrendo de amores, apaixonado e faria qualquer coisa para ter a sua amada de
volta. Dei um único conselho. Escolha no calendário uma data e até esse dia
tente todos os dias algo diferente, um pequeno gesto, para que ela se sinta
amada por você, cuidada e desejada. Faça o seu melhor, mas se até o dia
escolhido ela não responder positivamente e não demonstrar nenhum interesse em
estabelecer o relacionamento você deve deixar isso passar e passar a prestar
mais atenção em sua própria vida. No fim da conversa ele estava satisfeito com
a ideia e disposto a fazer de tudo. Menos de 48h se passaram e ele me enviou a
mensagem e ela dizia que ele havia descoberto nessas poucas horas que não a
amava realmente e mais algumas frases vindas de seu ego decepcionado por ter
sido rejeitado.
Isso foi o suficiente para me
abalar. Quase chorei. Não sabia o que era amor, vinha assistindo a uma palestra
que mostrava tudo aquilo que Não era amor e em meio a isso vejo uma demonstração
real de tudo isso.
Muito do que pensamos ser amor
não passa de nossa ambição de possuir, desejo de conforto, prazer, satisfação,
suprimento de nossas carências internas. Quando paramos para observar é disso que
cercamos nossa vida. Por que ele se desesperou? Pelo amor ou pelo desejo
perdido?
Mas então o que seria o
amor...
O vídeo é conturbado com uma audiência
cheia de pensamentos vagos e perguntas fora de contexto, passa mais de uma hora
e não tive a resposta, ficou a meu cargo descobrir.
Tem um caco de flores no meu
quarto e parei para observar. O amor deve ser fruto da observação, eu observo a
flor, vejo seu formato, suas cores, limitações e beleza. Eu apenas observo, não
tiro do caco, não corto suas pétalas. Respeito, observo, deixo que leve sua
vida e sigo com a minha.
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Estávamos andando na rua quando o segurei pelo braço, ele virou e
paramos virados um para o outro. Olhe nos meus olhos, eu disse. Olho dentro dos
meus olhos e ouça o que te direi agora. A arte é um retrato da sociedade. Como
que você pode pedir uma música com qualidade? A música trata da vida cotidiana
das pessoas. A música fala do dia a dia das pessoas, fala dos seus desejos, das
suas angustias, dos seus medos e ambições. Se a música é vazia é porque a vida
das pessoas também é vazia. Toca na mesa do bar no fim do expediente que é pra
fazer o quadradinho, reboladinha, esfrega e rola. Se isso satisfaz os ouvintes
é porquê muito na vida dessas pessoas se limita a isso.
Hoje eu entendi que o dia era para escrever. Todos os planos cancelados,
a internet cortada na biblioteca e em casa, presa comigo mesma entre carros e
um tanque de gasolina que diminui rapidamente. Não foi essa semana que coloquei
quase cinquenta reais? O dinheiro vai escoando pelos dedos e a gente nem se dá
conta.
O céu visto pela minha janela
parece estar mais distante do que antigamente apesar das nuvens densas que ao
decorrer do dia fazem um chuvisco. Tão engraçado como as nuvens parecem estar mais
altas, e mesmo nublado a cidade ainda brilha com os resquícios de luz solar. Moro
na cidade que têm tudo para ser o paraíso. Belezas naturais em cada esquina, um
centro histórico com prédios construídos há mais de quinhentos anos, uma
população que sabe e gosta de festejar, pessoas que se dedicam no dia a dia
para receber o seu salário e viver uma vida digna.
Me lembro ainda de quando
minha vó tinha saúde e me contava que passava um rio pela nossa rua, lembro das
aulas de história em que o professor dizia sobre o rio que cruzava o centro
histórico, de quando minha mãe falava que o ônibus não passava naquele bairro
onde o rio aos poucos desapareceu. Eu ainda cheguei a ver muitos dos poucos
rios que haviam sobrevivido até os anos 90, mas todos eles já tinham virado
coletores de esgoto a céu aberto. Que criança saberá que ali onde hoje fica o
parquinho antigamente era o rio esgoto? Todos os rios foram mortos à medida que
a cidade crescia e depois lacrados em tubos de cimento para dar passagem aos
carros. Minha cidade que têm tudo para ser o paraíso na Terra perdendo seus
brincos de ouro, sua Veneza tropical.
Entre um prédio e outro um
pouco de mato e um coqueiro que nem é nossa árvore típica. Mas como que duas
bandeiras triunfantes dois coqueiros estendem suas palhas solitárias em um
plano de fundo distante. Até lá só a selva de pedra. Engraçado como eu consigo
imaginar a cachoeira que descia pela ladeira e o vale onde hoje se encontra a
rua comercial. Entre o vai e vêm de pessoas eu me pergunto se será que é isso
mesmo que eu vim fazer aqui: destruir mais, comprar o que não preciso, gastar o
que não tenho.
São tantas coisas acontecendo
ao mesmo tempo, mas a população é o que toda boa cidade tem de melhor. Na minha
cidade que poderia ser o paraíso, a população é extremamente religiosa e
supersticiosa, varia entre gente que se veste de branco toda sexta ao pregador
com a sua bíblia no ponto de ônibus. A religião é diversificada, mas mesmo
proclamando que Deus é amoroso e perdoou a todos, seus fiéis mais próximos
ainda não conseguiram entender a diferença entre opinião pessoal, respeito e
compreensão do que hoje chamamos intolerância religiosa. Esse dilema entre
valores ainda complica a convivência na comunidade, mas mesmo assim vamos
vivendo entre pedradas e cultos dominicais. Como dizem “aquele que nunca pecou
que atire a primeira pedra”, fico a pensar quantos santos e não pecadores
existem por aí para termos tantas pedras sendo atiradas uns aos outros. Falando
nisso fui na festa da lavagem outro dia porque aqui tem lavagem para tudo, rua,
escada, beco, encruzilhada. É só dizer o dia e o local que a lavagem será
armada. A lavagem para quem não sabe é uma festa popular com muita música,
bebida e dança, podendo ter uma conotação religiosa ou profana. Aos mais
íntimos da cultura a lavagem também pode vir acompanhada da enxaguada, que nesse
caso também é uma festa, mas que pela ordem dos fatores se o leitor for bom de
lavar roupa, ocorre depois da festa da lavagem.
Apesar de tudo as pessoas no
fundo têm um coração bom. Alguém pode até te dar um copo de água e um lanche se
você aparentar faminto, mas tenha a cautela de verificar se já não está
estragado, pois muitas vezes doamos aquilo que não nos serve mais de tão duro
que o pão está ou de tão antigo que o feijão ficou na geladeira. A boa vontade
existe e é latente, mas resistimos muito a oferecer ao outro aquilo que ainda nos
serve. Talvez sejam marcas de uma pobreza antiga ou o pensamento de que amanhã
aquele pote de feijão ainda poderá salvar o almoço. Entretanto, se te oferecerem um copo de
cerveja tenha certeza que ele virá gelado, pois na bebida todos se encontram
com a garrafa recém-aberta.
Aqui todo mundo é tio ou tia
se o interlocutor for uma criança pequena ou adolescente. A proximidade cruza
inúmeras barreiras e em poucos minutos você pode virar o amigo de infância ou a
princesa de alguém. Conversas de negócio podem vir acompanhadas de piadas e
apelidos numa via informal. Mas apesar de parecermos relaxados aqui o trabalhador
sai cedo de casa e sempre se depara com o engarrafamento constante e o ônibus
cheio. Ouvi outro dia de um rapaz na rua que a cidade estava estranha pois ele não
havia pego um engarrafamento. Se eu pudesse faria a cidade ficar estranha todo
dia, mais ainda se fosse capaz de reduzir a música alta e o número de outdoors.
Uma cidade linda mesmo sendo
feia. Ainda lembro quando falei essa frase sem sentido. Estava dirigindo dois
anos atrás pela cidade baixa com um amigo no carona. Ele de outro estado
replicou que aqui não era lá um lugar bonito. Não podia deixar aquilo passar,
tinha tanto orgulho da minha cidade que os meus olhos viam beleza até nas casas
caídas e no povo sofrido. Como não admirar aquele que tem força e segue em
frente mesmo no caos? Como não achar bonita as marcas de sol no rosto de quem
aguenta passar o dia inteiro exposto pelas ruas. Muita crueldade não ver a
bravura e a beleza que moram nesses atos.
A minha cidade em seu projeto
que não existiu tinha tudo para ser o paraíso, hoje ela tem tudo, shopping da
moda, carro importado, roupa bonita, só não tem a minha bucólica paz.
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Música
Atualmente eu prefiro deixar o
rádio desligado. A mesma música que eu ouvia quando criança é a que toca no
especial do meio dia e quando não é sobre amor é sobre sexo ou sobre sexo sem
amor.